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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Diário, 7ª semana 7.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 07/23)


Nesta última semana de treino, eu estou saindo hoje, às 6:44, em pleno domingo de carnaval, estranhando  gravar e correr ao mesmo tempo. 

Passo por  muita gente fantasiada,  talvez, voltando pra casa da festa madrugada a dentro saindo para o Carnaval. Neste clima do Reinado de Momo, a gente ainda deu uma saidinha ontem, - eu, minha esposa e nosso filho: fomos numa festinha,  um bloquinho de crianças, lá na Pedra de Guaratiba a convite do dindinho do  Zeca.

Encerro esta semana com o último mesociclo, e início do última, ainda com a ideia de redes nas minhas reflexões. É que quando eu corro,  penso em muita coisa e em nada ao mesmo tempo, para não ficar sufocado ou voltar para o foco de vez em quando - que é bom, também!,  pensando e falando alto, na verdade.  

Já passei por duas moças de moto fantasiadas de diabinho; um rapaz, também; algumas igrejas abrindo agora, mas o movimento não é normal. Não é o movimento dos  domingos: muito automóvel circulando e eu completando 1 km agora, bem abaixo do meu ritmo. 

É que eu estou gravando direto no blog pela primeira vez querendo saber como  acontece um registro, em tempo real, inspirado nos relatos em tempo real do corredor e romancista, Haruki Murakani. Até então,  o máximo que eu fazia era, ao chegar em casa, escrevia algumas palavras para não perder as ideias para, depois, transformar em texto.

Cinco minutos correndo e eu a
 8.2 km/h o que não me surpreende, já que eu começo sempre assim mesmo, acima de oito. A partir de agora, o ritmo vai sair daquela inércia e crescer.  Já comecei a tentar convencer o meu corpo que correr é gostoso (rs),  nisto, quase tropeço num quebra-molas e penso que tenho que prestar atenção.

Quase chegando ao Coreto, passam alguns rapazes dentro de um carro, me chamando de atleta: o ego vai lá pra cima e sorrio. 

Chegando aos  10 minutos de corrida, pace  ainda acima de 7, mas sei que estes 18 km valem como um teste para Meia de Angra, na semana que vem. Um check up de como estou funcionando. Contorno pela Colônia dos Pescadores e passo em frente à Marta - : o melhor peixes de Sepetiba! - , e lhe dou um bom dia. 

Em frente à Igreja de São Pedro, a rua, como previra, já está intransitável, até para pedestres. É que houve show da Prefeitura, com palco na Praia de Sepetiba e os foliões ainda estão por aqui.  

Para prosseguir, só contornando pela lateral ou pela areia da praia, passando por trás do movimento: melhor opção! e, então, completo os 5 km da Orla, subindo em direção à Estrada São Tarcísio.  

Quase no retorno, mais um bom dia para uma moradora, varrendo sua calçada,  que me responde dizendo que o meu bom dia tinha soado muito agradável.

Mantenho o ritmo no final da subida, antes de contornar pela São Tarcísio: 9.3 km por hora quase 7 km de velocidade já na estrada e acho que consegui convencer o meu corpo a se movimentar. Não lhe dou outra alternativa. Se não for isso, é paralisia! Não quero isso, de jeito nenhum, porque, só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida - repito como mantra.

 Descendo a Estrada, saio em frente à Yemanjá,  no Recôncavo e  ao retornar, sei que não posso seguir até o começo da praia,  porque a aglomeração certamente estará bem pior.

Dou a volta por trás da praça Oscar Rossini,-  circuito dos 5 km regenerativos,  de segunda-feira - e, de lá, sigo pela Rua Floresta e passo por uns rapazes já se preparando para o futebol de fim de semana com suas camisetas se time. O campo está muito bem cuidado assim como toda a praça.

Sigo até a Rua do Canal -  Avenida Dr. Ari Chagas - e retorno pela praia indo até o seu final,  mas mantendo o ritmo: sempre acima dos nove por hora -  bem agradável !

Já de volta na praia do recôncavo, passei por um casal que sempre encontro, na praia de Sepetiba e hoje, mais uma vez, regavam as plantas da orla! Bela atitude! Eu digo. 

Mas, claro que há moradores aqui que não só tem consciência,  preservando, ou cuidando das plantas, pois, a Prefeitura não dá conta. O homem me responde ao bom dia e percebo que ele com uma garrafinha molhando aquele canteiro, ainda mais no calor que está fazendo, com o ar muito abafado, me fazendo suar bastante. Olho o céu acima do mar e vejo que está nublado e sinto uma lufada de vento 
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já na metade da cota, prestes à subir a Abílio Teixeira de Aguiar, pensei no pessoal da limpeza trabalhando em frente ao Pirata's que me responderam ao meu entusiasmado "bom dia!". Então, decidi ir até o final da orla quando completo 13 km. Na volta, eu faço mais cinco para completar  os18 km e isso tudo para evitar tanto movimento lá no Coreto e evito a subida da Estrado do Piaí, sem precisar retornar pelas ruas laterais, por dentro.

Eu acho bem melhor e até já estou chegando aqui no final da Praia do Cardo já quase nos décimo segundo km senti uma leve dor no diafragma, -  sinal de má respiração! - talvez, porque eu estou falando eu filmando ao mesmo tempo e muito mais preocupado com o rendimento que distância a cumprir nestes últimos 18 km, o último longão antes da Meia de Angra. Até o momento, tudo tranquilo com 13 km percorridos,  dentro da minha meta de treino. 

Como é que um longão, como esse aqui, está cansando menos do que os 15 k do Circuito do Sol? Estou desconfiado que seja mais pela tranquilidade de um treino que suplanta a competição natural  de uma prova, vendo todo mundo correr.  É lógico que, dentro daquela multidão somos obrigados a correr e competir. Parece que foi esse um erro estratégico no Circuito do Sol. Mas, aqui não acontece isso, é apenas o meu treinamento para a maratona do Rio de Janeiro, fazendo minhas medições e rendimento.

Se eu encontrar os cachorrinhos e lá no final na Rua Nunes, retorno pela praia e faço uma nova medição da pulsação para ver os batimentos cardíacos depois da velocidade máxima atingida, quando eu acelero um pouquinho, aproveitando, também, para escapar das dentadas no calcanhar e conseguir os batimentos necessários. Mais um "bom dia!" e, lá no final dessa rua deliciosamente arborizada, uma curvinha e eu, já acelerando, quase que ofegante para conseguir o máximo de pique, vejo que não há nenhum cachorrinho nervoso, mas, memo assim, acelero do mesmo jeito, até chegar, novamente, à praia do Cardo. Atingindo a velocidade máxima correndo, decido checar os BPMs depois.

Hoje não fui até o final da praia de Sepetiba, porque está tá muito cheia, além de que estou com sintomas de resfriado e tenho que me cuidar nesta última semana antes da minha. Daqui em diante, só me resta, na quarta-feira de cinzas, correr, na quarta-feira, os meus 10 km leves e descansar para viagem na sexta-feira. Ficar em casa com um moleque na piscina é um outro atrativo tão bom quanto cuidar desse resfriado. 



Concluí muito bem este último longão e, já em casa, agora, a gente está assistindo, na sala, um desenho desenho animado novo que a gente descobriu:  o tal de aumirau - muito gostoso! -  sem nenhum motivo para sair hoje de casa e, bem preguiçoso: acordei lá para as 6:30, porque a gente ficou vendo desfile das escolas de samba. Então, eu troquei o regenerativo para ficar dentro de casa. Saímos da piscina agora e estamos assistindo na TV o que a gente descobriu. Aproveitei para fazer uma playlist com todo o registro deste treinamento

Ana Paula, na cozinha, fazendo almoço, pois trocou o dia comigo, sem problema nenhum, até porque eu achei que estivesse desenvolvendo uma dorzinha na sola dos pés e fiquei desconfiado de alguma lesão:  e,  numa semana que não dá para arriscar nadinha, tem que ficar no sapatinho mesmo. Fiquei, então, na piscina hoje de manhã com meu garoto e depois a gente descansou para ver, agora, o filme Os Incríveis, na televisão. Ainda fiz uma crepioca com recheio de ricota e ora-pro-nóbis. Agora vamos tomar uma vitamina neste dia tranquilo.


21/02/2023

Hoje,  terça feira, 17 hs, estou esperando a temperatura baixar para, de noite, fazer o meu fortalecimento muscular semanal. No almoço de hoje eu fiz um arroz integral com um peixinho de horta que eu fritei na AirFryer, mais batata souté e quibebe. Sem nenhuma modéstia, ficou muito gostoso e agora tomei um iogurte, já quase 5 horas da tarde, sabor natural com aveia e banana. A temperatura está muito quente em por isto, ainda de férias e em pleno carnaval, fiquei na rede,  aqui fora de casa, esperando baixar a temperatura, lembrando que hoje à noite tem fortalecimento muscular.

Parece que a gente vai dar uma saidinha, porque ontem não saímos para tomar um açaí, como combinamos com o José. Agora, eu vou na padaria comprar uns pães para fazer um "not dog" (versão vegana do hot dog) de noite. Foi muito bom ficar esses dois dias em casa, ainda mais nesta época do ano, com todo o típico movimento do carnaval e, também, pela minha desconfiança dessa dorzinha no pé esquerdo. Pode ser que não seja nem no pé, mas, sim, na cabeça. É que estou muito ansioso pela meia de Angra, e já estou terminando a 7ª semana de treinos, partindo para a 8ª, a final de todo o ciclo de treinamento, 

Então, é claro que não dá para descuidar dos menores detalhes. E, para relaxar, ontem eu consegui assistir três escolas de samba no desfile pela televisão, inclusive a minha Portela, que estava linda apesar dos deslizes cometidos. A Nair, esposa do Joel, minha amiga, me mandou umas filmagens do bloco da Ludmila. 

Amanhã é dia dos meus últimos 10 km, que deveriam ser fortes, mas vou fazer no meu jeito, no meu ritmo habitual, tomando cuidado com qualquer tipo de acidente, porque não dá para descuidar, de jeito nenhum, gente! Mas, voltando da padaria penso se tem coisa melhor do que um pão quentinho para passar uma manteiga? Caraca, não quero nem saber que tipo de carboidrato é esse! Eu sei que é bom demais e se acompanhar um pingado, é melhor ainda. Estou voltando para casa aqui da padaria da esquina neste último dia oficial de carnaval, sabendo que o carnaval aqui no Rio vai até o domingo, tendo programação de bloco até domingo. Penso nesta tal programação oficial e que estranha é essa que termina e não termina.

No final de semana, eu vou ver como é que é o carnaval lá em Angra, pois, há anos saímos de lá eu estou por conta da dos meus irmãos e irmãs baianas que vão me receber e ainda tenho que resolver o pernoite, pois que a prova começa cedinho e  não sei como é que é condução no Perequê, onde pretendo ficar. Ainda bem que eu tenho opções no centro de Angra. 


23/02/2023

Ontem, quarta feira de cinzas, fiz os meus últimos 10 km deste ciclo de treinamento que termina com a prova de domingo e aproveitei para experimentar fazer uma gravação de vídeo com transmissão ao vivo para ver a capacidade do meu celular que, para minha surpresa, se saiu melhor do que eu esperava: depois de quase duas horas usando aplicativos, filmando e fotografando, ainda havia carga na bateria.

Fiz o mesmo circuito da orla e pude, inclusive, retornar pelo Coreto já que toda a movimentação do Carnaval havia terminado, inclusive, com as ruas limpas. Quase chegando em casa, na Avenida do Canal, um folião saiu de um pequeno grupo e veio me acompanhando brincando ao meu lado. Eu dei um bom dia entusiasmado pra ele e e ele voltou com o seu copinho de cerveja par o grupo.

Em casa, relaxei muito com meu filho que só hoje volta à escola assim como eu. Depois pego mais informações nas filmagens para completar este relato, porque, a partir de agora, apenas vou fazer o fortalecimento muscular quando voltar do trabalho e organizar minha viagem para Angra na sexta feira, dia 24.

Ontem, 23, sem me lembrar que o Carnaval termina no domingo e que, nunca houve aula na quinta nem na sexta feira da semana do Carnaval, apesar de não ter sido dado ponto facultativo, fui até a escola trabalhar e, claro, dei com a cara no portão fechado. Voltei para casa e, de tarde, levamos o José para o balé, que também não houve porque o  professor não conseguiu transporte. Esperamos um pouco na porta da escola e deixamos o José para o karatê. Enquanto ele treinava, fomos ao mercado, deixamos o açaí que compramos em casa e voltamos para pegá-lo. À noite, apenas fiz o fortalecimento muscular em casa focando no core, cochas e braços com prancha, agachamento e barras. 

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Diário, 5ª semana 5.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 05/23)

AS REDES E O APRENDIZADO PELA EXPERIÊNCIA. 

Na corrida pela sobrevivência,  nossa espécie tem suplantado às demais, por sua capacidade adaptativa e de evolução. Quanto às tecnologias e artefatos, destacam-se as que garantem a alimentação.  

Assim é que as redes de pesca, em sua variedade de tipos, modelos e materiais, desde  os naturais como a grama, o linho e as  fibras de árvores e de algodão, além de ter garantido um novo status no desenvolvimento civilizatório por ter potencializado a pesca e garantir um maior volume de pescado, permitiu aos primeiro hominídeos lacustres e ribeirinhos permanecer um maior tempo numa região. 

Há 10.000 anos, o homem deixa sua condição de nomadismo (caçador-coletor), afastando-se de sua dependência da pesca, da coleta e da caça e, com a descoberta da agricultura, inicia o seu estágio de desenvolvimento através da agricultura e pecuária.

Entretanto, nas últimas décadas, ao utilizar as redes de pesca, o homem tem prejudicado o meio ambiente, causando enormes prejuízos, pois, a pesca de arrasto danifica o fundo do mar, além de não fazer distinção na captura dos peixes comercializáveis ou não, e isto sem contar a pesca em período de defeso proibida por lei.

Redes, perdidas e deixadas nos oceanos, enredam uma infinidade de animais não sós os marinhos e anfíbios como os golfinhos, as tartarugas como, também, aves e passarinhos o que exige tomada de consciência, fiscalização e rigidez na aplicação das leis pois a agressão ao meio ambiente só vem piorando nas últimas décadas.

Ao pensar nas outras redes - as sociais - também percebo uma situação alarmante, para a ecologia humana, na medida em que, por mais surpreendente que seja sua contribuição na atualidade, torna o homem refém de sua condição gregária.

Um paradoxo ou um dilema, na medida em que sou livre para administrar o meu tempo de permanecer on line, liberto das outras tecnologias, dos apps, dos sites se relacionamentos virtuais.

Claro que não estou criticando o uso racional da virtualidade, tampouco de alguns aplicativos. O  perigo reside em escutar o canto da sereia e não se permitir ser acorrentado feito Odisseu, o que me levou a pesquisar o uso das redes sociais e das tecnologias, durante o meu curso de mestrado, na UFRuralRJ, em 2011.

E as tecnologias, como todo implemento e artefato humano, inevitavelmente apresentam certas peculiaridades no seu curso de desenvolvimento o que nos faz repensar tanto a nossa dependência como na minimização de seus impactos, o que aconteceu comigo no penúltimo longão para a Meia de Angra, antecedendo outra prova em que me inscrevi, o Circuito do Sol, pela Appai de 15 km.

Meu relógio bugou exatamente quando mais precisava dele, e já tinha, sem saber, ultrapassado a distância limite a encerrar o terceiro, e penúltimo, mesociclo deste treinamento para a meia maratona. Não havendo o que fazer para continuar o registro, decidi, então, parar de correr no final da praia do Recôncavo, e voltei caminhando todo o resto do percurso,2,5 km. 

Chegando em casa, recuperando a memória do treino, armazenada no aplicativo, ao carregar o meu smart, me surpreendi com a distância percorrida: tinha corrido 15km49m.

Além de ainda dispor de mais outro longão, - o de 18 km, - a fazer antes da prova do dia 26, integralizei exatamente a distância que precisava para a prova do próximo final de semana, os 15 km do Circuito do Sol, que abre o calendário de corridas organizadas pela O2

Às 8hs do dia 13/02, vendo o meu celular visualizei no instagram da minha associação as inscrições abertas para aquela prova, que, na verdade, haviam sido reabertas tendo sido disponibilizadas mais vagas posteriormente, o que fez com que novamente se encerrassem em apenas 10 minutos.

Mas, além destas, a primeira prova do ano, em particular me acenava a possibilidade de visitar pessoas queridas e correr num trajeto cheio de boas lembranças das memórias da minha infância e adolescência: apesar de ter nascido na Urca, ainda criança fomos morar em Copacabana, mamãe,  eu, minha irmã e irmãos. Somente saí da zona sul do Rio de Janeiro, depois dos 20 anos, quando me casei pela com a minha primeira esposa.

Há diversas vantagens em correr longe de casa principalmente se tiver que viajar. Claro, se for com a família  melhor ainda! Em toda corrida que tenho participado, não só reforço os laços de pertencimento com quem tem a mesma paixão como reencontro pessoas que somente vejo nestas ocasiões. Mais nos cumprimentamos visualmente, no máximo,  um aperto de mãos que nos abraçamos. 

A hidratação e as zoações depois da corrida, das fotos, o "lanchinho", a massagem - quando tem lounge! -  fazem parte do ritual, e a "estendida",  principalmente num barzinho ou lanchonete próximo.

Eu, particularmente, aproveito para ver minhas filhas, na Tijuca, ou um velho amigo de infância, o Joel, que mora no centro do Rio, pertinho do Sambódromo.

Esta é a única oportunidade mais que agradável, já que, dormindo na casa deles, além de ficar mais tempo conversando, fico bem mais próximo do local da corrida, não correndo riscos com os imprevistos, como aconteceu no dia 12/02, quando participei do Circuito do Sol, no Aterro do Flamengo.

O meu brother, nascido no mesmo ano que eu, nos conhecemos ainda estudantes do antigo primário, numa escola da zona sul do Rio de Janeiro, há bastante tempo. E bota bastante tempo nisto! Sei que, no Educandário Ruy Barbosa, em Laranjeiras, sempre que ele apontava o dedo na minha cara, eu dava uma mordida e saía correndo. 

O casarão colonial de dois andares localizado na rua Gago Coutinho fica no meio do caminho entre a Praça do Largo do Machado e o Parque Guilhen, a poucos metros de ambos. Claro que, ao invés de, na saída, voltarmos direto para casa, seguíamos na direção contrária para brincar um pouco. Uma de nossas brincadeiras prediletas era descer a grama sentados em folhas de palmeiras. E continuava a brincadeira quando voltava passando na casa do Joel pra jogar botão.

Tive que estudar naquela escola particular por alguns anos porque, não sendo um estudante exemplar, como meus irmãos e minha irmã, não teria como passar no antigo - e terrível! - exame de admissão. Aliás, isto eu também guardo em comum com o meu brother: seu irmão, o Batata, sempre estudou em escola pública. 

Correndo no parque ou no pátio do colégio, Joel nunca me pegava, apesar de tentar por alguns metros. Meu apelido era "frango veloz", não só porque corria muito, mas, por ser magrinho como o personagem do comercial - "O frango mais veloz do mundo".

Como nunca fomos alunos brilhantes, apesar de que o Joel me lembra que eu sempre gostei de ler e de escrever, para atraira atenção das meninas, achava que  teria que ser ou um bom jogador de futebol ou músico.  Como o máximo que eu consegui foi uma vaga de goleiro, jogando bola na praia,  ao crescemos juntos, saindo da adolescência, montamos um conjunto de rock, o "Molotov", onde pude ousar escrevendo alguns versos para as nossas canções.

Ensaiávamos, nos finais de semana, na garagem de uma casa, na Praia do Flamengo. Também começamos a trabalhar, juntos, numa sapataria da Av. Nossa Senhora de Copacabana, mas, não deixamos de ensaiar, estudar música e, quando havia convite, saíamos com a nossa banda, de Kombi, para tocar em outros bairros do Rio e outros, distantes, como em Niterói. 

Casamos também no mesmo ano em aos 23 anos, saí de Copacabana e fui morar no Rio Comprido. Coincidentemente, ele foi morar no mesmo prédio. Na época, magrinho e atleta, ele era um jogador de futebol de salão muito veloz o que me impressionava com a rapidez dos dribles dele. Alguns anos depois, ele já com dois filhos e, eu, com duas, nos divorciamos. 

E, por algum tempo, deixamos de nos visitar até que eu, já com a minha atual companheira, reatamos nossos laços e, de lá para cá nunca mais nos afastamos. Nunca deixamos nossa paixão e entusiasmo pela vida, sempre comemorada com muita alegria, música, comidinhas e cerveja de lado em nossos reencontros neste mais de meio século de convivência.

Temos lá nossas divergências políticas e, não sei porque ele é a única pessoa que consigo contemporizar o seu ponto de vista, sempre discordando, claro! Mas ponho isto na conta da rabugice dele, de não dar o braço a torcer. 

É que, desde a infância, nossa mãe nos ensinou que a pobreza não pode ser naturalizada; que todos temos que ter os mesmos direitos e obrigações; a não ser intolerante; que lugar de mulher é onde ela quiser estar.

Definitivamente, estes tempos nos alertam das armadilhas das redes: a descoberta de pedras de plástico transcende qualquer nível de aceitação minimamente humana, pois nos diz a respeito do nosso instinto de sobrevivência. Em alguns aspectos, a espécie humana não pode mais ser tolerante.

Não podemos mais tolerar tamanha agressão ao meio ambiente: os menores gestos e atitudes fazem uma enorme diferença e isto eu pude vivenciar quando saí de casa para correr o Circuito do Sol e, no ponto de ônibus, um senhor me ofereceu, gentilmente, uma bala, pelo que, devido a sua insistência, eu aceitei.

A conversa era sobre as mudanças climáticas e os cuidados com o  nosso bairro, os perigos dos alagamentos e os prejuízos causados pelas chuvas de verão, quando ele afirmou que, "Deus dispõe sobre tudo" e que, o que está acontecendo já estava escrito na Bíblia. De pronto, eu respondi que Deus dispõe, sim!, mas que, compete ao homem gerenciar o planeta e o seu destino.

Sem discordar do que eu havia falado, tirou o papel de sua bala e, naturalmente, jogou no meio fio, bem pertinho do ralo. Claro, aproveitei o exemplo, que ele mesmo estava dando, para lhe falar que "Deus dispõe, sim!, mas, temos que nossas atitudes, como aquela, de jogar papel na rua, colaboram com as enchentes e tudo o que elas trazem de prejuízos para o nosso bairro.

Tenho aprendido que tudo, dito com educação e gentileza, não fere, não magoa e, muito pelo contrário, cria uma atmosfera propícia ao diálogo, à mútua compreensão, pois não vivemos sozinhos e dependemos uns dos outros para a nossa sobrevivência.

Acho que aprendi a conviver com as diferenças ainda na minha infância, junto com a percepção de que dependemos uns dos outros para a nossa sobrevivência. Não bastara o fato de que os Roitberg, família originária dos Urais, da antiga União Soviética, chegara ao Brasil por conta de uma das diásporas que nos espalhou pela Europa, depois da Revolução Bolchevique, em 1917, ainda conseguimos sobreviver ao holocausto, à sanha de um dos maiores facínoras que a história conheceu, na Alemanha nazifascista.

Dos Roitberg, além do sobrenome, na certidão, carregamos este lastro de responsabilidade histórica e a sanha de sobreviver, e, no lugar do rancor pelo abandono pelo nosso pai, ainda crianças, um enorme orgulho de termos sidos criados e educados por nossa mãe, apesar de toda a falta que faz a falta de referência paterna, ato comum entre tantos outros homens no Brasil: ao abandonarem seus filhos, impõem todo o peso da responsabilidade, inclusive a financeira, ao encargo das mães.

Nossa mãe foi quem nos mostrou como dependemos uns dos outros e foi a primeira mulher a demonstrar, na prática, a necessidade de se fazer redes: sem recursos algum para sustentar sozinha seus 5 filhos, não hesitou em pedir abrigo às suas crianças aos amigos próximos, de Copacabana e parentes distantes, no Rio Grande do Sul, nos idos de 1960.

Assim que pode nos reunir, além das economias que conseguia costurando, passou a alugar vagas no  apartamento alugado onde morávamos, focada em nossos cuidados e alimentação, nos educando para que, segundo ela, todos fôssemos doutores. 

Claro que todos tivemos que contribuir não só nas tarefas domésticas, como, também, nas economias: assim que chegamos à adolescência - eu, com 14 anos - depois fomos da escola, fomos trabalharlhar para ajudar na alimentação e nos pagamentos das contas. Na época  havia a carteira de trabalho infantil e nem se pensava nos direitos das crianças, no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Ainda criança, além de eu e meu irmão nego, , entregavámos pão bem cedinho, depois da escola, expunha gibis na calçada para vender e, na praia, "fingia" ajudar os pescadores, da Colônia de Pesca do Posto 6, em Copacabana, puxando suas enormes redes para que, por generosidade, nos dessem algumas sardinhas que, junto com os mariscos da Pedra do Arpoador, tatuís que pegávamos na areia da praia e a xepa da feira, tivéssemos o básico da alimentação garantido ao que se somava os outros alimentos comprados no mercado.

Corridas de rua e, em especial, as de longa distância como as maratonas, na minha compreensão, é o esporte ideal para exercer a paciência, a observação e a escuta sensível e, apesar de ser uma prática esportiva individual, ela necessita, demais, de toda uma rede de apoio, não só da família, como, também, de amigos corredores, ou seja, maratona é um esporte coletivo e individual ao mesmo tempo. São elas que mais exemplificam as redes e o aprendizado pela experiência.

Cada treino, cada prova, cada corrida me permitem, como num laboratório, ao mesmo tempo sociológico e fisiológico, perceber cada detalhe que integra o meu corpo junto aos outros corpos, numa teia familiar e universal. Entre amigos e amigas novos e antigos, reencontros e encontros, além de toda a nossa complexa fisiologia, produção e equilíbrio, hormonal, incentivamo-nos e renovamos nossas esperanças naquilo em que acreditamos sejam quais forem os nossas crenças e ideologias.








quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Diário, 4ª semana 4.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 04/23)

Limites da flexibilidade: negociando com o meu corpo. 

Algumas adaptações na minha história foi o mote para começar este episódio,  sem precisar reeditar a diáspora do nosso povo judeu, os Roitberg, vindo dos Urais, na antiga Bielorrússia, no começo dos 1800.

Até mesmo porque para reconstruir a memória de parte daquela saga da fuga,  em plena Revolução Bolchevique, por estratégia de sobrevivência, além das historiadoras e historiador de nossa família, Larissa, Nathalia e Guilherme Roitberg,  contei com a tecnologia das árvores genealógicas virtuais e um fortuito acaso do destino por causa da necessidade de alterar uma pesquisa que estava fazendo no meu doutorado, em 2016.

Foi aí que aconteceu dos estudantes secundaristas ocuparem as escolas públicas e eu, doutorando em educação pela UFRuralRJ, me vi acampado numa escola, no Méier, bairro boêmio no subúrbio carioca,  cozinhando para adolescentes, vivenciando diariamente sua rotina, em meio às suas demandas, enfrentamentos e vivência política, história que rendeu uma tese de mais ee 300 páginas escritas durante 4 anos. 

Lá estava mais um Roitberg ocupando outro espaço, durante 3 meses,  saindo, mais uma vez,  da sua linha de conforto e, confesso, que isto me atrai. 

Não foram poucas as ocupações, por estratégia de luta e resistência, das quais eu participei, desde a da Avenida Presidente Vargas, no histórico Comício pelas Diretas Já!, em 1988, antecedida pelo defesa do prédio da UNE, em 1985. 

No anos de 1992, no movimento dos Caras Pintadas, na Rua das Laranjeiras; no Aterro do Flamengo, na Eco 92, até, mais outras vezes,  no Centro do Rio, em 2018, contra o golpe político que retirou uma presidenta, democraticamente eleita, para o começo da instalação de um período atroz em nossa história recente, que durou 4 longos anos, já no século XXI. 

Pode ser que o meu preparo físico para aquelas lutas de pautas sociais tenha sido forjado no espelhamento em meus irmãos maiores nas lutas estudantis, como também, no movimento contra o sedentarismo,  nos anos de 1970, quando pessoas comuns, assim como eu, passamos a ocupar as ruas, de tênis, calção e camiseta para inaugurar uma modalidade esportiva "estranha " para os padrões de comportamento da época: as corridas de rua que, definitivamente, passaram a compor,  como elemento comum, integrando o cenário das ruas de todo o Brasil, como a mais democrática e inclusiva prática esportiva em nosso país.

Em meio ao período da ditadura militar, com a supressão de direitos políticos e perseguição a quem se opunha ao regime, a conquista do tricampeonato na copa de 1970 e os demais eventos esportivos compunham o pacote de medidas populares, com o aval dos militares, pois, assim entendiam poder calar as manifestações, suprimir os protestos dos estudantes,  o que não aconteceu de fato.

Não só o Brasil, como os demais países da América do Sul partilham lutas coletivas pela democracia e resistência ao avanço da direita ultraconservadora e do fascismo, como é o caso atual do Peru, onde, em meio ao enfretamento das forças policiais nas manifestações na capital,  tradicionalmente, em Lima, ocorrem provas que atraem atletas de alto rendimento no mundo inteiro como a Maratona de Lima e a Halph Marathon, a Marathon des Sables, com seus monstruosos 120 km, em três etapas durante quatro dias, metade da original, que ocorre no deserto do Saara, com 240 km.

As primeiras maratonas são daquela época,  nos anos de chumbo, e eu tive a sorte de fazer parte daquela história: a primeira prova de longa distância do Brasil, a Maratona Internacional do Rio de Janeiro, ocorreu em 1979, criada pela corredora Eleonora Mendonça, através da sua empresa, a Printer, com 120 atletas concluintes. 

Em 1988, organizada pelo Jornal O Dia, por iniciativa do jornalista, advogado e atleta, José Inácio Werneck, diretor da prova participei daquele evento, agora, com o nome de Maratona do Rio,  já com os meus 31 anos, casado, dando aulas todos os dias. 

Sem nenhuma orientação profissional, contando,  apenas, com o incentivo e apoio da família, completamente exausto, quase caminhando,  consegui completar os 42,192 km  em 4:58:28. 



Acho que foi por volta do 38° km, o Monumento do Aterro parecia uma enorme tulipa com suco de laranja um prato com panquecas. Pena que era uma alucinação. Pura endorfina!

Um corredor solidário, me vendo trôpego, quase caindo, apoiou o meu braço até eu me reestabelecer e continuar aquele sacrifício. 

Dois anos depois, já orientado por um colega, de educação física, em 1990, retornei àquela prova baixando o meu tempo para 4:13:37, 560° colocado entre 815, na minha categoria, à época. Me impressiona que, hoje, aos quase 66 anos, esteja com o  pace bem perto  daquela competição, considerando meu melhor rendimento nos 10 km!




Ainda era um tempo em que a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, a Federação de Esportes do Estado do Rio de Janeiro, e poucos patrocinadores quem organizava, com respeito aos atletas aquelas provas: não havia o mercado explorador representado pelas agências de eventos, as plataformas digitais - o mundo ainda era analógico! -  como por exemplo,  a agência Pódium, detentora de inúmeras reclamações o que só vim a saber,  tempos depois. 

O fato é que, apesar de eu já ter, por diversas vezes, reclamado com a organização da corrida, faltando apenas duas semanas para a prova e nada de informações sobre a retirada do kit, chip e número de peito, encontro no site responsável uma data para a sua realização: 26/02

Imediatamente fui ver se ainda haveria alguma acomodação no hostel onde eu ressevara um quarto com a desconfiança de que seria bastante improvável devido ao Carnaval. 

É preciso ter paciência e pensar com calma antes de tomar alguma decisão é o que ouço do Dalai Lama. Foi assim que eu e minha companheira construímos nossa casa, plantamos árvores.  Foi assim para colher os frutos, concluir nossas faculdades, conseguir ser um servidor público concursado, escrever um livro, alguns capítulos e projetos, publicar artigos científicos e apresentar em congressos, defender uma tese, tornar-me um doutor, me aposentar, ter o nosso filho... Mas tolerância tem limites !

Humano, demasiadamente humano, nossa espécie vem se adaptando, há cerca de 300.000 anos, antes do surgimento do homo sapiens, a um ambiente de condições adversas e extremas,  totalmente inóspito ao nosso organismo: os gases ácidos somente eram possíveis de respirar a algumas bactérias .

Somente as mais fortes criaturas e organismos sobreviveram, diz a ciência. E, naquele território, terrivelmente perigoso, para uma criatura tão frágil, quem não corria pra caçar virava caça rapidamente. Por conseguinte, nossos ancestrais hominídeos eram exímios corredores, daí que desconfio da nossa herança comum na linhagem de corredores. 

Nossa capacidade adaptativa garantiu nossa sobrevivência, entretanto fez-nos sedentários:  nômades ficaram mais vulneráveis. 

Além da questão da viagem e estada, em Angra dos Reis, precisaria decidir, rapidamente, outra estratégia de treinamento por causa das 4 semanas pela frente, além de que, no próximo final de semana, já estaria entrando no último mesociclo de meu treinamento para a Meia de Angra, que, em princípio, aconteceria no dia 12 e, agora, somente  no dia 26!

Conversei com minha companheira e mandei uma mensagem pra Regina, nossa irmã baiana, moradora no Perequê, há 45 km de Paraty, há 47 minutos e 53 km do centro de Angra dos Reis, há quase uma hora, de carro. 

Corredores somos criaturas adeptas de um esporte solitário, mas como todo ser humano, temos uma enorme atração pelo agrupamento por afinidades, o que nos garantiu a formação dos laços de pertencimento este é o caso daquela família, da nossa outra família com quem convivemos e compartilhamos muitas experiências quando deixamos nossas cidades de origem: Bahia e Rio de Janeiro.

Essa conquista para a nossa sociabilidade é resultado da nossa “cultura cumulativa”. Temos uma capacidade sem precedentes de formar relações próximas com todos os membros da nossa espécie, inclusive os que não pertencem à nossa família de sangue, de acordo com o cientista e arqueólogo Patrick Roberts, em entrevista à Revista Veja, em 2018. 

Nós, aqui do Rio de Janeiro; eles, de Salvador, Bahia o que, já em princípio, nos irmanaria tamanho o carinho que baianos e cariocas sentem mutuamente: samba de roda, capoeira, maculelê; acarajé, pimenta, moqueca, feijoada, frutos do mar, peixada; carnaval, lavagem do Bonfim, festa de Yemanjá, umbanda e candomblé, o sincretismo religioso; a questão da escravidão e a resistência; o simbolismo do abadá e uma enorme paixão pela vida vivida intensamente.  Caetano, Gil Daniela Mercury, Margareth Menezes e Preta Gil; Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Martinho da Vila. Tudo junto e misturado neste alegre e gostosa sinfonia de um arco-íris brilhante e multicultural. 

Não demorou para que nossa irmã nos respondesse, fraternalmente, da Bahia,  - onde estava - , estranhando o "pedido" :  era só eu chegar, "de mala e cuia, levando Ana Paula e o José para aproveitar o passeio", o que não seria possível,  pois já haveria começado as aulas do nosso menino.

Um dia depois, tratei de garantir a passagem para Angra dos Reis, direto no guichê da rodoviária de Campo Grande, pois os ônibus para Paraty - o que seria ideal! - somente partem de uma rodoviária muito distante de minha casa. Retirei apenas a passagem de ida, para o dia 24, pois, na ocasião não haviam sido liberadas as de volta pela empresa de ônibus. Uma semana depois, descobri que a passagem de volta somente é liberada depois do embarque, ou seja, somente chegando em Angra eu teria como adquirir a de volta! E isto em pleno Carnaval!

Com a passagem para Angra, chegando no final da tarde do dia 24, daria para retirar o meu kit com a antecedência de um dia, mas, somente no dia seguinte. Claro que ainda teria tempo suficiente para descansar para a prova no dia seguinte. Apenas deveria ficar atento ao outro dia, na madrugada do dia da prova - um domingo! -  a fim de chegar com uma certa antecedência, o que é o ideal.
 
Equacionada parte da questão, passei a me concentrar nos aspectos técnicos da continuidade do treinamento. Pensei noutro coletivo, o Efusivos Runner. Telefonei para o Paulo, colega de trabalho e meu companheiro daquele grupo de corredores e lhe contei o que aconteceu pelo que me pediu falar com o Jonhy, o corredor mais veloz do nosso grupo e me perguntou se eu sabia quem ele era. 

Claro que sabia: geralmente, cruzo com ele, quando eu ainda nem passei da metade de uma prova de longa distância. Ele já está voltando com um enorme sorriso no rosto jovial com umas passadas de velocista a dar inveja a qualquer avestruz.

O rapaz é referência em corridas da Appai, medalhista e reconhecido no meio dos corredores.

Compartilhei minha planilha de treino com ele, depois de contar o que aconteceu e ele me orientou a repetir as últimas semanas de treino, mantendo todo o planejamento semanal. Então, no primeiro longão destas quatro semanas a mais que eu "ganhei" da comissão de organização, prossegui repetindo os 15 km das semanas anteriores, pensando na manutenção do meu ritmo, o que, não só tenho conseguido, como consegui baixar o tempo.

Entendo necessária certa flexibilidade - aliás, em tudo na vida! - quando se trata de um treinamento que trabalha intensidade e volume, ou seja, aumento da distância corrida e da velocidade ideal, no meu caso, cerca de 10 km/h, ou, um ritmo de  mais ou menos 6,0, conforme a tabela de paces.

Eu e minha esposa assim como Regina e sua família precisaram se adaptar a uma cidade bem diferente de nossas origens, entretanto, havia algo de familiar que nos levou àquele localidade no início do século. Talvez as lindas praias da região e, aliás, muito mais bonitas que as mais bonitas do Rio de Janeiro.

Foi necessário flexibilizar o meu planejamento de treinos e equacionar toda a logística em função da mudança no cronograma da prova. Mas, é claro que há situações em que se torna inviável qualquer forma de flexibilização.

Valores são inegociáveis assim como visão de mundo: direitos humanos, respeito às diferenças ultrapassam o marco regulatório social. Não faz o menor sentido, pra mim, dar bom dia aos homens que expõe, lamentavelmente, pássaros engaiolados, nos muros e galhos de árvores, para, não só atrair outras aves a serem aprisionados em alçapões, como, também "desenvolver" seu cantos, a fim de  valorizá-los enquanto mercadoria. Um crime ambiental - a luz do dia, com todos vendo! - com pena prevista de multa e prisão.

Não conheço ninguém que tenha sido preso ou pagado alguma multa, pelo aprisionamento de pássaros!

Além do acaso, o Destino também prega  umas peças. Mas, também, eu colho os frutos do que eu planto até mesmo por ignorância ou por acidente.

Cobras, gaviões, bois e vacas,  lama para todo o lado, uma dilúvio de chuvas torrenciais cortadas por raios e trovões estrondosos, que pareciam tremer o solo, o que jamais poderíamos pensar naquela experiência e, claro, nunca fizeram parte da nossa rotina de cidadãos que vivíamos na metrópole, mas que tornaram-se frequente em nossas vidas, junto a novos hábitos adquiridos, como o andar de bicicleta e cuidar da terra e colher hortaliças e frutas diretamente da terra e, não, do sacolão. Esta era a nossa nova realidade no Perequê!

Dentre algumas estratégias adaptativas, por medida de segurança - "vai que um boi invadisse nossa casa!..." - decidimos plantar uma "cerca viva" junto aos mourões e arame farpado que cercavam nosso terreno quando ainda não havíamos construído um enorme muro de lajotas ao redor de toda a nossa área e, não sei de onde foi que eu tirei a ideia de fazer aquilo usando a própria vegetação.

"Amoras dão em árvore. Não são arbustos" foi o que aprendemos, na prática!

Não tinha nem dois metros de distância entre uma muda e outra da quantidade de mudas de amoras que plantamos em nossa volta naquele solo, de terra preta e adubada pela natureza. Região de alto índice pluvial, chovendo quase todo dia e alternando com o sol, não deu outro resultado com o passar do tempo.

Ao mesmo tempo em que construíamos nosso muro, notamos que estávamos ficando presos dentro de um terreno cercado por árvores que já estavam chegando aos dois metros. A quantidade de tortas de amoras que Ana fazia, não dava conta de tanto fruto, o que não resolveria aquele problema. Então, não tive o que fazer a não ser começar a tirar aquela floresta silvestre.

Ignorante, displicente com a segurança, pensando - e, pior, me orgulhando! - da minha autossuficiência, metido a aventureiro, eu mesmo podava os galhos de nossas árvores e não haveria de ser diferente com aquelas amoreiras

Cortei grande parte deixando algumas dentro de nosso terreno, mas, quis o Destino, aproveitando as brechas da minha síndrome de Tarzan, de me dar um tapa na cara. Há quase 3 metros de altura, sem cinto de segurança e nenhum outro equipamento de proteção necessário para aquela perigosa empreitada, preso, apenas, com uma corda no tronco, me vi, no chão, sendo acordado por minha esposa, olhando o seu rosto e o céu atrás dela.

Eu não estava morto! Mas, a chicotada do galho flexível, ao ser cortado pela lâmina da minha serra, ao bater no meu rosto, fraturou um dos ossos do mr rosto e me jogou daquela altura. Ainda bem que caí na terra e ainda tive como uivar alguma coisa que soou como socorro para minha esposa que estava dentro de casa. Ainda bem!

Claro que depois daquele acidente passei a tomar mais cuidado com a minha integridade, apesar de que ainda repetiria o mesmo erro por mais duas vezes na vida e, mais uma vez, Deus foi benéfico comigo, assim como é com as crianças, com os loucos e com os ignorantes.

Até mesmo a flexibilidade tem seus limites e eu nunca fui do tipo atleta de grande flexibilidade muscular o que descobri enquanto praticante do Taekwondo, milenar arte marcial coreana. Mas sempre fui muito ágil e de uma certa força necessária para aquele esporte. 

Confesso uma predileção pela natação, na medida em que deixei de lutar, mas, que, até hoje, me esforço pra mergulhar na piscina do complexo esportivo da Vila Olímpica para relaxar a musculatura. A satisfação é inigualável e imediata para o restante do dia!

Com o avançar da idade e a perda de colágeno minhas articulações requerem um cuidado bem maior do que quando jovem, assim como toda a minha musculatura e, daí não descuido das sessões diárias de alongamento e automassagem. Idosos adultos como eu precisamos negociar com o corpo para minimizar a cobrança  impiedosa do passar dos anos.

Encerrando mais um mesociclo de treinamento, com o mote que iniciou este episódio,  senti uma enorme necessidade de definitivamente repaginar este blog, inaugurado em agosto de 2008, até então  destinado a disponibilizar textos literários e propor atividades didáticas às minhas turmas.

12 anos de publicações ininterruptas, depois da primeira postagem em 2008, a partir de agosto de 2022, o blog veio se transformando no meu diário e bloco de notas para textos autorais, de cunho filosófico-literário mesclado com o ativismo da luta social, contra a discriminação e preconceitos, resistência, defesa pelos direitos humanos, inclusão social,  manutenção do estado democrático de direito, até que, finalmente, logo após o isolamento social devido à pandemia do Coronavírus, ao retornar às corridas de rua, iniciei o meu diário.

Assim, a partir de agora, não descartando outras mudanças que venham a ocorrer, tendo alterado o nome, - Corro, logo existo! - , orientação e destinação deste blog, a partir da leitura das obras dois escritores, minhas atuais referências e inspirações, o Doutor Drauzio Varella e o filósofo e ultramaratonista Haruki Murakani, tomei como incentivo e motivação para escrever alguns episódios a serem utilizados num podcast a ser produzido junto a um vídeo.

Ao mesmo tempo em que não achei conveniente manter o primeiro título assim como a mensagem descritiva deste meu bloco de anotações virtual, também não encontrei motivo algum para criar um novo blog, tanto em respeito aos 39 leitores assinantes e colaboradores, assim como as mais de 21.000 visualizações até o momento, com mais de 100 leituras neste mês de janeiro, quando fecho o rascunho de cada ciclo entre os mesociclos do meu programa de treino. 

Cada corrida de domingo, - o "longão" a partir de 10 km de final de semana é utilizado para pensar e dialogar com os meus pensamentos sobre a temática semanal, devido ao volume de treino, acima de 1 hora.

Jamais como aconselhamento ou cartilha de "faça isto!" ou "faça aquilo!", "evite!"! , pois cada experiência é íntima, de ordem pessoal, subjetiva, pretendo, em cada série de episódios, definidos por temáticas específicas, a partir de minha leitura e orientações recebidas a partir de consultas a alguns profissionais  - da área dos esportes, da nutrição, da ortopedia e da medicina, - comentar e analisar o rendimento de minha rotina de treinamento através de minhas reflexões subjetivas e filosóficas.

Por fim, a proposta é escrever  -  do meu ponto de vista! -, sobre o que entendo por práticas saudáveis e minhas experiências de corredor, professor, trabalhador, estudante, servidor público, ativista e militante, social democrata e antifascista, marido e pai de uma criança de 4 anos, torcedor pelo Fluminense e pela Escola de Samba Unidos da Portela.

Escrever, principalmente, sobre as corridas de rua, provas de longa distância, maratonas, com o prazer da vida vivida com intensidade, paixões e alegrias, surpresas e encantamentos! 

Pode ser que o meu filho, no futuro, agradeça este meu empenho em deixar um registro do meu delicioso esforço em direção à longevidade, negociando com o tempo para não deixar de brincar com esta criança, que me põe pra correr no quintal e em volta da casa, subindo nas minhas costas quando faço flexões, fugindo de seus ataques com a bomba ninja, jogando bola na praia, além de estar com a família, e amigos, sem descuidar dos meus momentos de intimidade comigo mesmo. Só por hoje!





domingo, 15 de janeiro de 2023

Diário, 2ª semana 2.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 03/23)

15/01/23 (primeiro dia) - longão

Erro de estratégia ou de horário?! Era o que pensava logo assim que saí casa pra começar o 2° mezociclo (15 km): é que programei o app pra 12 km, quando já estava nos 18 km.

Como não tinha como reprogramar, continuei no meu ritmo. 

O cansaço e a prostração eu atestei ao calor devido ao horário. Mas é que o sol, já perto das 6 hs, já dava sinais do que seria aquele domingo que chegaria à sensação térmica dos 54º.

Quando corro em horários diferentes, encontro corredores também de horários diferentes e, saindo por volta das 5:30, em especial, é impossível não passar por uma corredora entusiasmada, cujo nome jamais irei saber, tampouco detalhe algum sobre ela a não ser que ela sempre me deseja, entusiasticamente, uma "boa corrida!" com um largo sorriso no rosto, seguindo em seu ritmo quase parecido com o meu, quando eu já estou retornando do final da orla.

Durante os treinos longos tenho oportunidade de refletir sobre as minhas reações diante da recepção dos meus cumprimentos, do meu bom dia para as pessoas que encontro pelo caminho. Em especial, naquele longão, fiquei pensando como deve ser sacrificante para uma pessoa, em luta diária contra a balança, com uns quilinhos a mais de gordura no corpo, correndo, quase se arrastando, suando em profusão, tentando respirar com um enorme sacrifício, já completamente extenuando, receber um retumbante BOM DIA de uma pessoa magra, correndo num ritmo tranquilo e um largo sorriso no rosto, sem uma gotinha sequer de suor.

Não sabendo que efeito poderia causar em algumas pessoas com quem às vezes encontro pelo caminho, resolvi, para algumas, dar um bom dia entusiasmado e, para outras, apenas um gentil e cordial bom dia e, para outras, apenas um leve sorriso. E isto tudo está preso, claro, ao horário em que eu corro: antes das cinco horas da madrugada tem bem menos corredores e corredoras que depois.

Com os dois aplicativos abertos pude acompanhar, com maior exatidão os quilômetros percorridos assim como o tempo e o pace. Ao final da orla, subi pela rua Abílio Teixeira e corri em parte da Estrada de São Tarcísio, retornando à praia pra começar a retornar.

Por volta do 10 quilômetro, já na praia de Sepetiba, na volta, percebi que comecei a me cansar. Não sei se foi algum desgaste por cansaço ou a temperatura ou a resistência em ter que correr, não os poucos 5 km restantes, mas, sim, o aclive - ainda que suave - da Estrada do Piaí para conseguir completar a distância necessária.

O fato é que tem estado muito quente com uma umidade muito alta. Assim, o ar fica quase que irrespirável, fazendo com que a toalhinha da viseira fique encharcada. Pelo menos, ela evita que o sal do suor entre nos meus olhos, o que é um diferencial.

Finalmente cheguei na rua José Fernandes, com seu suave declive uma das poucas quase que totalmente arborizada, principalmente, em frente às escolas da prefeitura. A diferença do clima e da temperatura é perceptível.

Consegui completar os 15 km um pouco antes da metade da rua do canal o que me permitiu desacelerar caminhando por uns 700 metros até chegar em casa.

18/01/2023

Como ontem fui dormir muito tarde, acabei  não conseguindo sair da cama para o treino leve de hoje que, na verdade, deveria ter sido pesado, para forçar no volume e na intensidade. 

Mas, com a certeza da tranquilidade do treino, por muito pouco me deixei levar pelo canto da sereia e continuado na cama. 

Mas, pensando em como, depois, iria me arrepender, me levantei e fui pagar a minha cota.

Fiz uma boa corrida nos 10 km deste ciclo terminando com 66 BPM ao completar o trajeto tão conhecido meu, subindo pela rua do canal, passando em frente a minha casa e contornando em frente à padaria.

Minha rua, assim como da vizinhança tem muitas casas, ainda, com árvores no quintal e, não é nada incomum encontrar casas com grandes árvores, ainda, apesar, cada vez mais, estarem rareando.

Muitos decepam suas árvores para  simplesmente, fazer lenha, ou impedir que as grandes raízes danifiquem seus imóveis. São mangueiras, abacateiros, jaqueiras, ou seja, árvores de grande porte devido ao passado rural da região.

O fato de que a orla não ter destas grandes árvores não se refere apenas às condições naturais, mas, principalmente, devido às obras realizadas em 2012, pelo Projeto de Reabilitação Ambiental da Praia de Sepetiba, executada pelo Inea.

Foi feito o remanejamento de 500 mil mudas invasoras do mangue e dos seus 780 mil caranguejos, que foram morar na área vizinha à Base Aérea de Santa Cruz e, depois, toda a lama foi coberta com geotêxtil, que permite o fluxo da água e de gases e, em cima, distribui-se uma nova camada de areia limpa.

Nossa praia, com seus 5 km, antes da obras havia sido degradada e se encontrava poluída por lodo orgânico, fruto do fechamento do canal pela instalação de uma siderúrgica internacional, tantas vezes multadas pelos órgãos competentes e que, apesar de todas as ações judiciais, segue comprometendo o meio ambiente. 

No passado, nossa região já havia sido referência para a economia pesqueira, por ser um criadouro natural para peixes, moluscos, crustáceos, foi "degradada pela poluidora  Companhia Mercantil e Industrial Ingá que processava minério para a produção de lingotes de zinco e se instalou em 1962  na Ilha da Madeira em Itaguaí, como se lê no artigo da EcoDebates, de 2018, "Por que os botos estão morrendo na Baía de Sepetiba e em extinção na Baía de Guanabara, de Sérgio Ricardo.

Não só o Portal Inea, assim como para os moradores, "as obras recuperaram a faixa de areia, trazendo de volta a urbanização praiana e beneficiando cerca de 40 mil moradores da região" atendendo, assim, às nossas reivindicações.

Foto: Márcio Pinto

Ainda adolescente, nossa mãe costumava nos trazer, a mim e aos meus irmãos, para passear em Sepetiba e, confesso, pouco tinha a ver com o que eu vivencio hoje e dia. aquela Sepetiba paradisíaca, dos anos de 1970, em que os jovens da zona sul vinha para curtir, namorar, passear, com um mar piscoso, de camarões que saltavam de noite, iluminados pelos farois dos carros, só existe nas minha lembranças.
Foto: Márcio Pinto

O que resta da resistência, do esforço e sacrifício dos remanescentes da pesca artesanal é fruto das lentes de Márcio Pinto, meu colega de trabalho e fotógrafo talentoso, morador em Santa Cruz, que, além de apresentar aos estudantes e público em geral o Corredor Cultural, parte do passeio "Descubra Santa Cruz", incluído, no ano passado, entre os bairros históricos do Rio de Janeiro, como parte do Patrimônio Histórico e Cultural de nossa cidade.

Márcio, com extrema habilidade, sensibilidade, técnica, estética e profissionalismo, além de comprometido com as questões sociais e ambientais da região, vem se utilizando de suas lentes para, não só divulgar os encantos e desencantos do extremo oeste do Rio de Janeiro, como, também, sensibilizar os agentes públicos.

Elogiado, reconhecido e premiado local e internacionalmente, Marcio expôs recentemente alguns dos seus registros sensíveis e inspirados, na "Lost Paradise" em Minas Gerais, em 2022.

Mas, correr pelas ruas do bairro, principalmente pelas do antigo caminho do triunfo, que corta caminho até a estrada principal em direção à Santa Cruz, ainda permite usufruir de um clima bem mais ameno nestes dias de muito calor, como os do verão, exatamente, porque aquela região ainda abriga muitos sítios e casas com grandes terrenos, com árvores frondosas de sombra agradável. 

As correntes de vento em Sepetiba, contrárias ao ar poluído que vem do Terminal da Vale S.A, tem se mostrado uma aliada natural bem mais eficiente do que as políticas ambientais de deveria agir com rigor, cumprindo, assim, o seu papel em benefício do meio ambiente e de toda a população da região. 

E isto, conforme o site Baía Viva,  em pleno século XXI, quando vivenciamos a Década do Oceano  e Restauração dos Ecossistemas determinado pela Organização das Nações Unidas.

20/01/2023 

Existe alguma relação entre a corrida de rua e a religião?

Lá pelos 5 km do treino da meio da semana, já retornando, foi que isto de corrida como religião ideia grudou na minha cabeça e, até agora, não paro de pensar nisto.

As corridas acima dos 10 km, como aquela, por exemplo, a de sexta feira, dia do treino leve, tranquilo, para relaxar no ritmo e me despreocupar com a performance, estimulam devaneios e ensaios filosóficos de  maior aprofundamento.

Mais do que aquelas ideias que, na mesma velocidade que vem, também, logo a seguir, desaparecem, talvez mais a ver com corredores velocistas, de provas curtas, cujos músculos contraídos precisam obedecer inequivocamente aos comandos do cérebro voltado à técnica e às tecnologias biomecânicas.

A questão espiritual, de foro íntimo, sempre esteve presente na minha vida, diferente, das religiões e da religiosidade que entendo como pertencente à esfera institucional e organizada por grupos, agremiações, pessoas com anseios e desejos em comum.

Não faço e nunca fiz acepção de religião alguma, inclusive ao direito de não se acreditar em Deus tampouco ao agnosticismo .

Talvez, a geração da qual eu faço parte, que viveu intensamente a atmosfera psicodélica, hippie e alternativa dos anos 70, tenha alguma responsabilidade sobre esta minha herança, notadamente, a de rejeição ao instituído.

As nossas possibilidades - ao menos para uma parcela da juventude da zona sul -, naquela ocasião, se ampliaram sobremaneira através das canções e mantras do músico e poeta Bob Dylan (1941), dos mantras do músico e também guitarrista George Harrisson, dos Beatles (1943-2001) e o movimento Hare Krishna; dos mararishis - líderes espirituais indianos; da alimentação macrobiótica, do filósofo japonês George Ohsawa (1893-1966); dos movimentos pacifistas e do Ahinsa, - a não violência - , de Gandy,  ecoando, através da música, da cultura, da alimentação e da dança, com os apelo fim da Guerra do Vietnã (1959-1975) e consciência ambiental. E isto tudo nos anos de 1970!

Em casa, de banho tomado e feito o meu alongamento, antes de sentar para escrever, olho o meu filho, minha esposa e nossa cachorrinha dormindo em paz, harmonia e serenidade e volto meus pensamentos para a espiritualidade e penso nos locais por onde passo durante as corridas aqui, pelo meu bairro.

Não são poucas as ofertas religiosas em Sepetiba: são igrejas católicas, paróquias, centros espíritas, kardecistas, templo messiânico e terreiros de umbanda; roças de candomblé.

A Igreja da Profunda Intimidade, como se lê em grandes letras azuis, no alto da edificação, igreja evangélica neopentecostal, na praia de Sepetiba, sempre me chamou a atenção, muito mais do que a infinidade de outras igrejas protestantes, pelo seu apelo na escolha do nome e, claro, não tenho como deixar de pensar nas motivações de quem escolheu aquele sugestivo, inquietante, desafiante e, por que não dizer, corajoso nome?!

Talvez porque ela expresse um desejo universal do homem se reconectar com aquilo que tem de mais profundo no seu íntimo; que lhe permita responder à nossa cruel e atávica indagação jamais respondida -, quem sou, de onde vim, para onde vou - como Édipo diante do seu Destino, ao nos franquear nosso maior desejo, o do autoconhecimento, talvez, a construção do caminho para a felicidade e realização plena.

Nome bem melhor escolhido do que a internacionalmente conhecida, com sede em diversas partes do mundo, com um patrimônio somente inferior à da igreja católica, Universal do Reino de Deus, do Bispo Edir Macedo, cujo templo, na esquina da minha rua, desde sua inauguração, passou a ser ponto de referência para os correios e entregadores de encomendas, tamanha a sua expansão publicitária e, claro, econômica!

Polos opostos, assim que as entendo. Mas, guardando entre elas, algo em comum, a necessidade humana do agrupamento, do estar junto, da irmandade, além de favorecimentos particulares, o compartilhamento de uma determinada visão de mundo, talvez, de um desejo de uma determinada coletividade, haja vista os enormes esforços, o grande financiamento e empenho para a campanha do ex presidente, derrotado nas últimas eleições. 

Desta forma, vejo-me, então, distante da religiosidade do senso comum e, até pouco tempo, como um ateu, o que descobri não ser uma verdade absoluta, pois, o ateísmo, ao negar a divindade, acaba elegendo a própria pessoa como deus. Então, ela acredita em um deus que é ela mesma. Definitivamente, não é o meu caso: sou uma pessoa de relacionamentos e dependo de todas e de todos.

Não é o meu caso, mas, guardo, com muito carinho e respeito, as minhas crenças, que oscilam entre o panteísmo e a filosofia budista, e a espiritualidade natural - porque entendo todos os seres - do ser humano ao vira latas; da mula ao beija-flor; da minhoca à samambaia - que, propriamente, de uma religião instituída, institucional.

Meu corpo, meu organismo precisam ser cuidados e respeitados como um templo, em minha individualidade e, nos meus interrelacionamentos, como uma egrégora, pois pertenço ao universo.

Constituo-me não num organismo, cujas células mantém-se unidas através de um miraculoso equilíbrio de atributos da física, em minhas células e moléculas. e disto tenho uma tremenda certeza! É mais que uma certeza: é a minha fé!

E, para alimentar esta minha fé, guardo meus ritos como os das corridas de rua e, talvez, tudo isto tenha sido, formado, educado, construído, durante toda a minha vida, passando pela paisagem tão bem apreciada das praias, do mar, do céu estrelado, que me devolviam a paz  do espírito curioso e aventureiro de uma criança, assim como dos raios e dos  trovões, que alimentaram minha curiosidade e jogavam adrenalina no meu sangue, a me preparar para os desafios e perigos da vida.

Não consigo viver longe do mar e, apesar de impróprias para o banho, a maresia, a brisa marinha das praias de Sepetiba, do Recôncavo, do Cardo, promovem um up no meu treinamento.

Gosto de correr na chuva e, mais ainda, pela orla da praia: o espelho d'água, antes do sol nascer, ainda pouco iluminado; as lanternas acesas das raras embarcações, cujos pescadores artesanais voltam do mar, ainda de madrugada, são os círios a compor uma dinâmica aquarela multimidiática, cuja Natureza  insere, na pauta musical, os acordes de cantos estranhos de aves migratórias, de passagem pela região, consorciadas às aves de brejos e mangues, como o socó e as gaivotas brancas, do extremo oeste fluminense.

Foto: Márcio Pinto

Àquela orquestra de câmara, junta-se o solo do motor de popa, de um pescador, contrito em seu pequeno barco,  ainda com suas lanternas acesas, elevando-se além dos acordes da paleta musical,  dissonantes, porém harmônicas, do socó e da altaneira presença das gaivotas do mar.

Tais espaços destinados ao meu culto diário sempre foram muito próximos às minhas experiências contemplativas: em minha adolescência e juventude vividas na zona sul  quando não estava com meus amigos, gostava bastante de ficar sozinho na beira do mar, olhando a linha do horizonte, ou na Pedra do Arpoador, esperando o por do sol.

Em minha prancha de surfe, quando não tinha onda, permanecia deitado de bruços, com os braços apoiados segurando o pescoço, ainda fitando aquela divisa entre o céu e o mar, entre o finito e o infinito.

Quando criança, nossa mãe Maria, diariamente às seis da tarde, benzia-nos - a mim, meus irmãos e a alguns amiguinhos, quando interrompíamos nossa pelada pra subir até o nosso apartamento e terminado o rito, em seguida e apressadamente, voltar aos jogos e às brincadeiras infantis, sempre descalço.

Segurando os sapatos, aos domingos, caminhávamos pela areia da praia até o final de Copacabana, no Posto 6, para assistir à missa, mas, confesso, eu pouco prestava atenção naquelas palavras estranhas - a missa era em latim! - proferidas por um padre. De costas!

A igreja do Forte de Copacabana, bem pequenininha,  tinha um atrativo especial: ficava numa praça cheia de amendoeiras doces e refrescantes!

Bem maior era a da Paróquia São Paulo Apóstolo, na Rua Barão de Ipanema, de arquitetura imponente e belos vitrais, algumas quadras depois, que frequentei nos anos de 1960, em preparação para a Primeira Comunhão: as brincadeiras no pátio da igreja, antes das aulas, as balas doces e macias que recebíamos até hoje tem um sabor de boas lembranças, de uma amizade, de laços de afeto, que nos uníamos enquanto crianças, enquanto irmãos.

Assim, não vejo como não entender a magia das corridas de rua como religião, não só devido aos ritos e rituais, diariamente praticados, pelos seus adeptos, como, também, daquilo que nos alimenta em nossa crença: para alguns, a da superação da condição humana, da certeza da finitide; para outros, a da transformação íntima, subjetiva pela eficácia simbólica, conforme Silva, Rigoni e Teixeira, no artigo  O ritual no âmbito do lazer numa prova de meia maratona, publicado em 2019.

Mas, o caráter coletivo sobrepõe-se a todos os demais, visto que um rito não pode ser composto somente pelo envolvimento emocional individual, na medida em que ele é, antes de tudo, "uma forma de celebrar (de viver) que é coletiva, portanto, pública.", como leio na página 239.

Reencontrar parceiros que só encontro nestas provas de longa distância, como as meias maratonas e, certamente, reencontrarei nas diversas corridas e maratonas deste ano; fazer novas amizades e estabelecer novos laços de afeto é, também, o que irmana corredores de rua, nesta teia universal de nossa existência.

Bem além dos elementos relacionados aos "sacrifícios" e das dores do treinamento, de atletas profissionais e de competidores, tidas como elementos constituintes da beleza esportiva, os rituais corporais, de pessoas comuns, de corredores de rua, de atletas amadores, despreocupados com o podium, transformamos o nosso envolvimento com o esporte num verdadeiro rito, muito além do sacrifício, bem mais próximos aos elementos motivacionais coletivos, inerentes aos ritos mágicos. 


segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Diário, 2ª semana 2.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 02/23)

MINHA SEMANA DE TREINOS

08/01/23 (primeiro dia) - longão. Como já havia obtido a marca necessária conforme meu planejamento para 2022, após uma semana de repouso pelo estresse da fadiga muscular, acúmulo de ácido lático, normal entre corredores de rua, decidi começar com um volume menor que o obtido no último dia do ciclo de treinos anterior, partindo dos 12 km. 

Fui dormir no meu horário regular tendo um lanche feito de carboidratos e proteínas - stocks com tahyne e ricota  - seguida de uma deliciosa sopa de feijão com crutons de apoio na air fryer. Estava chovendo fino e fazendo frio o que me levou a dormir logo assim que deitei debaixo do cobertor. 

Acordei às 4 da madrugada mais pela noite agradável e bem dormida nas minhas suficientes 6 horas diárias de sono noturno. É que compenso com a siesta, hábito herdado de família, dormindo uma hora depois do almoço, quando não estou trabalhando, claro!

Em silêncio, pra não acordar a família, fui preparar o café da manhã e deixar a mesa posta antes de sair pra treinar, como sempre faço. 

Coloquei um ovo pra cozer enquanto passava o café,  aquecia meia espiga de milho e uma caneca de leite integral. 

Esperando o café passar, amassei duas bananas e comi com aveia integral, amendoim picado torrado e farinha de chia. 

Minha intenção era, se não estivesse chovendo muito e fazendo muito frio, sair de casa perto das 5 para uma corrida de 1:20, com ritmo médio de 6:30 pra não começar forçando neste plano de aumento gradativo de volume e intensidade.

Como um colega da Efusivos Runner, "a pista estava chamando, o que era pura verdade!

A meta até 06/02 era de 83 km de corrida incluindo 2 dias de fortalecimento muscular em treinos funcionais e alongamento diário com um dia de repouso (sábado) e um treino regenerativo - os 5 km, leves, às segundas feiras, após o longão do domingo.



Me vesti com a roupa e o tênis que ja havia deixado separado na noite anterior e, por precaução, peguei um frasco de álcool e uma máscara ainda devido a Covid e variantes.

Liguei os aplicativos , ainda não deu pra comprar um bom relógio com GPA, - sonho de todo corredor apaixonado! - e saí de casa às 5:24, seguindo pela Estrada do Piaí em direção à orla, passando pelo Coreto de Sepetiba, na Colônia dos Pescadores.

Tanto o Adidas Running quanto o Runkeeper, da Asics,  fabricante do meu tênis, alertavam que eu deveria segurar o ritmo, pois já estava aquém da meta logo nos primeiros kilômetros  lembrando que a intenção não era diminuir o pace, mas, sim, manter o ritmo e o fôlego gradativamente em longas distâncias, a partir dos 10km. 


Não fora os dois cachorros no retorno na Praia do Cardo - a última da orla de Sepetiba, que me fizeram correr de costas tentando proteger meus calcanhares, teria mantido o ritmo e os batimentos cardíacos (rs)


Mas, no final, me senti muito bem tanto pelo rendimento quanto por dispor de uma pista bem conservada e uma paisagem deslumbrante,  mesmo com o tempo nublado. 


Pace mínimo de 6:01 e máximo de 6:57 está muito bom pra começar com este primeiro longão de final de semana .


Ao chegar em casa, fiz a limpeza do tênis, e fui tomar minha ducha. Logo depois, fiz meu alongamento e fui tomar outro café da manhã, com minha esposa que acabara de acordar. Nosso filho continuara dormindo. 

Comemos aipim cozido com azeite, passei outra garrafa de café e terminei a minha caneca, já com toda a família acordada. Já já vou cuidar do almoço, com o reforço nos carboidratos de um macarrão com creme: estamos em dieta... de engorda! Compramos uma nova balança: digital com leitura de bioimpedância. Minha companheira está fazendo ginástica!

 09/01/23 (segundo dia) - treino regenerativo 

Não diria que a noite foi tão agradável pra se descansar, apesar do friozinho gostoso e da ceia leve, no domingo, com direito a salgadinhos, pizzas e vinho. 

Mas é que, as atitudes antidemocráticas e as ações de terror promovidas pelos vândalos que depredaram o Congresso Nacional e invadiram a Praça dos Três Poderes

O inconformismo da derrota nas eleições presidenciais é a barbárie no DF tornaram o final do domingo muito tenso pra gente aqui em casa e pra muitos amigos, companheiros e conhecidos nossos que lutamos para a eleição do atual Presidente da República.


Esperando a família acordar, ainda em férias, debelada a "revolta dos manés", tenho a certeza de que tudo está sendo providenciado pelas autoridades competentes, já que retornamos ao regime democrático e dele não nos afastaremos, jamais!

Acordei um pouco mais tarde hoje, pois sabia que o treino seria suave como planejado em um treino regenerativo que desempenha a função de relaxar as fibras musculares ainda tensionadas devido ao longão do domingo. 

Além disto, tem a propriedade de remover o lactato,  devido ao acúmulo de metabólitos, ou seja, de eliminar o acúmulo de ácido lático, responsável pelas dores e câimbras no pós treino.

As atividades físicas de grande intensidade e esforço exigem estas pausas no treinamento, com a rígida observância dos treino regenerativos, que tem como finalidade o descanso do metabolismo, 24 horas após o catabolismo pós treino (degradação muscular). 

A periodização de treinos, conforme os professores Joao Vitor e Rafael Oliveira, no livro Periodização e Técnicas Avançadas de Força (2020).  baseada no princípio da adaptação considera que o organismo passa por três fases, quando confrontado com um esforço elevado, catabolismo, adaptação e plateu, que, para ser ultrapassado, precisa de um outro estímulo, de maior volume e intensidade, conforme os objetivos.

Então, depois de fazer a minha habitual refeição, saí de casa um pouco mais tarde e, apesar de ter pensado num trajeto curto, não repetitivo, preferencialmente, num circuito plano, evitando a estrada, já que haveria veículos circulando naquele horário, desci direto pela rua do canal, a Avenida Ary Chagas - uma reta de um quilômetro, plana, com um leve declive, em direção à praia, contornando pelo coreto. 


Correndo, pensei que poderia contornar o canal e, assim, obteria os dois quilômetros, completando os demais, dando uma volta na Praça Oscar Rossini. Mas, não tenho a menor afeição por circuitos repetitivos. Aliás, tenho aversão às rotinas, sejam quais forem!

O ritmo era tranquilo, como havia planejado e, na praia, estava com os meus 7m/k, o que seria o ideal durante todo o percurso.  Completando os dois quilômetros pelo calçadão da praia, ao chegar  na esquina da rua de acesso à Praça Oscar Rossini, iniciando o retorno pela Rua da Floresta voltando em direção ao canal.

Daria subir pela rua do canal, mas, em função do desgaste do aclive, ainda que suave, mas segui em frente, em direção à Base Aérea de Santa Cruz. 

Como tenho treinado no mesmo circuito, correndo por quase todo o percurso, na orla de Sepetiba, devido à pista regular e, claro, a agradável vista da linha do horizonte encontrando com o mar, a brisa e as belas paisagens.

Não só isto: como conheço a distância relacionada a cada ponto que me chama a atenção, fica muito fácil eu saber quantos quilômetros e o meu ritmo ao passar por eles, o que é benéfico no acompanhamento do rendimento.

Para isto, em cada mesociclo a partir dos 10 km (12 km, 15 km, 18 km), recupero o mesmo trajeto do treinamento para minha última meia que eu completei no ano passado, que foi a Meia da Reserva, procurando repetir principalmente toda a extensão da orla como prioridade, deixando a volta pela Estrada do Piaí, como "reserva", em caso de não completar a distância necessária.

É que, nesta época do ano, como a estrada não é arborizada, é o trajeto de maior incidência do sol, sem contar com o trânsito: ainda que bem cedinho, já tem vans circulando junto com motocicletas e alguns carros se deslocando em direção à Santa Cruz.

O fato é que não considerei esta minha decisão e não me lembrei de já ter feito um excelente treino regenerativo há bem pouco tempo correndo estritamente pela orla, ida e volta e, então, copiei integralmente o trajeto que incluía retornar pela entrada da Base Aérea o que não foi nada agradável, assim como em nada contribuiu para que eu "relaxasse", como tem que ser feito no treino regenerativo após um longão. 

Comprometido com as lutas sociais, herdando a formação e a consciência de classe da minha família, professor e antifascista, lutando pelos direitos humanos,  e pelo fim dos privilégios de quem acumula as grandes riquezas expropriadas dos trabalhadores,  não seria estranho eu pensar em outra coisa a não ser nos prejuízos à democracia promovido por um governo de exceção, ditatorial, como nos anos de chumbo da ditadura militar.

Da mesma forma, claro que seria esperado eu refletir, diante daquelas placas, da ameaça de que nos livramos com a derrota de um governo, cujo ex presidente indiciado por estímulo aos atos considerados golpistas e terroristas, assistidos e repudiados por todo o mundo democrata, com a invasão do Congresso Nacional e depredação do nosso patrimônio, com enormes prejuízos materiais à cultura, à história e à memória.

O ex presidente, ora nos Estados Unidos, por conta de internação devido a dores abdominais, nada pronuncia a respeito das atitudes criminosas dos seus apoiadores, muitos deles, devidamente presos pelas forças de segurança em Brasília, graças às rápidas ações tomadas pelo nosso presidente Lula e de todos os parlamentares indignados como a maioria dos cidadãos brasileiros.

Claro que não ultrapassei o perímetro demarcado da área militar, ali contornando em direção, novamente, à Praça Oscar Rossini.Conseguindo deixar estes pensamentos no seu devido lugar, voltei a pensar na corrida e, no retorno, já estava passando em frente ao reduto da boemia sepetibana, o Bar do Bill, seguindo adiante, mantendo o mesmo ritmo, e passando em frente à Igreja de São Pedro, na praia de Sepetiba.


Entretanto, apesar da minha desconfiança, não precisei ganhar mais alguns metros a percorrer, pois, ao passar  em frente ao canal, o GPS já marcava os 4 k e, faltando apenas 1 k, retornei em direção a minha casa, entendendo aquele, o circuito ideal para os próximos treinos regenerativos. água, tomei uma ducha e fiz o alongamento necessário. 


Agora, é tratar de repor as calorias perdidas - ainda que poucas, creio! - e começar o dia.

10/01/23 (terceiro dia) - fortalecimento muscular 

Mais ainda que ontem, acordei bem mais tarde: não estabeleci uma rotina de treino funcional, apesar de saber necessária pro treinamento pra maratona.

Nas duas meias corridas em 2022, até que fui direitinho com os exercícios, mas, como aquela rotina de repetições me cansou tremendamente, decidi alterar significativamente usando o pacote de treinos de fortalecimento, equilíbrio e alongamentos da Adidas Running, com a novidade de fazer as séries programadas semanalmente brincando com meu filho, normalmente, à noite.

Hoje fiz uma série de 20 minutos com 3 repetições de polochinelos, exercícios para os braços, pernas e abdômen com ritmo intenso e me senti muito bem. 


11/01/23 (quarto dia) - 10km forte 

 "...mas são só 10km ! ", pensava alto logo que comecei a correr já prevendo o esforço que teria que empenhar pra, não só manter o ritmo, como, aumentar a velocidade.

Tinha que fazer os 5 quilômetros em meia hora. Ocorre que este "tinha" não seria naquele dia, pois ainda estava na primeira semana de treinos e isto seria pra daqui a duas semanas. E olhe lá!

Se eu ficasse na marca dos 10 quilômetros em "mais ou menos" uma hora eu concluiria a Meia em pouco mais de duas horas. No máximo, passaria uns 10 minutos.

A Meia da Reserva, em setembro de 2022, eu concluí em 2:03, com um ritmo médio de 05:51 e velocidade máxima de 14,1; A Meia Internacional, pouco menos de um mês antes, em 2:18, ritmo médio de 6:31 e velocidade máxima de 12,6.

Algo na metade disto já estaria muito bom para as minhas pretensões com a Maratona do Rio, na metade do ano. Ou seja, completaria em 2:11, com ritmo médio de 5,91 e velocidade máxima de 13,35 estaria excelente, pois teria baixado o meu índice, e, daí, teria alguns meses para manter este ritmo, podendo ganhar ou perder, mas, com certeze, seria muito bom.

"Seria", ou seja, "provavelmente", mas, entrando um pouco no aspecto da minha personalidade, uma criatura tão ansiosa como eu, logo no começo da corrida já estava pensando no esforço que seria ficar abaixo do pace 6, no máximo, após o segundo quilômetro pois "seriam apenas 10 km!

Mas, enfim, completei a corrida em 1:02, com pace 6:13 e velocidade máxima de 11 k/h, já no primeiro dia de treino forte para os 10 km. Claro que tenho que tormar cuidadeo com  com a fadiga muscular e as lesões provocadas pelo excesso de treino, mas, isto, vai do controle psicológico, do treinamento, fortalecimento muscular, alongamento, alimentação, hidratação. Ou seja, passou da hora de  correr com seriedade, o que venho me esforçando há pouco mais de um ano, desde que voltei a  correr e começar a correr com rigorosidade.

E isto exigirá acordar religiosamente às 4 hs da madrugada, pois pego no trabalho às 9hs e o nosso filho, às 7 hs durante toda a semana. Ou seja, às 6 hs, não só tenho que estar de volta, mas, tomado a minha ducha e feito o alongamento em 4 dias da semana, pela manhã.

Os dias de fortalecimento muscular, na terça e na quinta, tem como fazer os exercícios em qualquer momento do dia o que, juntando a segunda feira, de regenerativo e o sábado de descanso, não será, assim, tão "sacrificante", ainda mais com um objetivo tamanho que é completar uma maratona inteirinha - e inteirinho! - não só aos 66 anos de idade, mas, tendo voltar a correr maratonas depois de mais de 30 anos. E com o foco em manter aquele índice daquele rapaz de seus trinta e poucos aninhos. 

Estranho isto de eu não ter me dedicado a outros esportes e, ao contrário, me ver tão aficionado pela corrida de rua. Não sei se ponho na conta do meu biótipo, da falta de tesão, das oportunidades ou de qualquer outra motivação de ordem fisiológica ou psicológica, sem desprezar, claro, o fator econômico.

Na minha adolescência, apesar do estímulo à educação física dos governos militares nos anos 60 e 70, como fiz todo o ensino médio, antigo segundo grau, estudando à  noite, porque sempre trabalhei durante todo o dia, fui dispensado das aulas de educação física, e, diga-se de passagem, elas existiam apenas "no papel", pois, não me lembro de jamais ter visto ou assistido a uma aula sequer de prática esportiva.

Meu irmão mais novo tinha uma caloi 10 e, de vez em quando, eu passeava com ela, mas, como ele passou no vestibular para uma outra cidade e precisou sair de casa, deixei de andar de bicicleta. Naquela época, deixei de pegar jacaré em prancha de isopor e consegui comprar a minha primeira prancha de surf, esporte que pratiquei até eu me casar: fui morar distante da praia.

Alguns anos depois, comprei um caiaque, contratei uma professora de canoagem  e passei a remar na lagoa Rodrigues de Freitas e na Praia Vermelha, na Urca. Quando viajava com a família, minhas filhas adoravam passear de caiaque.

Na faculdade, nos anos de 1980, também trabalhava e estudava à noite, tendo sido dispensado, o que, na época, me frustrava bastante pois, estudando na UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, quando não estava em aulas, costumava visitar o pólo esportivo e ver alguns alunos jogando basquete, futebol, correndo... e isto durante à noite.

No meu primeiro casamento, conheci o tae kwon do , uma arte marcial coreana que usa bastante os pés, os saltos e os socos, e passei a me dedicar com afinco àquela atividade. As dores na coluna me fizeram abandonar a luta na penúltima graduação - faixa vermelha ponta preta! 

Mas, hoje, aprendi com o corredor maratonista e triatleta Karuki Murakami que as dores são inevitáveis. O sofrimento é opcional!

Mas, com o Dr. Drauzio Varela, já havia aprendido a não colocar na conta das dores inevitáveis da idade a falta de motivação para as corridas de rua o que me fez pensar - e fazer por onde! -  pra voltar a correr. 

Claro que bem antes, escritores como Julio Verne, A Ilha Secreta, Hernest Hemigway, com O velho e o mar" e Amyr Klink, com "Cem dias entre céu e o mar " me serviram de estímulo,  tanto quanto os clássicos A Odisséia , A Ilíada, Dom Quixote e  Os Lusíadas. 

Afinal, a corrida de rua pede muito menos que toda aquela bravura, diga-se de passagem, romanceada. Ela pede muito pouco, aliás: apenas a vontade de correr e isto, eu tenho de sobra, além de um par de tênis!

12/01/23 (quinto dia) - fortalecimento muscular

Sem sombra de dúvida,  fazer exercícios ao ar livre motiva, inspira e rende muito mais! E foi com este espírito que hoje abri a porta e fiz a minha série, mas, com algumas adaptações por causa de uma dor nas costas que arranjei nos últimos dias.

Em primeiro lugar, achei que foi por causa de um exercício  diferente que forçou a musculatura das costas, mas, pensando melhor, atestei aos movimentos de poda que venho fazendo no nosso quintal, além, claro, de brincar com o meu filho intensamente.

Mas, pela manhã, com todos dormido a mistura do canto dos pássaros com algumas e vozes de vizinhos tornaram a série mais do que agradável.

Pensei no quanto o cuidado com as plantas, com o quintal e a grama me faz tão bem quanto às corridas.  Tanto correndo sozinho, quanto à jardinagem me devolve a paz e a serenidade tão bem-vinda.

A observação de um ramo a ser cortado, a inspeção para ver se há alguma praga, a limpeza das raízes, adubação, transplante de mudas e troca de vasos acompanha um movimento que medeia entre a razão e a paixão.

Não é diferente com as corridas que pede todo um trabalho de concentração, mas, jamais deixa de ser uma brincadeira séria.

Minha esposa divide comigo os cuidados com o nosso jardim e hoje, em especial, passamos quase o dia inteiro cuidando dele. E, ao final do dia, jantamos uma panqueca de ora pronobis nutritiva e deliciosa, para uma noite chuvosa.

13/01/23 (sexto dia) - 10km leve

Às vezes, mudar os caminhos pode ser uma solução.´

E isto eu posso aplicar em muitos momentos da minha vida, desde que decidi, nos meus 20 e poucos anos pela minha profissão, assim como, ainda na adolescência, pela minha opção político-ideológica e espiritual.

Também, a decisão de largar o sedentarismo e voltar a correr depois dos 65, a fim de acompanhar o pique do meu filho, de 4 anos de idade.

Hoje foram aqueles cachorros que tentaram me morder no começo da semana. Lembra?! 

Então... já na no final da orla, chegando aos 5 m,  contornando na rua Abílio Teixeira de Aguiar, na praia do Cardo, olhei o ponto onde havia sido atacado pelos amigos nervosos. Pelo horário, o encontro seria inevitável...

Nem pensei duas vezes para seguir em frente, subindo aquele que seria o maior aclive da semana, de 11 m, pra dar a volta pela rua de trás. Assim, não só evitaria o confronto como, também, garantiria o trajeto ideal, voltando pela rua do canal, fugindo do movimento e do trânsito da hora.

E, não foi diferente: ao completar o contorno, já avistando a praia, olhei à esquerda e os cachorros estavam exatamente no mesmo ponto, prontinhos reforçar o café da manhã com um naco da minha canela.

Pode ser por oportunidade,  possibilidade, facilidade. Mas, sempre precisei decidir e fazer uma escolha. Nem sempre foram as melhores, claro rs

Mas esta, com certeza, foi muito boa, não só por ter me livrado de umas dentadas na perna, como, também, por ter decidido pelo trajeto ideal pra completar os treinos semanais de 10 km: o forte, da segunda feira e o leve da quarta.

Ter decidido pelo magistério também foi uma excelente decisão, pois esta é uma profissão com quem tenho feito muitas amizades além de que os dias de trabalho, o lugar e os horários, além de flexíveis, são de relativa negociação.

Há mais de 40 anos lecionando, hoje, trabalho bem menos que trabalhava, e bem mais perto de minha residência, quando completei minhas duas primeiras maratonas o que entendo ser um facilitador para que eu tenha como completar outras provas longas, mesmo tendo passado tanto tempo.

A instituição em que trabalho dispõe de parque aquático com atividades facultadas tanto aos estudantes, professores e comunidade. E de lá que tenho recebido estímulo, incentivo e aconselhamento dos professores de educação física, dois deles, inclusive, também são corredores.

Ao terminar as férias, pretendo associar os exercícios para o fortalecimento muscular com as aulas de natação, na piscina do meu trabalho, nos dois dias destinados a estas atividades ou, ainda, alternar entre a natação na terça feira e os exercícios funcionais na quinta. Mas isto, vou decidir ao retornar as aulas no mês que vem.

A minha associação (Appai - Associação Beneficente dos Professores Públicos Ativos e Inativos), disponibiliza entre os seus associados um grande leque de opções de atividades de lazer e, dentre eles, o benefício corridas e caminhadas.

Assim, posso  desfrutar, o ano inteiro do calendário das principais corridas no meu estado, incluindo, as do calendário oficial, apesar das inscrições limitadas aos seus associados e dependentes.

Ao contrário das estatísticas sobre o adoecimento profissional dos meus colegas, entendo que, ao escolher as salas de aula como lugar em que passaria boa parte da minha vida trabalhando foi - e continua sendo! - uma atividade prazerosa que contribui, também, para a minha longevidade, apesar de todo o risco da nossa profissão.


14/01/2023 (sétimo dia) - descanso

Surfando na onda do esforço de ontem, hoje é dia de ficar de boas (rs). Descanso, descanso e descanso, além de muito macarrão pra enfrentar o longão dos 15 km de amanhã.

Compramos uma balança de bioimpedância como estímulo para o nosso propósito de ganhar peso, o que é um baita desafio pra uma magrela e outro magrelo como somos eu e minha esposa.

Fiz uma primeira medição há dois dias e, amanhã, antes de sair de casa faço outra e repito assim que retornar com grandes possibilidades de emagrecimento, claro!

Mas, tendo aproveitado bastante a sexta feira, com direito a churrasquinho vegetariano e uma latinha de cerveja, pra gente e piscina com sorvete e esquibunda (escorrega dentro da piscina) para as crianças foi tão prazeroso quanto termos cuidado do jardim no dia anterior e noites super agradáveis com temperaturas amenas. 

O verão, por aqui, é marcado por fortes tempestades que, apesar de intensas, são rápidas e, logo, volta o sol mais intenso ainda. São as famosas chuvas de verão que antecedem as "águas de março" que fecham a estação, mais de acordo com a famosa canção do que, propriamente, o clima que tem sofrido bastante alterações

Ontem à noite, inclusive, com a temperatura bem agradável, nos demos ao luxo de assistir a um filme que terminou relativamente tarde o que me fez ficar na cama até às 6 hs, o que é muito difícil durante a semana.

Antes de sair pra encontrar com alguns amigos, fiz um macarrão com molho verde (ora pro  nobis), acompanhado de feijão e antes de voltar pra casa, comi um pastel com caldo de cana, pra não passar de três horas sem me alimentar.

Agora, é tomar uma latinha de cerveja, ver alguma coisa na televisão e preparar o jantar pra garantir o que acho que vou perder amanhã.