sábado, 20 de outubro de 2012

Quem matou o Max? Ou quem não pagou a conta? Julio Roitberg





Quem matou o Max?
Ou quem não pagou a conta?
Julio Roitberg, 20/10/2012

Não sei se me incluo na categoria dos noveleiros, daqueles que trocam tudo por uma boa novela, do mesmo modo que  desde garoto, me encantava pelas narrativas, pelos livros, pelas histórias em quadrinhos, pelos álbuns de figurinhas, pelos desenhos animados, pelas fotografias. Com o tempo, desenvolvi o hábito de procurar não perder nem o primeiro, tampouco o último capítulo de uma novela, assim como sair caçando figurinha mais difícil a completar uma página de meu álbum. Como bom carioca, nascido e criado nas classes populares. 
Mas, o que há para acontecer de pior no último capítulo de Avenida Brasil, novela da Rede Globo de televisão, de autoria de João Emanuel Carneiro? Tudo bem que há tempos escuto de pessoas inteligentes que novela aliena, deixa o povo anestesiado para a vida real, que é por isto que o país não vai pra frente e  que novela é coisa de gente que não tem coisa mais importante pra fazer e fica, ali na frente da TV, feito idiota, apenas consumindo, consumindo, consumindo.  Se pensar em alienação enquanto momento de extravasamento, do sonho, das licenças, elas sempre me foram permitidas: pelos livros, pelo cinema, através da leitura dos outdoors, das músicas, das mídias as mais diversas possíveis. 
Claro que a pedagogia da imagem, como me ensina o meu amigo, impera em produções da mídia massiva, principalmente,  a fixação das idéia (?!) das classes sociais, de que se pode ser muito mais feliz vivendo em situação de risco, de abandono por parte dos poderes públicos, distante de outros bens culturais, do cada um no seu quadrado. Afinal,  “eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci. E poder  me orgulhar. E ter a consciência que o pobre tem seu lugar”, como diz a canção de MC Cidinho e MC Doca. 
Entretanto, discussões bacanas sobre a relativização do bem e do mal, da inversão de papeis, da ética, do prazer e da estética, de consumo e produção cultural, não foram poucas em relação a esta novela. Assistir  Avenida Brasil, principalmente, nas últimas semanas,  no meu caso, representou um paradoxo, ao me trazer à realidade, fazendo com que eu  priorizasse o desperdício do tempo pras coisas inúteis - ainda que bem distante do ócio... Se todos que se encontram diante da TV permitem-se alienar, quantos pneus eu já não teria comprado? No mínimo, teria um quarto cheio deles. E isto pra não falar dos carros maravilhosos, das roupas, dos perfumes. Os itens de consumo em Avenida Brasil, claro, foram, também, de outra ordem: o consumo dos valores, dos gostos, dos hábitos. 
A construção de um cotidiano, cujas táticas dos praticantes revertem o discurso das ausências, da falta, da pobreza. Ou seja, da pretensa subalternidade do agir, fazer e pensar de uma cultura em detrimento de uma outra que se pretende hegemônica, face ao gosto popular. O trabalho exaustivo do escritor com as identidades, com as representações sociais, com os hábitos e consumo dos moradores do Divino, “pertinho de Madureira." - como diz Arlindo Cruz, cantor e compositor - "É só saltar e sair sambando da Estação”. Tudo bem que decantar os subúrbios cariocas não seja nenhuma novidade, ainda mais diante da impossibilidade de João Emanuel Carneiro, em fugir às regras elementares da literatura posto que já tão exaustivamente contados nos romances de Lima Barreto, autênticos tratados antropológicos de um Rio de Janeiro. Mais carioca?! Impossível. 
O que desponta na produção artística é a qualidade e a originalidade na mistura dos ingredientes. E sem o menor pudor em comparar uma novela de televisão aos (hoje) “clássicos” da literatura, penso que, em Avenida Brasil, entraram em campo, pra bater bola os personagens de João Emanuel Carneiro e de Lima Barreto, principalmente com o conto O Homem que sabia Javanês (1911) e os romances Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915) e Clara dos Anjos (1948, póstumo), sem critério algum para eleger estes em detrimento do restante de sua obra. As narrativas urbanas  e a cartografia carioca realizadas etnograficamente por um morador no subúrbio do Rio de Janeiro, entre 1902 e 1922, revelam um escritor além de seu tempo, antecipando traços a compor os textos modernos. 
Como não aproximar  as cenas e os cenários cariocas representados pela prosa, ao final da tarde, com as cadeiras na calçada, a cervejinha regando, nos relatos do “Homem que Sabia Javanês”,  o papo gostoso na mesa de um botequim. O vendedor ambulante a fazer o pregão inflamado na porta da loja, o Darkson, na pele do ator José Loretto, mergulhando na atmosfera dos mercados árabes do camelódromo. O cantor de modinhas em “Triste Fim...”, que pretendia ser reconhecido em outros ambientes que não o seu, também,  em Avenida Brasil, ganhou proporções na dinâmica das escaladas sociais: Suellen (Ísis Valverde), de João Emanuel Carneiro e Ricardo Coração dos Outros, de Lima Barreto. Ela, a Maria chuteira da novela, personagem que se densifica em meio a um relacinamento com dois companheiros, jogadores de futebol do Divino F.C. Ele, personagem de Lima Barreto, em Triste Fim de Policarpo Quaresma, assim como o autor, às voltas com a situação do não reconhecimento artístico. 
Mas, guardando as  devidas distâncias temporais, culturais e sociológicas que separam aquela produção das de hoje, na novela, intensificaram-se os diálogos com outros moradores, que circulam em vários mundos, em um mesmo (?!)  Rio. Entre a Zona Sul e o Subúrbio. Mas, afinal, o que poderia acontecer de pior naquele último capítulo? Impregnado pelas campanhas da emissora em fazer daquele momento um momento agradável diante da telinha, de preferência junto aos amigos, me joguei no sofá da sala, próximo a tudo o que me permitiria alienar-me, só pra descobrir quem matou o Max, mas para, mais uma vez, me deixar iludir com as punições e as premiações devidas. 
Alegrar-me com quem iria casar com quem  e quem engravidaria e teria filhos. Sobre as situações matrimoniais, Cadinho com suas três mulheres representou um ganho a mais nas discussões sobre a cultura dos relacionamentos abertos, isto sem trauma nenhum. Situações traumáticas não foram poucas na novela:  não só a do Adauto (Juliano Cazarré),  que ganha o apelido de Chupetinha, na cena final, após a cura de um trauma representada pelo bullying sofrido enquanto criança, revelando o seu segredo, assim como a paixão entre as protagonistas Nina (Débora Falabela) e Carminha (Adriana Esteves), movendo toda a trama novelesca entre os diversos congelamentos ao final de cada capítulo.  O abraço entre duas personagens, já ocorrido durante a novela, e que se repete ao final, trasparece a identidade comum entre as personagens, como se fora apenas uma, duas ou várias faces de uma mesma moeda, colorida e em branco e preto durante os diversos “congelmentos”, garantindo um clímax, nada a dever aos folhetins alencarianos. 
Pensando em qualidade textual, não há como não elogiar os nexos de coesão e coerência mantidos por toda a trama, assim como os recursos audiovisuais, compondo a narrativa do escritor. Sim, porque muitos daqueles que criticam o hábito de assistir novelas se esquecem que por trás delas há um escritor e meu gosto pelas narrativas não me permite deixar de pensar nisso, principalmente, quando estou gastando o meu tempo diante de uma novela. 
É assim: a novela é boa pelo mesmo motivo que há excelentes e medíocres times de futebol, isto pra não ser pedante e afirmar ser  o meu como o melhor, recorrendo ao escritor e dramaturgo tricolor, Nelson Rodrigues: “Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos repondo: pior para os fatos”.  O que se revela, então? Quem tem dinheiro bastante, paga os melhores profissionais de TV assim como compra os melhores jogadores. E ponto. Os melhores atores, iluminação, sonosplatia, roteiro, tudo impecável. 
Agora, o que fez com que este último capítulo adquirisse uma cor diferente, entre o cinza e o branco e o "cordelismo encantado" do lixão, dentre os tantos finais a que assisti foi, que, a TV ficou congelada, quer dizer preta, quer dizer... Como assim falar luz no último capítulo de Avenida Brasil?! Sim, a Light conseguiu bater o recorde de audiência... em reclamações. http://www.noticiasbr.com.br/imagens/2012/10/novela-avenida-brasil-adauto-faz-golaco-e-divino-sobe-para-primeira-divisao1.jpg





O clímax tão sonhado pelos escritores. Bateu a Globo, com certeza. Foi mais falada que toda a obra de José de Alencar e Lima Barreto, juntos. Mas, tudo bem. Hoje vai repetir. Mas, cara pálida, imagina a situação: o Adauto vai bater o pênalti fatídico, após ter vencido o trauma,  da chupeta, faz o gesto com dedo na cabeça, se prepara, corre pra bola e...

Escuridão total.

Minha casa, a rua,o bairro.

Imediatamente, não podia deixar de pensar: isto é porque moro na periferia! Mas, a novela toda não veio fazendo um elogio a esta vida bucólica que permeia tanto os subúrbios cariocas como toda a Zona Oeste e Baixada? E isto sem pensar nos estereótipos construídos às custas do imaginário suburbano. Teria sido este o silêncio da incompreensão do Adauto diante daquele pênalti perdido no passado? Da torcida, perplexa do Divino F.C. que dependia daquele gol pra se ver na Primeira Divisão? Do silêncio e perplexidade, do “maracanaço”, no Estádio do Maracanã, misto de desolação e incompreensão, a fatídica final, da Copa do Mundo FIFA,  entre Brasil e Uruguai, em 16 de julho de 1950. O empate, por si só, já garantiria o título ao Brasil, devido à excelente campanha. 
Adauto suplanta a si mesmo. Mas quis o Destino diferente. Muito além do atacante Ghiggios, autor do gol, aos 79 minutos, finzinho da partida, e dos cornos com que o autor decorara a cabeleira do Adauto. A conta de luz está paga. Adauto tem a sua redenção, assim como todos os personagens desta novela. Max encarna o personagem trágico cuja morte conclui a catarse necessária. Quanto à Light, deixa pra lá, porque a luz já voltou. Exatamente por isto é que termino este texto com o pouco de bateria de meu notebook,  além de que o dia já começou e pede a realidade... da poesia.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Storytelling e Transmídia: afinal, o que é e para que serve? Bruno Scartozzoni

Storytelling pode ser definido de várias maneiras, mas a que importa nesse caso é que se trata de uma poderosa ferramenta para compartilhar conhecimento, utilizada pelo Homem muito antes do que qualquer mídia social. Para ser mais exato, há algo em torno de 30 a 100 mil anos, quando acredita-se que o Homo Sapiens Sapiens desenvolveu a linguagem.
Para entender essa ferramenta é preciso saber a diferença entre duas palavras da língua inglesa: “history” e “story”. A primeira está relacionado com fatos reais, como a queda do Império Romano ou alguma coisa que aconteceu na sua vida, rotina ou não. A segunda é uma estrutura narrativa, geralmente ligada à ficção, mas não necessariamente. Na língua portuguesa o correto é escrever “história” para ambos os casos, por isso, a partir de agora, entendam que sempre estarei me referindo à “story” ok?
Contar uma história é encadear eventos de maneira lógica, dentro de uma estrutura com certos padrões que, de forma muito resumida, são:
- Uma quebra de rotina. Histórias são sempre sobre eventos extraordinários. A não ser em “filmes de arte”, não há motivo para contar uma história sobre o cotidiano.
- Pelo menos um protagonista, que é o personagem com o qual as pessoas devem se identificar. Ele sempre deve estar buscando algo.
- Pelo menos um antagonista, que pode ser desde um super-vilão estereotipado até uma sociedade inteira, uma doença, o tempo etc. O importante é criar obstáculos para o protagonista.
- Conflito, ou seja, a tensão desse embate entre os elementos opostos. É isso que segura a atenção do público.
- Uma sequência de eventos com começo, meio e fim, passando por pelo menos um climax. O famoso “plot“, essencial para que a história faça sentido para as pessoas.
Por incrível que pareça essa estrutura narrativa é utilizada desde quando nossos ancentrais se sentavam em torno das fogueiras e contavam sobre caçadas. Dessa forma, além de entreter a tribo, eles conseguiam “viralizar” e perpetuar suas aventuras, onde estavam contidos conhecimentos necessários para sua sobrevivência, desde coisas práticas até expectativas da conduta dentro daquele grupo, passando por tentativas de explicar os mistérios da vida e do universo.
No melhor espírito “quem conta um conto aumenta um ponto”, essas histórias vão se modificando e daí nascem as mitologias, dando forma às culturas locais. Depois temos a invenção da literatura, teatro, cinema, quadrinhos, videogames e uma infinidade de meios e estilos cujos objetivos do ponto de vista da sociedade são exatamente os mesmo desde sempre.
Se isso te interessa, aí vai uma dica: O Poder do Mito, série de entrevistas com o mitologista Joseph Campbell. Tem em livro ou DVD.

POR QUE UTILIZAR STORYTELLING?
Guardamos uma informação mais facilmente quando ela está envelopada nesse tipo de estrutura. O segredo está em atribuir significados emocionais à elementos técnicos por meio de um contexto. Se você assistiu O Náufrago, sua percepção sobre uma bola de vôlei da Wilson é completamente diferente da percepção de uma pessoa que não viu o filme, ou então em relação à uma bola tecnicamente idêntica, só que de outra marca.
Se você gosta de dados, o renomado psicólogo Jerome Bruner descobriu que um fato tem 20 vezes mais chance de ser lembrado se estiver ancorado em uma história. Em outras palavras, tendemos a achar que nossa memória funciona como um álbum de fotos, mas na verdade ela está mais para uma coleção de filmes. Se você gosta de neurociência, dá uma olhada nos neurônios espelhos.
COMO POSSO UTILIZAR STORYTELLING?
Há uma infinidade de formas, com maiores ou menores graus de dificuldade e eficiência. A mais básica seria pegar a história real da sua marca, ou seja lá o que estiver querendo vender, e reorganizar os fatos de forma que estejam dispostos em uma estrutura de história. Mais ou menos como um filme “baseado em histórias reais“. O problema é que nem sempre dá para garantir que a marca tenha uma “history” legal o bastante para render uma boa “story”. Teoricamente você pode fazer um filme baseado em qualquer coisa, mas daí para ser um sucesso de bilheteria é um gap enorme. Um filme sobre o Steve Jobs e a Apple provavelmente seria bom, mas no mundo corporativo isso é exceção.
Na outra ponta tem a ficção, que permite um controle muito maior dos personagens e do plot, aumentando as possibilidades de engajamento e também de desdobramentos. Dois exemplos de como isso pode ser feito:
- Popeye, o herói marinheiro criado em 1929, originalmente não precisava comer espinafre para ganhar força. Esse elemento da história só foi introduzido algum tempo depois, quando houve as primeiras adaptações dos quadrinhos para o cinema. Dizem que isso teria sido um product placement de uma empresa de espinafre. Verdade ou não, o fato é que o desenho aumentou o consumo de espinafre nos EUA em 30% nos anos subsequentes, salvando esse segmento de uma crise.
- Coca-Cola Happiness Factory, famoso case da W+K, é um exemplo mais moderno de como um universo ficcional pode ser criado para uma marca. Trata-se um mundo que se passa dentro da vending machine, com personagens e regras próprias. Teria sido melhor ainda se o universo e personagens funcionassem suficientemente bem fora do ambiente de comunicação da Coca-Cola, por exemplo, sustentando um longa metragem ou uma série de quadrinhos. Não chegou lá, mas quase.
- No meio do caminho entre esses dois extremos, dá para, por exemplo, pegar carona com product placement em uma outra história.
- Nessa apresentação você pode encontrar outros exemplos.


, em Update or die, acesso em 16/10/2012

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


MOISÉS, Carlos Felipe. Conversa com Fernando Pessoa: entrevista e antologia. São Paulo: Editora Ática, 2009. p. 96-97)

sábado, 13 de outubro de 2012

Alguns equívocos literários


Desinformação quase sempre e às vezes até mesmo ma fé têm provocado alguns equívocos na literatura de todos os tempos. Durante algum tempo se disse que Shakespeare nunca existiu e que a obra a ele atribuida era na verdade de Francis Bacon. Nunca houve um Homero, a Bíblia foi reescrita pelos apóstolos, Heródoto não foi um, mas vários historiadores. Confusões que foram talvez esclarecidas mas outras acabam por ser aceitas como verdades.

Aqui, Silvana Guimarães e José Nêumanne Pinto denunciam três equívocos recentes que estão quase se transformando em verdades, com a ajuda da internet. Envolvem três poemas: um que não é de Brecht, outro que não é de Borges e um terceiro que não é de Garcia Marquez

Seguem-se um billhete de Silvana e um artigo de Nêumanne Pinto:

Caro Celso

Estou chegando de viagem, voltando de férias longe, em NY. Mas, botando a vida em dia, fui conferir as novidades de 'Uma Coisa E Outra', acabei achando lá um dos equívocos poéticos mais antigos de que se tem notícia na poesia brasileira.

Veja como está:


A caminho com Maiakovski
(Bertolt Brecht)
Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim: não dizemos nada.
Na segunda, já não se escondem. Pisam as flores, matam o nosso cão e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Veja como é:


NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI


Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
  
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

EDUARDO ALVES DA COSTA
Niterói, RJ, 1936

Nota: Poema publicado no livro 'Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século', organizado por José Nêumanne Pinto, pag. 218.

Estou preparando uma edição sobre o poeta Eduardo Alves da Costa. Breve sai no PD.


O Artigo de Nêumanne

No meio dos alertas sobre os perigos do Aspartame, das correntes que prometem alimentar crianças pobres com um simples toque na tecla e das promessas de cheques em dólares em troca de informações sobre novos procedimentos na rede, dois textos literários destacam-se na Internet pela semelhança e pelas nobres assinaturas. Um é o poema Instantes, atribuído ao argentino Jorge Luís Borges. O outro, o poema em prosa Marionete, atribuído ao Prêmio Nobel da Literatura Gabriel García Márquez. Ambos são ruins. Ambos são falsos.

Do segundo ainda não se sabe exatamente a origem, muito embora já se saiba que partiu de Barcelona, onde fica o escritório da agente literária de García Márquez, Carmen Balcells. A respeito do texto, ela foi categórica, mandando dizer por fax: "Não reconheço uma só palavra como pertencente a Gabriel García Márquez". O jornalista cubano Carlos Alberto Montaner disse não crer que "Gabo tenha escrito algo tão ruim". Após ouvi-lo, a escritora brasileira Nélida Piñon, Prêmio Juan Rulfo, ironizou: "O poema é tão ruim que, se fosse meu, eu negaria. Aliás, eu lhe negaria até um cumprimento".

O jornalista e escritor brasileiro Eric Nepomuceno, tradutor e amigo de García Márquez, mesmo reconhecendo que o colombiano escrevera textos de má qualidade na longínqüa juventude, afastou essa possibilidade por causa das citações do poeta uruguaio Mário Benedetti e do cantor e compositor catalão Joan Manoel Serrat, dos quais o Prêmio Nobel só tomou conhecimento quando já era famoso.

Instantes

O certo é que o poema em prosa atribuído a García Márquez assemelha-se bastante no tema piegas e no estilo cafona a outro, também erradamente atribuído a Borges desde 1987: Instantes. Esse foi usado pelo então líder sindical e hoje deputado federal Luiz Antônio Medeiros num cartão de Natal, reproduzido em pôster, citado como epígrafe no livro de poesia de Granadeiro Guimarães e encaminhado na semana passada ao jornalista paraibano Carlos Aranha, que o reproduziu em sua coluna diária no jornal Correio da Paraíba, de João Pessoa. Sempre tido como de Jorge Luís Borges, apesar de não constar de suas Obras Completas, ora sendo traduzidas e publicadas no Brasil.

Nem poderia constar. A viúva do escritor, Maria Kodama, contou, por telefone de Buenos Aires, que teve o cuidado de ir à Justiça deixar registrado que o texto não era da lavra de Borges e que ela, como sua herdeira, não recebe - nem quer receber - direitos autorais. Fê-lo para evitar que sua verdadeira autora, a norte-americana Nadine Stair, reclame da falsa atribuição de autoria do texto a Borges.

Segundo Kodama, "o poema foi publicado originalmente numa antologia editada pela Bantam Books, traduzido para o castelhano e incluído, em 1987, numa revista de New Age chamada Uno Mismo, ao lado de uma caricatura e uma legenda de Jorge Luís Borges. Um locutor de rádio leu a revista, imaginou que o poema fosse de Borges, então já morto, e, assim, o divulgou".

O escritor gaúcho Moacir Scliar sente-se parcialmente responsável por essa divulgação no Brasil, por ter encontrado o texto em Buenos Aires e publicado em português em Porto Alegre. Mas fez questão de reproduzir a versão de Maria Kodama no jornal. Só que isso até agora de pouco adiantou. O texto continua circulando impresso ou na telinha do computador, como se fosse uma espécie de pecado literário borgiano.

Má-fé ou engano?

Mesmo havendo indicações de que tudo pode não ter passado de um engano em cadeia, Maria Kodama não afasta a possibilidade de haver uma dose de má-fé na insistente atribuição do poema, que, segundo ela, "é péssimo", ao marido.

A hipótese do engano é reforçada pelo que ocorreu com um trecho do poema No caminho com Maiakóvsky de autoria do brasileiro Eduardo Alves da Costa, muito citado como se fosse do alemão Bertolt Brecht, por ter sido incluído num pôster ao lado de um poema do autor de Turandot, ou do gênio russo, certamente por ter sido citado no título. O problema é que, ao contrário desse caso, em que o poema é de boa qualidade literária, os textos falsos são de má feitura.

De Madri, onde mora, pela mesma Internet que divulga esses equívocos, o jornalista dissidente cubano Carlos Alberto Montaner contou a saga de um chileno chamado Undurraga. Segundo ele, "o tipo misturava versos de Pablo Neruda com editoriais do jornal cubano Granma, compondo poemas falsos que conseguia publicar em publicações especializadas ou inscrevê-los em concursos literários, que vencia por atribuí-los sempre ao grande poeta chileno".

O que mais intriga, no caso do falso poema em prosa, de autor desconhecido e atribuído a García Márquez, é ele se assemelhar muito ao falso poema atribuído a Borges, mas de autoria conhecida. É mais um mistério da Internet.

Instantes

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido; na verdade, bem poucas pessoas
levariam a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria
mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a mais
lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais
problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida. Claro que tive momentos de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feito a vida: só de momentos - não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera a continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.

De Nadine Stair - Atribuído a Jorge Luís Borges


Marionete

Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de
trapo, e me presenteasse um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas definitivamente pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem, senão pelo que
significam. Dormiria pouco e sonharia mais, entendo que por cada
minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.

Andaria quando os demais se detêm, despertaria quando os
demais dormem, escutaria enquanto os demais falan, e como
desfrutaria de um bom sorvete de chocolate...

Se Deus me obsequiasse um pedaço de vida, me vestiria com simplicidade, me atiraria de bruços ao sol, deixando descoberto, não somente meu corpo, mas também minha alma. Deus meu, se eu tivesse um coração....
Escriveria meu ódio sobre o gelo, e esperaria que saísse o sol.

Pintaria com un sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema
de Benedetti,e uma canção de Serrat seria a serenata que
ofereceria à luaa. Regaria con minhas lágrimas as rosas,
para sentir a dor de seus espinhos,e o encarnado beijo de suas pétalas...

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida... Não deixaria passar um só
dia sem dizer à gente que quero, que a quiero. Convenceria a
cada mulher e homem de que são meus favoritos e viveria enamorado
do amor.

Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar que
deixam de enamorar-se quando envelhecem, sem saber que envelhecem
quando deixan de se enamorar. A uma criança daria asas, mas deixaria
que ela aprendesse a voar sozinha. Aos velhos, a meus velhos, ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi de vocês, homens..... Aprendi que o mundo todo quer viver no alto da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com seu pequeno punho pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem amarrado para sempre.

Aprendi que um homem unicamente tem direito de olhar
outro homem de cima para baixo, quando o tiver ajudado a se levantar.

São tantas coisas as que pude aprender de vocês, mas
finalmente de muitoo não haverão de servir porque quando me
guardem dentro desta maleta, infelizmente estaria morrendo....

De autor anônimo - Atribuído a García Márquez


Trecho de No caminho com Maiakóvski

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

De Eduardo Alves da Costa - Atribuído a Bertolt Brecht e Vladimir Maiakóvski

De Uma coisa e outra - Literatura, visualizado em 13/10/2012