Fotos de JRoit, em 7/11/12
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
É therna
Era assim…
Hera, sim!
Eras assinalada
Grudada
Acima do
muro
A sina
alada
Alça que se
lança
Além do
muro
Pra livre
trepadeira
Derradeira
hera, sim
ples
mente
Além das pedras
Além do muro
Era assim...
domingo, 13 de janeiro de 2013
Um tempo redondo para a narrativa transcontinental de Mia Couto
Julio Roitberg, 06/01/2012
Diz
Roland Barthes, em S/Z (1970) que “há por um lado, o que é possível escrever e,
por outro, o que já não é possível escrever: o que está na prática do escritor
e o que se afastou dela.” (p. 12). Aquilo que criou significação para Mia Couto,
fugindo a toda possibilidade de leitura viciada, arquivada em nosso “museu do
imaginário”, entre tantas metáforas petrificadas, é o material, ardente de
vida, deste seu livro. A matéria de que
lança mão é o “escrevível”. Questiona, implica, evoca, invoca e, finalmente, convoca, falando, com toda
propriedade, atestada, tanto, pelo reconhecimento do conjunto de sua obra,
assim como por uma escritura que se apresenta em uma sintaxe direta, lógica e
gostosa de ser lida.
Em
“E se Obama fosse africano?”, as memórias e as lembranças fundem-se naquilo que
o autor nomeou por “interinvenções”, neologismo que congrega
intervenções e invenções realizadas em diversos momentos e lugares fluindo em
uma temporalidade mítica. Suas narrativas, mescladas à prosa poética - “ensaios” - dão suporte a um conjunto de textos que deambulam,
rosianamente, na “terceira margem”, ao mesmo tempo, em que não se afasta da
prática, da proposta de uma intervenção social.
Em
“Os sete sapatos sujos” (p. 25-47),
denuncia a vitimização, o coitadismo, a inércia, a esquecimento
voluntário, a justificativa pelas ações dos outros, a culpabilização através do
destino, a atávica presença das forças ocultas e da magia, questionando “o
que preciso mudar dentro e fora de
África? (p. 27), a fim de não continuar
a atirar poeira para ocultar responsabilidades”.
Os
“sete sapatos” -, cujo abandono na soleira da porta mostra-se imperioso, em
função dos novos tempos, para que se possa entrar neste futuro que todos
querem, descalços de preconceitos, são enumerados e sequenciados, assim: Primeiro sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros e nós
somos sempre vítimas; Segundo sapato: a ideia de que o sucesso não nasce do
trabalho; Terceiro sapato: o preconceito de quem critica é um inimigo; Quarto
sapato: a ideia de que mudar as palavras muda a realidade; Quinto sapato: a
vergonha de ser pobre e o culto das aparências; Sexto sapato: a passividade
perante a injustiça; Sétimo sapato: a ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros
Impregnando
– e mesclando – a poética brechiana com o convite a uma prática que leve à emancipação,
em consonância com o nosso maior educador, a leitura cinematográfica deste
livro projeta-se - e lança o leitor!- em uma tela, por meio das “conversas”. E
é este andamento conversacional que balança a viagem entre as narrativas. Este “saber-fazer”,
“saber-dizer”, “saber-ouvir” (LEAL, 2006, p. 25), enquanto modo de escrituração,
traduz, atualiza, exatamente porque suas representações assemelham-se mais à
contação de estórias, abrindo larga distância das narrativas lineares,
enrijecidas na linearidade do espaço e do tempo. Para ouvir Mia Couto e suas
narrativas transcontinentais, bem além das suas Áfricas, pede-se um tempo
redondo, bem mais largo que este que nos obriga a cessar a leitura, a esquecer
das lembranças, a interromper a conversa. Porque o dia amanhece.
Para
Leal (2006), citando Lyotard (1993)
Os relatos trazem
uma “função letal”: nessa mistura, tempos são apagados, perdidos, mesmos porque
toda narrativa existente, contada, é sempre presente, atual. Com isso, funda-se
pragmaticamente, [...] uma temporalidade simultaneamente “evanescente” e “imemorial”,
constituída no “ato presente que desdobra, cada vez, na temporalidade efêmera
que se estende entre o eu ouvi dizer e vocês vão ouvir”. (LEAL, 2006. p. 25)
Incendiando
o horizonte além da fronteira transcontinental: das savanas africanas para o
mundo – com um recorte especial para o Brasil de Jorge Amado e de Guimarães
Rosa -, possibilita, em sua prosa
conversasional, uma viagem entre o épico, o lírico e o dramático (STAIGER, 1975),
abrindo as trilhas de acesso às eternas lembranças.
Este
deslocamento espaço-temporal, entre os gêneros poéticos, acompanha a
compreensão de Mia Couto sobre as línguas, “[...] as mais poderosas agências de
viagens, os mais antigos e eficazes veículos de trocas” (p. 174), o que é
ilustrado em “O incendiador de caminhos”: todos nós já conhecemos os mais
diversos lugares e paisagens, independente de termos embarcado em um avião e,
rapidamente, estarmos em um outro continente.
Não existe
geografia que nos seja exterior. Os lugares – por mais que nos sejam
desconhecidos – já nos chegam vestidos com as nossas projecções imaginárias. O
mundo já não vive fora de uma mapa, não vive fora da nossa cartografia
interior. (p. 74)
Dos
mais remotos desertos, às mais impenetráveis florestas, anteriormente
transpostos e povoados pela imaginação de nossos antepassados que, “antes de
chegarem ao destino faziam deslocar a sua imaginação coletiva.” (p. 74), “mesmo
parados, partimos à procura do que não podemos ser.” (p. 76).
|
O
acesso à zona de embarque – sem a necessidade do check in é
permitido/facilitado pelo exercício da escrita, da escuta e da leitura, atos
que não se restringem ao que se pretende por hegemônico. Lemos, escutamos,
escrevemos bem mais com outros códigos, além dos preponderantes. Os
sinais deixados nas cavernas pelos nossos ancestrais que, em
nossa genética, carregamos, esculpiram nossas memórias, através dos tempos.
Jogando
com a realidade e a mímesis, assume que “a realidade é uma construção social e
é, frequentemente, demasiado real para ser verdadeira.” Em função desta
armadilha, “nós não temos sempre que a levar tão a sério.” (p. 99)
E este tempo não linear, “redondo”
(p. 123), africano, fabular, narrativo, longe da racionalidade cronológica, pode
ser que tenha a ver com a capacidade, segundo o autor, de, ao atualizarmos
nossas narrativas, presentificando-as, inventarmos os nossos cotidianos. Mia
Couto escreve de um lugar em que as ideias de pessoa, de individualidade são
bem diversas nas línguas do Sul da África (p. 80-81). Para Leal (2006) a
estrutura narrativa “só tem sentido quando em relação a um contexto, entendido
tanto como uma realidade cultural, um repertório de textos e gênero e a um
processo comunicacional específico.” (p. 26). E, nas culturas das diversas Áfricas,
cenário-processo-personagem do livro de Mia Couto:
Nós somos como uma
escultura maconde[1] uja-ama[2],
somos um ramo dessa grande árvore que
nos dá corpo e nos dá sombra. Distintamente daquilo que é hoje dominante na
Europa, nós olhamos a sociedade moderna como uma teia de relações familiares
alargadas.” (p. 82).
Bibliografia
BARTHES,
R., avaliação. In: BARTHES, R. S/Z. Lisboa: Edições 70. 1970.
p.11-12.
COUTO,
M. E se Obama fosse africana? (ensaios). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
LEAL,
B. Saber das narrativas: narrar. In: GUIMARÃES, C.; FRANÇA, V. (Orgs.) Na mídia, na rua: narrativas do
cotidiano. Belo Horizonte: autêntica, 2006. p. 19-42.
STAIGER, E. Da fundamentação dos
gêneros poéticos. In: STAIGER, E. Conceitos
fundamentais de poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. p.
160-179.
[1]
Povo do norte de Moçambique
[2]
“Família alargada.” Por extensão, denomina um tipo de escultura em que figuras
várias se aglomeram de forma entrelaçada simbolizando a unidade familiar.” Reprodução
em escultura em http://crocolux.com.Art Acesso em
06/01/2012
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Entre comunidades e favelas: as intencionalidades discursivas
Como
a pauta da matéria de O Globo, de 11/11/2012, deslustra um dos bairros da Zona Oeste do Rio, penso naquilo que a mesma trata por
“carência” nesta e em outras áreas. Se o que se pretende afirmar é um fato, ele se dá em função da
inoperância do estado naquilo que lhe compete, apesar de todo o discurso que tenta esvaziar as suas responsabilidades, fazendo com que grande parte dos
serviços básicos ou não existam ou funcionem muito mal.
Diz
O Globo, de 11/11/2012
“Carência
de serviços públicos influi em voto na Zona Oeste
Na
Zona Oeste, o voto está restrito a poucos candidatos. A região, segundo o
Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), possui a maior área sob o domínio da
milicia no Rio. Dos dez locais de votação com a maior diferença entre o
primeiro e o segundo colocado, sete estão nessa área da cidade. O campeão de
votos em uma única localidade é de Sepetiba, no extremo oeste do Rio. Em quatro
dos cinco locais de votação do bairro, o candidato eleito Willian Coelho (PMDB)
venceu com percentuais que variaram de 30% a 56% dos votos. Durante a campanha,
Willian teve apoio maciço do deputado federal Pedro Paulo (PMDB), coordenador
da campanha do prefeito Eduardo Paes.” (O Globo, 11/11/2012, p. 10)
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| Coreto construído em 1903 |
E
as demais produções em Sepetiba e entorno? As lentes socioeconômicas pouco
contribuem na amplitude das condições de compreensão das realizações cotidianas.
Elas são inoperantes quando não dialogam com as diversas manifestações
culturais e de toda a história da localidade além das aparências. E nisto percebo,
também, um forte antagonismo.
Como
pensar as ações de um Ecomuseu, em Sepetiba, que tem por marco doutrinal o
direcionamento de suas ações ao patrimônio material e imaterial, dando suporte
à recriação histórica das memórias e culturas local, interagindo com todas as demais contribuições
que não desprezam a visão total global/local blindando seus habitantes dos
centralismos perversos, que levam às delimitações do “cada um no seu quadrado”
já tão massificados pelo “eu só quero é ser feliz...”?
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| Temperos do bahiano, na feira de Sepetiba |
Lembro-me
de que muitos daqueles que me entregaram material de propaganda, durante o
período eleitoral, de “seus” candidatos, quando eu recusava dizendo que havia
“fechado com ele” – com o “meu” candidato, declaravam, baixinho, sua intenção
de voto, aliás, bem diferente do que a matéria jornalística apresenta,
ingenuamente ou, o que é pior, desprezando a contribuição de autores voltados
aos “meios e às mensagens”.
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| Comissão de Desenvolvimento Ecomuseu Sepetiba |
Ao
contrário, ao se fortalecer as diferenças locais e a manutenção dos laços
universais em um mundo com suas fronteiras cada dia mais esgarçadas, ou,
mantendo a metáfora, “diluídas”, caminha-se em direção a uma sociedade menos
injusta.
Matérias
com teor semelhante não têm como mencionar – tampouco, dimensionar - as
resistências a este “olhar” generalizante sobre o que os agentes do poder,
utilizando-se da mídia, persistem, caminhando à margem da Constituição.
Na crença de sua eterna invulnerabilidade e detentores
de amplos poderes, esforçam-se em criar, no imaginário, estratégias que lhes
garantirão, encastelados, sua permanência..
Entendendo existir tal
correnteza, que arrasta um mar de opiniões, a mídia massiva constrói discursos
deslocando significados através das palavras.
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| Pescaria ao entardecer na Praia de Sepetiba |
Como
a extinção das palavras precede à materialidade, um destes deslocamentos de
significado é promovido pelo esforço na substituição compulsória de alguns
vocábulos que, historicamente, têm nomeado as coisas.
O
substantivo “favelas”, por exemplo, tacitamente aceito e incorporado por muito,
pelo “sinônimo” comunidades, exige atenção, já que as palavras criam
identidades!
Muito
além do desamparo proposital, colado ao adjetivo “carente”, conforme a matéria,
ele facilita a ação daqueles que pretendem se beneficiar, apostando em suas
crenças na desinformação generalizada e na tal correnteza informacional.
Esquecem-se da força da história, que, se sobrevive aos tsunamis, quanto mais
às ações políticas.
![]() |
| Colônia de Pescadores Z15. Sede do Movimento Ecomuseu Sepetiba |
![]() |
| Decoração do Bar Conexão, na Praça Oscar Rossini |
Arduamente organizado pela Bianca Wild e pelo Bruno Cruz, companheiros incansáveis,
à frente de uma Comissão de Desenvolvimento, da qual eu faço parte, junta-se, no
Rio de Janeiro, aos demais existentes - apenas três!. Sua visão antropológica,
histórica e sociológica, fruto de vivências, estudos e pesquisas têm-se
mostrado suficientes para sua capacitação na coordenação do Ecomuseu de
Sepetiba.
Assim
como a matriz, o Noph - Ecomuseu
de Santa Cruz, dentre suas funções está a apropriação cultural da região pelos seus habitanes, assim como a patrimonialização do espaço vivido, afirmando a subjetividade e a singularidade da comunidade local, acrescentando a busca pela coesão social.
Talvez
esse associativismo em regime de cooperação e colaboração, agindo em parceria
com as escolas do entorno, e demais espaços de educação formais e não formais, possa
dinamizar o surgimento de um ecomuseu pedagógico.
![]() |
| Seu Erasmo |
Os planos de ação do Ecomuseu de Sepetiba não restringem
às culturas locais, porém, interconectadas, através das redes, às demais
realidades planetárias existentes, resultado e motivo das transformações
sociais. E
isto propicia um olhar “além das sombras embandeiradas que separam os quintais”,
como cantou o Raul, além do que se pretende construir como realidade. Penso ser
necessária esta amplavisão, para uma análise sobre liberdade associada à
política, como pretendeu a matéria. Aspectos importantes da cultura e da
história da região foram lançados na periferia do debate entre os entrevistados,
como em uma correnteza de informações.
BARRETO, Raquel Goulart. O discurso da "inclusão". In: Discursos, tecnologias, educação. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2009. p.39-51
BERINO, Aristóteles de Paula. Território. In: A economia política da diferença. São Paulo: Cortez Editora, 2007. p. 29-63.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.
KOCH, Ingedore Villaça. Discurso e argumentação. In: Argumentação e linguagem. 8ª edição. São Paulo: Cortez Editora, 2009. p. 22-23
MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. 6ª edição. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.
KOCH, Ingedore Villaça. Discurso e argumentação. In: Argumentação e linguagem. 8ª edição. São Paulo: Cortez Editora, 2009. p. 22-23
MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. 6ª edição. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.
OLIVEIRA,
Inês Barbosa de. Centro e periferia: a cidade como espaço educativo: processos
de periferização e centralização cultural. In: A cidade como espaço
educativo. Salto para o futuro, ano XVIII, boletim 03, abril de 2008: Secretaria
de Educação a distância, MEC, 2008. p. 27-31.
SANTOS, Milton. A transição em marcha. In: Por uma outra globalização. 16ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record. p. 141-174.
SANTOS, Milton. A transição em marcha. In: Por uma outra globalização. 16ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record. p. 141-174.
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