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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Diário, 7ª semana 7.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 07/23)


Nesta última semana de treino, eu estou saindo hoje, às 6:44, em pleno domingo de carnaval, estranhando  gravar e correr ao mesmo tempo. 

Passo por  muita gente fantasiada,  talvez, voltando pra casa da festa madrugada a dentro saindo para o Carnaval. Neste clima do Reinado de Momo, a gente ainda deu uma saidinha ontem, - eu, minha esposa e nosso filho: fomos numa festinha,  um bloquinho de crianças, lá na Pedra de Guaratiba a convite do dindinho do  Zeca.

Encerro esta semana com o último mesociclo, e início do última, ainda com a ideia de redes nas minhas reflexões. É que quando eu corro,  penso em muita coisa e em nada ao mesmo tempo, para não ficar sufocado ou voltar para o foco de vez em quando - que é bom, também!,  pensando e falando alto, na verdade.  

Já passei por duas moças de moto fantasiadas de diabinho; um rapaz, também; algumas igrejas abrindo agora, mas o movimento não é normal. Não é o movimento dos  domingos: muito automóvel circulando e eu completando 1 km agora, bem abaixo do meu ritmo. 

É que eu estou gravando direto no blog pela primeira vez querendo saber como  acontece um registro, em tempo real, inspirado nos relatos em tempo real do corredor e romancista, Haruki Murakani. Até então,  o máximo que eu fazia era, ao chegar em casa, escrevia algumas palavras para não perder as ideias para, depois, transformar em texto.

Cinco minutos correndo e eu a
 8.2 km/h o que não me surpreende, já que eu começo sempre assim mesmo, acima de oito. A partir de agora, o ritmo vai sair daquela inércia e crescer.  Já comecei a tentar convencer o meu corpo que correr é gostoso (rs),  nisto, quase tropeço num quebra-molas e penso que tenho que prestar atenção.

Quase chegando ao Coreto, passam alguns rapazes dentro de um carro, me chamando de atleta: o ego vai lá pra cima e sorrio. 

Chegando aos  10 minutos de corrida, pace  ainda acima de 7, mas sei que estes 18 km valem como um teste para Meia de Angra, na semana que vem. Um check up de como estou funcionando. Contorno pela Colônia dos Pescadores e passo em frente à Marta - : o melhor peixes de Sepetiba! - , e lhe dou um bom dia. 

Em frente à Igreja de São Pedro, a rua, como previra, já está intransitável, até para pedestres. É que houve show da Prefeitura, com palco na Praia de Sepetiba e os foliões ainda estão por aqui.  

Para prosseguir, só contornando pela lateral ou pela areia da praia, passando por trás do movimento: melhor opção! e, então, completo os 5 km da Orla, subindo em direção à Estrada São Tarcísio.  

Quase no retorno, mais um bom dia para uma moradora, varrendo sua calçada,  que me responde dizendo que o meu bom dia tinha soado muito agradável.

Mantenho o ritmo no final da subida, antes de contornar pela São Tarcísio: 9.3 km por hora quase 7 km de velocidade já na estrada e acho que consegui convencer o meu corpo a se movimentar. Não lhe dou outra alternativa. Se não for isso, é paralisia! Não quero isso, de jeito nenhum, porque, só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida - repito como mantra.

 Descendo a Estrada, saio em frente à Yemanjá,  no Recôncavo e  ao retornar, sei que não posso seguir até o começo da praia,  porque a aglomeração certamente estará bem pior.

Dou a volta por trás da praça Oscar Rossini,-  circuito dos 5 km regenerativos,  de segunda-feira - e, de lá, sigo pela Rua Floresta e passo por uns rapazes já se preparando para o futebol de fim de semana com suas camisetas se time. O campo está muito bem cuidado assim como toda a praça.

Sigo até a Rua do Canal -  Avenida Dr. Ari Chagas - e retorno pela praia indo até o seu final,  mas mantendo o ritmo: sempre acima dos nove por hora -  bem agradável !

Já de volta na praia do recôncavo, passei por um casal que sempre encontro, na praia de Sepetiba e hoje, mais uma vez, regavam as plantas da orla! Bela atitude! Eu digo. 

Mas, claro que há moradores aqui que não só tem consciência,  preservando, ou cuidando das plantas, pois, a Prefeitura não dá conta. O homem me responde ao bom dia e percebo que ele com uma garrafinha molhando aquele canteiro, ainda mais no calor que está fazendo, com o ar muito abafado, me fazendo suar bastante. Olho o céu acima do mar e vejo que está nublado e sinto uma lufada de vento 
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já na metade da cota, prestes à subir a Abílio Teixeira de Aguiar, pensei no pessoal da limpeza trabalhando em frente ao Pirata's que me responderam ao meu entusiasmado "bom dia!". Então, decidi ir até o final da orla quando completo 13 km. Na volta, eu faço mais cinco para completar  os18 km e isso tudo para evitar tanto movimento lá no Coreto e evito a subida da Estrado do Piaí, sem precisar retornar pelas ruas laterais, por dentro.

Eu acho bem melhor e até já estou chegando aqui no final da Praia do Cardo já quase nos décimo segundo km senti uma leve dor no diafragma, -  sinal de má respiração! - talvez, porque eu estou falando eu filmando ao mesmo tempo e muito mais preocupado com o rendimento que distância a cumprir nestes últimos 18 km, o último longão antes da Meia de Angra. Até o momento, tudo tranquilo com 13 km percorridos,  dentro da minha meta de treino. 

Como é que um longão, como esse aqui, está cansando menos do que os 15 k do Circuito do Sol? Estou desconfiado que seja mais pela tranquilidade de um treino que suplanta a competição natural  de uma prova, vendo todo mundo correr.  É lógico que, dentro daquela multidão somos obrigados a correr e competir. Parece que foi esse um erro estratégico no Circuito do Sol. Mas, aqui não acontece isso, é apenas o meu treinamento para a maratona do Rio de Janeiro, fazendo minhas medições e rendimento.

Se eu encontrar os cachorrinhos e lá no final na Rua Nunes, retorno pela praia e faço uma nova medição da pulsação para ver os batimentos cardíacos depois da velocidade máxima atingida, quando eu acelero um pouquinho, aproveitando, também, para escapar das dentadas no calcanhar e conseguir os batimentos necessários. Mais um "bom dia!" e, lá no final dessa rua deliciosamente arborizada, uma curvinha e eu, já acelerando, quase que ofegante para conseguir o máximo de pique, vejo que não há nenhum cachorrinho nervoso, mas, memo assim, acelero do mesmo jeito, até chegar, novamente, à praia do Cardo. Atingindo a velocidade máxima correndo, decido checar os BPMs depois.

Hoje não fui até o final da praia de Sepetiba, porque está tá muito cheia, além de que estou com sintomas de resfriado e tenho que me cuidar nesta última semana antes da minha. Daqui em diante, só me resta, na quarta-feira de cinzas, correr, na quarta-feira, os meus 10 km leves e descansar para viagem na sexta-feira. Ficar em casa com um moleque na piscina é um outro atrativo tão bom quanto cuidar desse resfriado. 



Concluí muito bem este último longão e, já em casa, agora, a gente está assistindo, na sala, um desenho desenho animado novo que a gente descobriu:  o tal de aumirau - muito gostoso! -  sem nenhum motivo para sair hoje de casa e, bem preguiçoso: acordei lá para as 6:30, porque a gente ficou vendo desfile das escolas de samba. Então, eu troquei o regenerativo para ficar dentro de casa. Saímos da piscina agora e estamos assistindo na TV o que a gente descobriu. Aproveitei para fazer uma playlist com todo o registro deste treinamento

Ana Paula, na cozinha, fazendo almoço, pois trocou o dia comigo, sem problema nenhum, até porque eu achei que estivesse desenvolvendo uma dorzinha na sola dos pés e fiquei desconfiado de alguma lesão:  e,  numa semana que não dá para arriscar nadinha, tem que ficar no sapatinho mesmo. Fiquei, então, na piscina hoje de manhã com meu garoto e depois a gente descansou para ver, agora, o filme Os Incríveis, na televisão. Ainda fiz uma crepioca com recheio de ricota e ora-pro-nóbis. Agora vamos tomar uma vitamina neste dia tranquilo.


21/02/2023

Hoje,  terça feira, 17 hs, estou esperando a temperatura baixar para, de noite, fazer o meu fortalecimento muscular semanal. No almoço de hoje eu fiz um arroz integral com um peixinho de horta que eu fritei na AirFryer, mais batata souté e quibebe. Sem nenhuma modéstia, ficou muito gostoso e agora tomei um iogurte, já quase 5 horas da tarde, sabor natural com aveia e banana. A temperatura está muito quente em por isto, ainda de férias e em pleno carnaval, fiquei na rede,  aqui fora de casa, esperando baixar a temperatura, lembrando que hoje à noite tem fortalecimento muscular.

Parece que a gente vai dar uma saidinha, porque ontem não saímos para tomar um açaí, como combinamos com o José. Agora, eu vou na padaria comprar uns pães para fazer um "not dog" (versão vegana do hot dog) de noite. Foi muito bom ficar esses dois dias em casa, ainda mais nesta época do ano, com todo o típico movimento do carnaval e, também, pela minha desconfiança dessa dorzinha no pé esquerdo. Pode ser que não seja nem no pé, mas, sim, na cabeça. É que estou muito ansioso pela meia de Angra, e já estou terminando a 7ª semana de treinos, partindo para a 8ª, a final de todo o ciclo de treinamento, 

Então, é claro que não dá para descuidar dos menores detalhes. E, para relaxar, ontem eu consegui assistir três escolas de samba no desfile pela televisão, inclusive a minha Portela, que estava linda apesar dos deslizes cometidos. A Nair, esposa do Joel, minha amiga, me mandou umas filmagens do bloco da Ludmila. 

Amanhã é dia dos meus últimos 10 km, que deveriam ser fortes, mas vou fazer no meu jeito, no meu ritmo habitual, tomando cuidado com qualquer tipo de acidente, porque não dá para descuidar, de jeito nenhum, gente! Mas, voltando da padaria penso se tem coisa melhor do que um pão quentinho para passar uma manteiga? Caraca, não quero nem saber que tipo de carboidrato é esse! Eu sei que é bom demais e se acompanhar um pingado, é melhor ainda. Estou voltando para casa aqui da padaria da esquina neste último dia oficial de carnaval, sabendo que o carnaval aqui no Rio vai até o domingo, tendo programação de bloco até domingo. Penso nesta tal programação oficial e que estranha é essa que termina e não termina.

No final de semana, eu vou ver como é que é o carnaval lá em Angra, pois, há anos saímos de lá eu estou por conta da dos meus irmãos e irmãs baianas que vão me receber e ainda tenho que resolver o pernoite, pois que a prova começa cedinho e  não sei como é que é condução no Perequê, onde pretendo ficar. Ainda bem que eu tenho opções no centro de Angra. 


23/02/2023

Ontem, quarta feira de cinzas, fiz os meus últimos 10 km deste ciclo de treinamento que termina com a prova de domingo e aproveitei para experimentar fazer uma gravação de vídeo com transmissão ao vivo para ver a capacidade do meu celular que, para minha surpresa, se saiu melhor do que eu esperava: depois de quase duas horas usando aplicativos, filmando e fotografando, ainda havia carga na bateria.

Fiz o mesmo circuito da orla e pude, inclusive, retornar pelo Coreto já que toda a movimentação do Carnaval havia terminado, inclusive, com as ruas limpas. Quase chegando em casa, na Avenida do Canal, um folião saiu de um pequeno grupo e veio me acompanhando brincando ao meu lado. Eu dei um bom dia entusiasmado pra ele e e ele voltou com o seu copinho de cerveja par o grupo.

Em casa, relaxei muito com meu filho que só hoje volta à escola assim como eu. Depois pego mais informações nas filmagens para completar este relato, porque, a partir de agora, apenas vou fazer o fortalecimento muscular quando voltar do trabalho e organizar minha viagem para Angra na sexta feira, dia 24.

Ontem, 23, sem me lembrar que o Carnaval termina no domingo e que, nunca houve aula na quinta nem na sexta feira da semana do Carnaval, apesar de não ter sido dado ponto facultativo, fui até a escola trabalhar e, claro, dei com a cara no portão fechado. Voltei para casa e, de tarde, levamos o José para o balé, que também não houve porque o  professor não conseguiu transporte. Esperamos um pouco na porta da escola e deixamos o José para o karatê. Enquanto ele treinava, fomos ao mercado, deixamos o açaí que compramos em casa e voltamos para pegá-lo. À noite, apenas fiz o fortalecimento muscular em casa focando no core, cochas e braços com prancha, agachamento e barras. 

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Diário, 5ª semana 5.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 05/23)

AS REDES E O APRENDIZADO PELA EXPERIÊNCIA

Na corrida pela sobrevivência,  nossa espécie tem suplantado às demais, por sua capacidade adaptativa e de evolução. Quanto às tecnologias e artefatos, destacam-se as que garantem a alimentação.  

Assim é que as redes de pesca, em sua variedade de tipos, modelos e materiais, desde  os naturais como a grama, o linho e as  fibras de árvores e de algodão, além de ter garantido um novo status no desenvolvimento civilizatório por ter potencializado a pesca e garantir um maior volume de pescado, permitiu aos primeiro hominídeos lacustres e ribeirinhos permanecer um maior tempo numa região. 

Há 10.000 anos, o homem deixa sua condição de nomadismo (caçador-coletor), afastando-se de sua dependência da pesca, da coleta e da caça e, com a descoberta da agricultura, inicia o seu estágio de desenvolvimento através da agricultura e pecuária.

Entretanto, nas últimas décadas, ao utilizar as redes de pesca, o homem tem prejudicado o meio ambiente, causando enormes prejuízos, pois, a pesca de arrasto danifica o fundo do mar, além de não fazer distinção na captura dos peixes comercializáveis ou não, e isto sem contar a pesca em período de defeso proibida por lei.

Redes, perdidas e deixadas nos oceanos, enredam uma infinidade de animais não sós os marinhos e anfíbios como os golfinhos, as tartarugas como, também, aves e passarinhos o que exige tomada de consciência, fiscalização e rigidez na aplicação das leis pois a agressão ao meio ambiente só vem piorando nas últimas décadas.

Ao pensar nas outras redes - as sociais - também percebo uma situação alarmante, para a ecologia humana, na medida em que, por mais surpreendente que seja sua contribuição na atualidade, torna o homem refém de sua condição gregária.

Um paradoxo ou um dilema, na medida em que sou livre para administrar o meu tempo de permanecer on line, liberto das outras tecnologias, dos apps, dos sites se relacionamentos virtuais.

Claro que não estou criticando o uso racional da virtualidade, tampouco de alguns aplicativos. O  perigo reside em escutar o canto da sereia e não se permitir ser acorrentado feito Odisseu, o que me levou a pesquisar o uso das redes sociais e das tecnologias, durante o meu curso de mestrado, na UFRuralRJ, em 2011.

E as tecnologias, como todo implemento e artefato humano, inevitavelmente apresentam certas peculiaridades no seu curso de desenvolvimento o que nos faz repensar tanto a nossa dependência como na minimização de seus impactos, o que aconteceu comigo no penúltimo longão para a Meia de Angra, antecedendo outra prova em que me inscrevi, o Circuito do Sol, pela Appai de 15 km.

Meu relógio bugou exatamente quando mais precisava dele, e já tinha, sem saber, ultrapassado a distância limite a encerrar o terceiro, e penúltimo, mesociclo deste treinamento para a meia maratona. Não havendo o que fazer para continuar o registro, decidi, então, parar de correr no final da praia do Recôncavo, e voltei caminhando todo o resto do percurso,2,5 km. 

Chegando em casa, recuperando a memória do treino, armazenada no aplicativo, ao carregar o meu smart, me surpreendi com a distância percorrida: tinha corrido 15km49m.

Além de ainda dispor de mais outro longão, - o de 18 km, - a fazer antes da prova do dia 26, integralizei exatamente a distância que precisava para a prova do próximo final de semana, os 15 km do Circuito do Sol, que abre o calendário de corridas organizadas pela O2

Às 8hs do dia 13/02, vendo o meu celular visualizei no instagram da minha associação as inscrições abertas para aquela prova, que, na verdade, haviam sido reabertas tendo sido disponibilizadas mais vagas posteriormente, o que fez com que novamente se encerrassem em apenas 10 minutos.

Mas, além destas, a primeira prova do ano, em particular me acenava a possibilidade de visitar pessoas queridas e correr num trajeto cheio de boas lembranças das memórias da minha infância e adolescência: apesar de ter nascido na Urca, ainda criança fomos morar em Copacabana, mamãe,  eu, minha irmã e irmãos. Somente saí da zona sul do Rio de Janeiro, depois dos 20 anos, quando me casei pela com a minha primeira esposa.

Há diversas vantagens em correr longe de casa principalmente se tiver que viajar. Claro, se for com a família  melhor ainda! Em toda corrida que tenho participado, não só reforço os laços de pertencimento com quem tem a mesma paixão como reencontro pessoas que somente vejo nestas ocasiões. Mais nos cumprimentamos visualmente, no máximo,  um aperto de mãos que nos abraçamos. 

A hidratação e as zoações depois da corrida, das fotos, o "lanchinho", a massagem - quando tem lounge! -  fazem parte do ritual, e a "estendida",  principalmente num barzinho ou lanchonete próximo.

Eu, particularmente, aproveito para ver minhas filhas, na Tijuca, ou um velho amigo de infância, o Joel, que mora no centro do Rio, pertinho do Sambódromo.

Esta é a única oportunidade mais que agradável, já que, dormindo na casa deles, além de ficar mais tempo conversando, fico bem mais próximo do local da corrida, não correndo riscos com os imprevistos, como aconteceu no dia 12/02, quando participei do Circuito do Sol, no Aterro do Flamengo.

O meu brother, nascido no mesmo ano que eu, nos conhecemos ainda estudantes do antigo primário, numa escola da zona sul do Rio de Janeiro, há bastante tempo. E bota bastante tempo nisto! Sei que, no Educandário Ruy Barbosa, em Laranjeiras, sempre que ele apontava o dedo na minha cara, eu dava uma mordida e saía correndo. 

O casarão colonial de dois andares localizado na rua Gago Coutinho fica no meio do caminho entre a Praça do Largo do Machado e o Parque Guilhen, a poucos metros de ambos. Claro que, ao invés de, na saída, voltarmos direto para casa, seguíamos na direção contrária para brincar um pouco. Uma de nossas brincadeiras prediletas era descer a grama sentados em folhas de palmeiras. E continuava a brincadeira quando voltava passando na casa do Joel pra jogar botão.

Tive que estudar naquela escola particular por alguns anos porque, não sendo um estudante exemplar, como meus irmãos e minha irmã, não teria como passar no antigo - e terrível! - exame de admissão. Aliás, isto eu também guardo em comum com o meu brother: seu irmão, o Batata, sempre estudou em escola pública. 

Correndo no parque ou no pátio do colégio, Joel nunca me pegava, apesar de tentar por alguns metros. Meu apelido era "frango veloz", não só porque corria muito, mas, por ser magrinho como o personagem do comercial - "O frango mais veloz do mundo".

Como nunca fomos alunos brilhantes, apesar de que o Joel me lembra que eu sempre gostei de ler e de escrever, para atraira atenção das meninas, achava que  teria que ser ou um bom jogador de futebol ou músico.  Como o máximo que eu consegui foi uma vaga de goleiro, jogando bola na praia,  ao crescemos juntos, saindo da adolescência, montamos um conjunto de rock, o "Molotov", onde pude ousar escrevendo alguns versos para as nossas canções.

Ensaiávamos, nos finais de semana, na garagem de uma casa, na Praia do Flamengo. Também começamos a trabalhar, juntos, numa sapataria da Av. Nossa Senhora de Copacabana, mas, não deixamos de ensaiar, estudar música e, quando havia convite, saíamos com a nossa banda, de Kombi, para tocar em outros bairros do Rio e outros, distantes, como em Niterói. 

Casamos também no mesmo ano em aos 23 anos, saí de Copacabana e fui morar no Rio Comprido. Coincidentemente, ele foi morar no mesmo prédio. Na época, magrinho e atleta, ele era um jogador de futebol de salão muito veloz o que me impressionava com a rapidez dos dribles dele. Alguns anos depois, ele já com dois filhos e, eu, com duas, nos divorciamos. 

E, por algum tempo, deixamos de nos visitar até que eu, já com a minha atual companheira, reatamos nossos laços e, de lá para cá nunca mais nos afastamos. Nunca deixamos nossa paixão e entusiasmo pela vida, sempre comemorada com muita alegria, música, comidinhas e cerveja de lado em nossos reencontros neste mais de meio século de convivência.

Temos lá nossas divergências políticas e, não sei porque ele é a única pessoa que consigo contemporizar o seu ponto de vista, sempre discordando, claro! Mas ponho isto na conta da rabugice dele, de não dar o braço a torcer. 

É que, desde a infância, nossa mãe nos ensinou que a pobreza não pode ser naturalizada; que todos temos que ter os mesmos direitos e obrigações; a não ser intolerante; que lugar de mulher é onde ela quiser estar.

Definitivamente, estes tempos nos alertam das armadilhas das redes: a descoberta de pedras de plástico transcende qualquer nível de aceitação minimamente humana, pois nos diz a respeito do nosso instinto de sobrevivência. Em alguns aspectos, a espécie humana não pode mais ser tolerante.

Não podemos mais tolerar tamanha agressão ao meio ambiente: os menores gestos e atitudes fazem uma enorme diferença e isto eu pude vivenciar quando saí de casa para correr o Circuito do Sol e, no ponto de ônibus, um senhor me ofereceu, gentilmente, uma bala, pelo que, devido a sua insistência, eu aceitei.

A conversa era sobre as mudanças climáticas e os cuidados com o  nosso bairro, os perigos dos alagamentos e os prejuízos causados pelas chuvas de verão, quando ele afirmou que, "Deus dispõe sobre tudo" e que, o que está acontecendo já estava escrito na Bíblia. De pronto, eu respondi que Deus dispõe, sim!, mas que, compete ao homem gerenciar o planeta e o seu destino.

Sem discordar do que eu havia falado, tirou o papel de sua bala e, naturalmente, jogou no meio fio, bem pertinho do ralo. Claro, aproveitei o exemplo, que ele mesmo estava dando, para lhe falar que "Deus dispõe, sim!, mas, temos que nossas atitudes, como aquela, de jogar papel na rua, colaboram com as enchentes e tudo o que elas trazem de prejuízos para o nosso bairro.

Tenho aprendido que tudo, dito com educação e gentileza, não fere, não magoa e, muito pelo contrário, cria uma atmosfera propícia ao diálogo, à mútua compreensão, pois não vivemos sozinhos e dependemos uns dos outros para a nossa sobrevivência.

Acho que aprendi a conviver com as diferenças ainda na minha infância, junto com a percepção de que dependemos uns dos outros para a nossa sobrevivência. Não bastara o fato de que os Roitberg, família originária dos Urais, da antiga União Soviética, chegara ao Brasil por conta de uma das diásporas que nos espalhou pela Europa, depois da Revolução Bolchevique, em 1917, ainda conseguimos sobreviver ao holocausto, à sanha de um dos maiores facínoras que a história conheceu, na Alemanha nazifascista.

Dos Roitberg, além do sobrenome, na certidão, carregamos este lastro de responsabilidade histórica e a sanha de sobreviver, e, no lugar do rancor pelo abandono pelo nosso pai, ainda crianças, um enorme orgulho de termos sidos criados e educados por nossa mãe, apesar de toda a falta que faz a falta de referência paterna, ato comum entre tantos outros homens no Brasil: ao abandonarem seus filhos, impõem todo o peso da responsabilidade, inclusive a financeira, ao encargo das mães.

Nossa mãe foi quem nos mostrou como dependemos uns dos outros e foi a primeira mulher a demonstrar, na prática, a necessidade de se fazer redes: sem recursos algum para sustentar sozinha seus 5 filhos, não hesitou em pedir abrigo às suas crianças aos amigos próximos, de Copacabana e parentes distantes, no Rio Grande do Sul, nos idos de 1960.

Assim que pode nos reunir, além das economias que conseguia costurando, passou a alugar vagas no  apartamento alugado onde morávamos, focada em nossos cuidados e alimentação, nos educando para que, segundo ela, todos fôssemos doutores. 

Claro que todos tivemos que contribuir não só nas tarefas domésticas, como, também, nas economias: assim que chegamos à adolescência - eu, com 14 anos - depois fomos da escola, fomos trabalharlhar para ajudar na alimentação e nos pagamentos das contas. Na época  havia a carteira de trabalho infantil e nem se pensava nos direitos das crianças, no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Ainda criança, além de eu e meu irmão nego, , entregavámos pão bem cedinho, depois da escola, expunha gibis na calçada para vender e, na praia, "fingia" ajudar os pescadores, da Colônia de Pesca do Posto 6, em Copacabana, puxando suas enormes redes para que, por generosidade, nos dessem algumas sardinhas que, junto com os mariscos da Pedra do Arpoador, tatuís que pegávamos na areia da praia e a xepa da feira, tivéssemos o básico da alimentação garantido ao que se somava os outros alimentos comprados no mercado.

Corridas de rua e, em especial, as de longa distância como as maratonas, na minha compreensão, é o esporte ideal para exercer a paciência, a observação e a escuta sensível e, apesar de ser uma prática esportiva individual, ela necessita, demais, de toda uma rede de apoio, não só da família, como, também, de amigos corredores, ou seja, maratona é um esporte coletivo e individual ao mesmo tempo. São elas que mais exemplificam as redes e o aprendizado pela experiência.

Cada treino, cada prova, cada corrida me permitem, como num laboratório, ao mesmo tempo sociológico e fisiológico, perceber cada detalhe que integra o meu corpo junto aos outros corpos, numa teia familiar e universal. Entre amigos e amigas novos e antigos, reencontros e encontros, além de toda a nossa complexa fisiologia, produção e equilíbrio, hormonal, incentivamo-nos e renovamos nossas esperanças naquilo em que acreditamos sejam quais forem os nossas crenças e ideologias.