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terça-feira, 9 de maio de 2023

Entre erros e acertos, o melhor do Rio Antigo.

Eu já havia visto aquelas camisas amarelas com asas pretas em outras corridas, mas foi treinando na orla de Sepetiba, ao responder a um entusiasmado "bom dia!" de um corredor, com a nossa camiseta , me saudando com um sonoro "Appai !" que divulguei o meu canal, o @correndoaos66.

Diminuindo o ritmo pra falar comigo,  me pediu adicioná-lo identificando-se e, pra minha surpresa, falou do projeto Correndo por eles. Até pensei em acompanhá-lo nos seus 18 km que ele me disse que iria fazer, treinando pra Maratona, em junho. Mas eu teria que voltar logo pra casa, pois tinha que preparar o José pro colégio.

A partir daquele dia, tentei por tudo encontrá-lo nas redes sociais. E nada! Como havia feito inscrição numa corrida de apenas 5 km, vinha treinando além disto e, ao abrir inscrição pra uma maior, o Circuito Light Rio Antigo Etapa Largo da Carioca, por já ter baixado meu RP em ambas distâncias, decidi fazer os seus 10 km, o que foi decisivo para o Destino cumprir sua missão. 

Na conversa durante a viagem de carro, de carona com o Paulo, ele me alertou sobre o perigo das curvas daquele circuito, - que, infelizmente e displicentemente eu não havia estudado -  combinamos voltar juntos e nos separamos, pois precisava, antes, encontrar a Renata, que estava com o meu kit, camiseta, número de peito e chip, guardar meus pertences e ir ao sanitário químico. E isto, faltando poucos minutos pra começar a corrida. 

Aguardando a buzina, na estreita rua da Carioca, já na concentração, muitos aplausos pela passagem dos PCDs (pessoas com deficiência), do projeto, sendo conduzidos por outros corredores também uniformizados, na pista lateral largando com antecedência, tiraram lágrimas dos meus olhos, o que, há muito não fazia. 


O que aconteceu foi que, ao confundir parte do percurso, perdi tempo, precisando voltar pra completar os 10 km, já que me confundi com o percurso, tanto pela péssima sinalização, atenção aos check points, quanto pela minha dificuldade entre pensar a estratégia e o circuito sinuoso entre as curvas de antigas ruas de paralelepípedos apertadas do centro histórico,





Mesmo com tudo isto, considerando todos aqueles erros, eu até achei legal o resultado: Fui o 10 da minha categoria (M 64/69) e 591 entre os 4.514 concluintes. Pode ser que precise reavaliar outra vez minha estratégia pra manter o ritmo. Pode ser que esteja perdendo no aumento progressivo da velocidade.



Como havia treinado acelerando de quatro em quatro quilômetros, progressivamente, e descansar no trote por 1 a 1 1/5, sucessivamente, surpreendi-me ao me deparar com o cronômetro à minha frente, na linha de chegada, com as três indicações - 3, 5 e  10 km. E isto, bem antes dos 50 minutos! Claro que não entendi nada e, aflito, pensando numa desclassificação, após cruzar a linha de chegada, imediatamente, pedi orientação ao staff que me indicou retornar até o ponto em que, efetivamente, havia errado o trajeto.

Retornando, perguntando a outros poucos corredores e pedindo orientações, inclusive a um batedor motorizado que passou a me acompanhar durante alguns metros, notei que, realmente, ainda estava na metade da prova e, então, passei a me orientar pelo meu aplicativo mais do que pelos cones que, àquela altura, de pouco ou nada me serviam. E, somente na Av. Presidente Vargas, em direção à igreja da Candelária, é que entendi que logo estaria retornando para, finalmente, completar os 10 km.

Outra vez diante da linha de chegada, faltando pouco para completar a quilometragem total, não duvidei do que fazer: retornei  me orientando pelo meu aplicativo. Finalmente, peguei minha medalha, algumas bananas e água. Claro que o resultado oficial me surprendeu.


Indo ao encontro do Paulo, no lugar combinado, avistei o grupo do "Correndo por eles" com seus triciclos adaptados e uniformes amarelo e preto e o rapaz que me falou do projeto, que tem treinado pra Maratona do Rio para conduzir uma cadeirante.

Era aquilo que eu procurava: uma aplicação prática de todo o meu treinamento, correndo aos 66 anos, me preparando pra outras maratonas.
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Às pressas pra voltar de carona  com o meu parceiro, - que já havia tentado me telefonar - tive que priorizar o sanitário e o lanche, no lugar da costumeira checagem no posto médico e da maravilhosa e tradicional massagem no lounge da Appai, também não tirei fotos como costumo fazer devido aos compromissos de meu colega.

Apresentei-me a um dos organizadores do grupo, falei do meu interesse em conhecer aquele esplêndido trabalho e, ao trocar números de celular, o Rodrigo Krieger, o corredor da orla que eu tanto procurava, voluntário do "Correndo por eles", me apresentou como seu amigo de Sepetiba me recebendo com muito carinho e me incluindo na lista de condutores voluntários para as próximas corridas. Há erros que, por mais absurdos que sejam, acabam promovendo momentos importantes demais para o meu crescimento espiritual. É uma questão de escolhas, sensibilidade e empatia. Ou, então, coisas do Destino que não dá pra explicar.


quinta-feira, 16 de março de 2023

O Circuito das estações outono

A melhor corrida e a necessária reserva de gás 

Conseguir inscrição numa das corridas do calendário pela Appai, virou uma proeza espetacular, ainda mais se tratar de provas acima dos 10km. 

Sabe aquela iguaria quando chega no empório todo mundo compra e depois - que acabou - fala com o amigo?! Tipo goiabada cascão com coco queimado ou pinhão das serras gaúchas.

Foi assim com o WTR Praias Selvagens e com o Circuito das estações outono, nas três distâncias - 5, 10 e 21 km - e, claro que minha preferência sempre foi pelas provas de longa distância.

Mas, se não tem tu, vai tu mesmo e, finalmente,  alguém desistiu e consegui uma de 5 km!

São muitos os motivos que nos fazem desistir e, dentre eles, um é por pura estratégia. É que, eu não deixo de acompanhar  no site, insistentemente,  o vaivém de inscrições encerradas e vagas disponíveis, até aparecer uma prova que atenda às minhas expectativas.

Pode ter sido um aniversário, uma dor de dente,  uma prova de concurso público ou exame de habilitação. Uma festa de aniversário, um casamento ou um batizado.

 O importante é que houve uma única desistência, exatamente na prova que dificilmente eu escolheria, se não fosse a última azeitona. 

Como eu disse antes, nunca me vi disputando uma prova de velocidade e esta tem todas as características. São apenas 5 km, pra quem pretende 21km ou maratonas, como há três anos venho me preparando 10 °/• inspiração 90 °/• suor.

Mas, o copo está meio cheio e dá pra fazer uma limonada: seria minha primeira prova em que poderia me testar num campo nada confortável: a intensidade, além de trazer pro José uma medalha arrojada que nem ela, que vai me ajudar explicar o movimento da terra e do sol durante as estações do ano, além de tentar descobrir quem mordeu nossa medalha. 

Existiriam outras vantagens, claro. Depois de receber a medalha, numa prova curta, há  algumas outras satisfações impagáveis como as filas bem menores pra massagem, pro lanche, pra cerveja, pro sanitário químico.

Acordei, então, lá pelas 6 hs, comi banana e fui cuidar das coisas da casa, enquanto passava o café. Meu filho acordou cedo e tratei de cortar a grama e terminar as urgências do dia, já que teria que sair por volta do meio dia. 

Como minhas filhas não responderam minha mensagem sobre dormir na casa delas, combinei com meu amigo, o Joel, pus a mesa e servi o café pra família. 

Falei com meu filho que iria correr e só iria voltar no outro dia. Apertando minha perna,  como protesto, ele disse que eu iria demorar, mas me pediu mandar áudio e trazer uma surpresa. 

Enquanto Ana, minha esposa, cuidava do almoço, joguei bola com José e, assim que ela serviu o nosso prato, comecei a dar o seu almoço.

Assim que cheguei no ponto, o ônibus pra Santa Cruz estava saindo,  não consegui pegar e - detestavelmente! - tive que entrar numa van. Por sorte, assim que chegou no ponto final, acessei a plataforma de embarque da Supervia e consegui embarcar no trem,  no exato momento em que as portas estavam se fechando.

Não tenho como deixar de pensar como é punk a vida de corredor proletário morador da periferia rs

Da Central do Brasil, peguei o metrô e saltei no Largo da Carioca onde comprei uma "doleira" pexinchando com o camelô. Antes de pegar o meu número de peito e o chip, passei na Tenis Race pra comprar a latinha de leite em pó pra doação condicionada pela inscrição na corrida . 

Estranho como o mercado aproveita qualquer oportunidade pra tirar alguma vantagem, ainda que travestida de boas ações. Afinal, algum corredor sempre se esquece de comprar a latinha rs

Mas, se eu tivesse com dinheiro sobrando bem que teria comprado o boneco do Sonic pro José e umas pulseiras hippies pra Ana Paula da banca de jornal perto do prédio da Appai...

Não consegui encontrar minhas filhas e voltei pra casa do brother onde fui mais uma vez recebido efusivamente por ele e pelos seus pets .

Descansei da viagem e fui fritar uns ovos, pra servir com arroz e frango, só que o gás acabou e o botijão reserva estava vazio. Joel não conseguiu um delivery por telefone  então, precisamos procurar quem  nos servisse. 

Ainda chovia pouco quando saímos pra comprar gás, e precisamos andar um bom pedaço pelo Santo Cristo até achar um vendedor que pudesse levar um botijão pra gente.

O gás sempre acaba nas situações mais inusitadas. Joel precisa bastante de alguém que fique com ele além,  claro  de gás, e foi com esta certeza que pensei nas minhas possibilidades tanto em dar uma forcinha pra ele quanto refleti no significado da corrida do dia seguinte. Seria uma corrida pra usar todo o meu gás, mas com alguma estratégia que, até o momento, não havia definido dentre as possibilidades.

Também pensei no gás do meu amigo, com grandes dificuldades em se levantar, caminhar e fiquei triste e preocupado tanto com as ruas que ele atravessa, o carro que ele ainda dirige e a escada sem corrimão que ele sobe todo dia. E toda noite.

O Parkinson debilita muito e fragiliza bastante o corpo. São visíveis as restrições de movimentos no meu amigo de infância, assim como a pilha de caixas de medicamentos sobre a mesa. Fiquei triste e nem um pouco solidário com a resignação de quem havia sido um excelente jogador de futsal. Quais as estratégias pra enfrentar aquela realidade?

Não podia - nem deveria! - abrir mão do ritual da cerveja em sua boa companhia, nem da comidinha gostosa, ainda mais que, com o botijão cheio, pude terminar de fritar os ovos. 

Conversamos sobre nossa infância, vi um navio ser partido por uma onda gigante na Discovery, o ataque mortal de um crocodilo e o brother foi dormir, cedo como de costume.

Terminei de organizar minhas coisas de corrida,  mandei outro vídeo pro pessoal aqui de casa e também fui descansar. Chovia gostoso e dormi bem.

Mesmo com a possibilidade de chegar no Aterro do Flamengo, caminhando por cerca de meia hora, acordei três horas antes, preparei um lanche, enchi minha garrafa com água e saí bem antes de casa. Fui um dos primeiros corredores a chegar.


Há muito não fazia aquele trajeto a pé, ainda mais, amanhecendo o domingo. As pessoas dormindo enroladas em cobertores habitam grande parte do trajeto das ruas do Riachuelo e Mem de Sá, onde, em vão, tentei localizar o prédio antigo, da metade do século passado, onde, aos catorze anos, tive meu primeiro emprego de carteira assinada, como office-boy.

Seria aquele um dos motivos porque eu desisti da Corrida Rio Antigo? O meu Rio Antigo não comportava tantas mazelas sociais, apesar existirem. Uma vela para Dario, pra mim, sempre foi muito mais que um romance. 

Carioca raiz, o frio, a fome, a falta de abrigo sempre estiveram em meus trajetos pelo meu Rio de Janeiro  nestes meus 66 anos. Corredores de rua temos uma visão privilegiada da realidade. Em cores.

Tanto quanto as políticas públicas, as ações sociais são extremamente necessárias assim  como o envolvimento da sociedade civil no enfrentamento das desigualdades sociais.

Tenho muito orgulho da minha associação, a Appai, pelas doações, campanhas e ações solidárias, mas, sei, também das limitações de tudo isto, pois  o corte de classe social cada vez mais aumenta o fosso entre os pobres os multi milionários.

Lembro de nossa vida nos anos 60 e da morte dos mendigos nas ruas, principalmente no
inverno, quando ainda fazia muito frio naquele outro mundo. E quem tem fome tem pressa. Admiro demais a Appai por sua política social, afinal, se cuidar faz bem conforme uma campanha da associação. Cuidar do outro, melhor ainda.

Professoras e professores do ensino médio, apesar dos péssimos salários e  das condições aviltantes de trabalho, no atual quadro de emprego depois do desastre do último governo, somos  privilegiados assim como todo o staff de apoio que dá suporte aos atletas, organizam, e fazem acontecer:  médicas do SAMU, bombeiras socorristas, massagista, colegas da educação física, profissionais de instalação de som, eletricistas já haviam chegado para produzir o evento. Todos e todas com seus empregos  fazendo, no mínimo, três refeições por dia.

Tratei de ir à tenda medir pressão, batimento cardíaco e e passei protetor solar e repelente a nossa disposição. A auxiliar de enfermagem me falou do programa de avaliação cardio respiratória a que temos direito pela Appai, com equipe multidisciplinar e anotou meu celular pro agendamento.

Deixei meus pertences no guarda volumes. Peguei água e banana,  e fiz contato com uma moça que retira kits e entrega no dia da corrida:  mais uma oportunidade de obter uma renda extra e facilitar a vida de corredores como eu.

O DJ começou a puxar o alongamento e logo já estava num frenético ritmo pro aquecimento e chamada pra concentração. O drone, também acelerado, zunia sobre as nossas cabeças.

Desta vez, saí na frente dos pipocas me juntando ao pelotão Quênia. Como todos os demais também saíram juntos, empurrado pelo enorme volume de corredores velozes.  tive que correr os primeiros metros pela grama. E acho que isto me garantiu o bom resultado.


Já no meu segundo quilômetro havia alcançado a minha melhor marca e, justamente quando consigo convencer minhas pernas que elas tem que correr! No quarto, dei nova havia acelerada até chegar perto do 5 km, quando desacelerei ao cruzar a linha de chegada.


Somente precisei baixar a aceleração no pequeno aclive da chegada, quando estive próximo de alguns raros corredores aparentemente idosos na minha frente. Os pouco que avistei, não foi difícil ultrapassar e isto sem pegar água em nenhum posto. Me senti bem: humorado, hidratado e bem alimentado.

Do alto da passarela,  o fotógrafo gritou Appai e alguns corredores acenaram pra registrar o momento e, logo a seguir, o pórtico de chegada a nossa frente convidava ao sprint final. 

Abri a reserva e  tirei o gás pra chegar bem. Cruzei o faixa, e registrei aquele excelente resultado. Incomparavelmente melhor que a última corrida. Não bastara a minha performance, claro que tudo que antecedeu a prova, toda organização, padrão Appai do "benefício corridas e caminhadas" fizera a diferença.

Entre as diversas baias de controle para entrega das medalhas, escolhi exatamente da  moça  com camisa do Flamengo, e,- claro! - fiz questão de filmar.  Só pra zoar: "olha só quem vai entregar a medalha pra este tricolor!", disse pra ela que me sorriu resignada com a derrota na final do campeonato.

Como de costume, voltei ao posto médico e o enfermeiro me alertou que o resultado daria alterações porque eu acabara de concluir o percurso, ainda sobre o estresse da corrida.

Peguei meus pertences no guarda volumes, fui ao sanitário químico, ao dispersor de água, e retirei meu lanche, vendo se não havia a bolinha do sorteio de brindes dentro da embalagem. Também não havia sido sorteado noutro sorteio. Não costumo ser mesmo...

Sentei na murada da orla da marina pra descansar, fazer uma filmagem daquela bela paisagem pra mostrar a medalha "mordida "pro meu filho, os barcos e um aviãozinho decolando do aeroporto perto, o Santos Dumont.


Sentei na grama, entre muitos corredores pra lanchar e me hidratar. Acho o açaí com granola;  a água de coco e o whey protein ótimos repositores no pós treino.

Costumo esperar um bom tempo pra comer o sanduíche integral com peito de frango milho, trazendo as outras coisinhas, tipo barra de cereal, gel pra viagem de volta.


Antes de ir pra fila da massagem, que se agigantara enquanto eu fazia outras coisas, encontrei meu colega, o Vitor Hugo, e, de novo, como noutras corridas, também encontrei o Jonhy e o Regis. 

Conversamos sobre a corrida e ele me falou que, infelizmente, corridas organizadas em outros lugares como o circuito, por exemplo, não pontuam por idade. Caso contrário, com o meu resultado, eu faria pódium.


A fisioterapeuta, desta vez, além de tocar nos pontos nevrálgicos, me promoveu uma das melhores sessões de massagem depois das corridas. Em alguns momentos, pareceu dar choque em certos pontos, e isto sem nenhum aparelho: sua pressão na sola do pé, panturrilha e coxas me fizerem, como reflexo, literalmente, pular da maca. 


Depois das maravilhosas mãos de Lívia, a massagista, o jovem rapaz de 66 anos, com a medalha no peito, com serotonina de reserva, voltou pra casa. No caminho, ainda comi um pastel antes de pegar o  ônibus.

Revendo o meu treinamento depois daquela corrida, acrescentei a natação na minha planilha, para o fortalecimento muscular e cárdio duas vezes por semana,  na turma de funcionários do meu trabalho,  enquanto mantenho o treino de manutenção de volume preservando o que acumulei e evitando a fadiga. 

O outono, estação intimista, que segue o circuito solar, me convida refletir no quanto o pensar a corrida, durante a corrida, continua sendo uma boa estratégia pra melhorar minha resistência e aumentar o volume.

Registrar minhas percepções sobre uma corrida de velocidade, as estratégias e resultado de treinamentos específicos para não perder volume e intensidade partindo deste meu melhor desempenho me  possibilita mais uma oportunidade de autoconhecimento

E isto não acontece pensando e escutando somente o meu corpo, mas refletindo as relações do meu organismo que se integra,  inicialmente,  à natureza, depois à família,  amigos,   colegas,  enfim, a comunidade, para a valorização das relações, nesta jornada, correndo aos 60. 

Assim como o meu corpo responde à atenção que lhe dou, respondendo aos nossos cuidados e atenção, nosso pé de jaboticaba começou a dar flores e, pela primeira vez, uma pequena fruta.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Adaptações .

Depois das merecidas férias, ao concluir a Meia Maratona de Angra dos Reis, 2023, com todo o ciclo de treinamento de oito semanas, meu cérebro convocou minhas pernas a voltar ao trabalho. E não vi um boa vontade em atender ao comando.

Além da vontade própria, não faltaram argumentos diante da semana prazerosa, descansando, me alimentando e me hidratando bem, brincando com meu filho,  tomando café e vendo televisão com minha esposa, ficando em casa.

Nesta semana, cheguei ao meu melhor peso, ao peso ideal. Melhor: bati minha meta, no esforço de ganhar massa; melhorei o meu humor, as dores na coluna, sobrando, ainda, um leve incômodo no calcanhar, antes de tomar a decisão de quando e como retornar. Férias de corredor é descansar por uma semana depois da prova. 

Diante das opções de corridas de longa distância, a experiência nada positiva com a Meia de Angra, sinalizou que não tenho condições - e só por hoje! -  de completar duas maratonas por ano e, assim, tomei como parâmetro o tempo destinado aos treinos até a prova: no mínimo, oito semanas.

Assim,  decidido por aplicar o meu treinamento para uma maratona no final deste ano, provavelmente, a do Espírito Santo, com a possibilidade de antecipar a de Niterói, se tudo caminhar direitinho, até lá, planejo focar na intensidade. O volume já foi testado e me saí muito bem para a minha idade: 5° lugar no Circuito do Sol, 2023. É preciso refazer minha planilha de treinos, até o final desta semana.

Como consegui a façanha de garantir minha inscrição numa prova curta, de 5 km, o Circuito das Estações Outono, pela Appai, tratei de me preparar pra minha primeira corrida de velocidade em toda a minha vida: sempre fugi destas provas, apesar de, criança, ter gostado muito de correr.

Jogava na conta de que o meu biótipo é para as corridas de longa distância e que não tenho a explosão necessária para velocidade e que eu tinha feito duas maratonas e que gosto mais...

 E calcei os tênis.

Depois desta corrida, pretendo aplicar em treinos de velocidade antes de voltar aos ciclos de preparação para a Maratona. Talvez o VOMax de que o Paulo, colega de trabalho e companheiro de equipe me apresentou com a orientação do Johny. Por hora, apenas procuro manter meu ritmo em torno dos 5,5 pace.

Acho que o desestresse de brincar com meu filho, que corre comigo em volta da casa, me faz botar ele no carrinho de obras e empurrar, brincar de pega pega e pique esconde, jogar bastão e futebol, vale tanto quanto um fartleg,  um treino de tiro (SQN).

E é por ele que preciso selecionar as provas a participar considerando o meu afastamento. Há várias inconvenientes no deslocamento no dia das corridas: o principal é o risco de me atrasar ou pior, perder a prova devido à distância de nossa casa e a precariedade do transporte público aos domingos, principalmente, de madrugada.

O Circuito das estações outono acena com mais este desafio, pois, como há apenas quinze dias fiquei longe de casa por quase uma semana, não é nada bom deixar ele agora.

Neste prova, pelo menos, além de sair direto de casa - apesar de todo o risco - dá pra voltar mais cedo: é uma corrida para 30 minutos!

Talvez por isto as corridas de 5 km, pela Appai, sejam tão procuradas, não querendo dizer que as demais distâncias também não o sejam. Mas, a dificuldade na inscrição já me fez pensar em pagar diretamente aos organizador antecipadamente pra não correr o risco de não conseguir me inscrever.

Troquei o meu fortalecimento muscular da semana por mais um treino de 5 km pra tirar a média ideal da prova de domingo, apesar de ter corrido num horário bem mais agradável do que o da prova. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Diário, 6ª semana 6.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 06/23)

O CIRCUITO DO SOL E O CARNAVAL CARIOCA:   ensaio técnico embaixo de chuva 

Minha planilha de treino para a Meia Maratona de Angra dos Reis, necessitava de  algumas adaptações para eu participar de uma prova no último mesociclo de teinamento: o  Circuito do Sol que, segundo os organizadores, a O2 chegaria ao Rio depois de ter acontecido em São Paulo. A publicidade no site afirmara que aquela corrida de rua "mais popular do Brasil" trata-se de uma prova de recomeço e retomada dos treinos e, claro que me interessei em me inscrever, ainda mais, que era mais uma das atividades da minha associação, a Appai-RJ.



Uma boa oportunidade para  corredoras e corredores com pouca ou nenhuma experiência de corridas de rua - dizia o site. O momento de colocar em prática a resolução de ano novo. "Para os corredores experientes é o start de uma nova temporada." Uma prova destinada a iniciar o ano com saúde e qualidade de vida. 

Nesta edição, houve competição para as distâncias de 5k, 10k e 15k, sendo que aconteceu,  também, uma caminhada de 3k, para quem estivera treinando nas pistas, amplificando o podium e o entusiasmo na entrega da premiação.

Então, o que eu esperava daquela prova a não ser um baita calor típico da orla de Copacabana no verão e alta umidade relativa do ar? Seria melhor,  então, me preparar para o pior, apesar de que a organização resolvera  antecipar a partida para as 7hs30m, certamente, depois de consultar o boletim meteorológico para o próximo domingo.

Nem seria preciso ler as dicas no site para se hidratar bastante, passar protetor solar e correr com trajes leves: a experiência já nos ensinou tudo isto, morando num lugar em que a sensação térmica tem passado dos 50º.

Só que não foi nada disto. Muito pelo contrário: pra felicidade geral, uma frente fria e muita chuva na noite de sábado baixou bastante a temperatura e corremos num clima muito agradável. 

Bem que eu até estava torcendo por uma chuvinha porque o meu rendimento é bem melhor, ainda mais se  os organizadores tivessem mantido o circuito da orla da praia de Copacabana.

Corremos o mesmo circuito da Nigth Run que eu havia participado em 2022, com saída na Praça Cuahtemoque, no Aterro do Flamengo e chegada na Glória o que facilita demais o transporte público.
No máximo, o que eu desejava era manter o meu ritmo e, se pudesse, baixaria um pouco para a Meia de Angra, 15 dias depois. Mas, o acaso colaborou comigo e eu consegui ir bem além da minha pretensão e metas de treinamento. Fui o 5º colocado na minha categoria! Tem menos idosos adultos competindo em longas distâncias ou, realmente, o treinamento começa a dar resultados?! Não dá para generalizar apenas numa prova! Vou continuar, claro!



https://adm.ativo.com/certificados_dos_eventos/ev38538np6701.pdf

Ainda mais que, desta vez, como enorme diferencial qualitativo, pude contar com uma logística benfazeja, pois, como eu consegui adiar alguns compromissos a tempo, saí de casa logo depois do almoço no sábado e fui direto de trem até a Central do Brasil,  no centro do Rio para pegar o meu kit no prédio da Appai logo na saída do metrô do Largo da Carioca.

Morando distante dos lugares de provas, a questão do transporte, principalmente aos domingos, é uma preocupação constante o que me obriga acordar de madrugada, ir ao banheiro, me alimentar devidamente,  para não me atrasar e perder a largada. Depois de horas de viagem, chegando no local, preciso, rapidamente localizar o staff da Appai, o guarda-volumes, o posto médico e me situar no início do meu setor de largada, o verde. 

Excetuando a vontade de ir ao banheiro, a necessidade de aferir pressão e BPM, amarrar os cadarços, checar o chip no número de peito, acionar o app de registro no celular, claro que resta a preocupação de ter esquecido alguma coisa. Mas, o meu esforço em me organizar, até o momento, tem funcionado!

O clima do Carnaval carioca foi o que serviu para distensionar tudo isto, pois, a ocasião sempre me lembrou coisas legais, desde a minha infância em Copacabana e não seria diferente, na semana da festa de Momo. Mais ainda, ao chegar no Castelo, centro do Rio de Janeiro e passar pelos Arcos da Lapa, ver foliões, bate bolas, a barraca do acarajé da Cida,  o Galeto e churrasquinho na esquina da Chile. 

O multiculturalismo e a sinestesia misturam  sensações nesta época integrando outras tantas  como a da turista asiática: afinal com que prazer exótico aquela  moça de olhinhos puxados saboreava, com um enorme sorriso no rosto,  um suculento espetinho de carne. 

Na Appai-RJ,  depois de entregar minha doação - uma lata de leite em pó - e retirar o kit, passei na "Loja do Corredor ", gosto de fazer, muito mais pra ver as novidades que pra comprar, e,  desta vez, conversei com o dono sobre as meias de compressão. 

De lá, novamente peguei o metrô e, saltando na estação Praça Onze,  caminhei até a casa do meu brother, ainda no final da tarde que já anunciava fortes chuvas.

Fui logo recebido com muita alegria, latidos e miados, do Junior e  do Romeu, novidade na família, depois de uns copos de Amstel "suada" e uma porção torresmo quentinho e crocante, daqueles que carioca raiz, de botequim, adoramos.

Colocando as novidades em dia, ouvindo as músicas dos anos '70,  que tocávamos em nossa banda de adolescente, mais o coover da Beyonce - não conhecia o emocionante tributo ao Led Zeppelin! -   eu, Joel e Nair, sua companheira, nem pensei duas vezes quando ela me disse que  havia sido convidada para assistir ao ensaio técnico da Escola de Samba Unidos da Viradouro, naquela noite. 

Oras, o Sambódromo fica a alguns poucos metros atrás da casa do meu amigo e, claro, logo, colocamos nossas capas de chuva,  protegemos celulares e documentos em sacos plásticos e, como Joel não quis sair de casa, saímos, de chinelos, eu  e sua companheira.

Foto do autor. 

Depois do ritual da lavagem da pista pelas baianas, assistimos ao teste de som e de luz e,  em seguida, o desfile das madrinhas de bateria, Sabrina Sato e Erika Januzi e assim que a primeira escola entrou na pista,  caiu um verdadeiro dilúvio. Era Oxum abençoando!, eu disse pra Nair, literalmente, sambando debaixo de uma chuva torrencial enquanto nossos chinelos botavam arrastados pelo aguaceiro.

Não sei e nunca consegui aprender a sambar, mas me diverti bastante embaixo d'água e quando o temporal acalmou um pouquinho, ainda conseguimos tirar algumas fotos daquele show maravilhoso da Unidos de Vila Isabel, com sua efusiva madrinha de bateria, Sabrina Satto, fantasiada de noiva, aliás, muito popular e carinhosa com a plateia que a aplaudiu bastante. 

Outra artista, Erika Januza, madrinha da Unidos do Viradouro, sambando muito, na  pista da Sapucaí molhada, debaixo daquela chuva torrencial, que banhara todo o Rio de Janeiro, também roubou muitos aplausos da plateia encharcada, nas arquibancadas do Sambódromo,  naquela tarde de muito calor, comum no verão carioca.

Como o intervalo entre uma escola e outra estava demorando muito e arriscava cair outro temporal, resolvemos não assistir à Viradouro, exatamente a escola da amiga de Nair, voltamos pra casa, depois de uma ducha, jantei e logo me recolhi para deixar tudo organizadinho, como sempre faço, pra manhã do dia seguinte. 

Acordei bem cedinho, comi um ovo com pão e passei café. Achei muito bom que no ônibus que eu peguei pro Aterro do Flamengo também entrou um rapaz com camiseta e número de peito. Um forte indício que estava no ônibus certo, e a certeza que não erraria o ponto onde saltar: num evento como este, qualquer erro pode ser fatal.



Cheguei meia hora antes e ainda não havia muita gente no local da largada. Fui para o meu setor, o verde, e procurei logo medir minha pressão no posto médico: 14 x 8, e xxx BPM. Tirei algumas fotos,  mandei para as minha filhas e minha equipe e tentei localizar meu colega e parceiro de equipe, o Paulo, mas, não consegui encontrar com ele, apesar de termos nos comunicado onde estávamos: coisas de corrida....

Foto do autor.

Assim que abriram o acesso, tratei logo de ir para a frente, pra evitar o tumulto da largada - o que nunca havia conseguido fazer, até então! - e, o acaso fez com que eu ficasse exatamente ao lado do Johny que me cumprimentou com o mesmo sorriso de sempre, antes de soar a buzina. Uma música eletrônica nos animava e dava o ritmo do aquecimento.

Foto do autor.

Acertei o meu aplicativo e saí no meu passo habitual. Mas, por erro de estratégia ou de empolgação, danei a acelerar mais do que o planejado - e treinado! - e, até o 8º km, já tinha chegado à minha maior velocidade de treino o que me exigiu uma maior atenção, pois, no que planejara, somente depois do 10 km, poderia voltar a acelerar e, mesmo assim, bem aos pouquinhos para guardar o gás para os últimos quilômetros. A ideia era acelerar ao máximo nos últimos 2 km. Mas, não foi bem assim, pois me desgastei muito logo no começo da prova.



Ainda perto do 10º km, notei que um dos meus tênis estava mais folgado e até pensei em continuar sem parar para apertar o cadarço, mas, o bendito resolveu soltar! Saí da pista e,  no acostamento, embaixo das árvores, parei alguns segundos para amarrar, mas, somente daquele pé, o que não achei uma boa escolha, pois, a tendência, se fosse uma prova de maior distância, seria que o outro, também, se soltasse.

Voltei à pista e, tão logo recuperara o meu ritmo, a visão de uma pessoa caída na pista lateral, no retorno,  me impressionou e descuidei do passo:  era um jovem corredor deitado no asfalto, sendo socorrido por policiais e alguns corredores ao seu lado. Como, do ponto  onde eu estava, meu campo de visão me fez desconfiar da semelhança com o Johny, com quem eu mal acabara de falar  pois, até o rabo de cavalo era parecido! Não havia necessidade de parar e nem tinha o que fazer a não ser continuar a prova até o final.

Mas, mesmo sabendo que a pessoa já estava sendo devidamente socorrida, aquela incômoda e preocupante sensação continuou comigo durante um bom tempo até que eu voltasse o foco para "escutar o meu corpo", conselho do meu amigo, alguns minutos atrás.

Claro que não era ele!, soube logo depois que cruzei a faixa de chegada,  e sentei na grama, pra  relaxar da prova e me ajeitar com os brindes e a linda medalha que eu ganhara na chegada: ainda me hidratando e tomando um dos energéticos,  recebi um abraço de surpresa e Johny,  efusivamente,  me cumprimentou. Tamanha alegria de saber que ele fizera uma boa prova, tranquila, sem percalços, nem me lembrei de voltar ao posto para aferir a pressão e a pulsação, o que venho fazendo em toda prova e treinamento de longa distância o que fiz somente dois dias depois da prova. 

Há coisas bem mais importantes na vida e além de ter eu completado mais uma prova, devidamente planejada não perdi o histórico e reforcei laços de amizade.

Não poderia deixar de registrar algumas falhas,  também , na posterior avaliação da prova, solicitada pela Appai: naquele mesmo dia, aconteceu uma outra prova, organizada pela mesma empresa, a O2, também constante no calendário da Appai, o Divas Run, o que fez a associação decidir deslocar todo o staff  para o lugar onde ocorreria aquela prova, Recreio, incluindo - infelizmente!- a tenda de massagem.

Diante dos resultados, entendi ser este o treinamento ideal, ao menos para aquela prova, a Meia de Angra, podendo, inclusive, repetir o meu rendimento, e,  pode ser que os próximos 18 km,  de domingo agora, dia 19, seja o decisivo, para medir o meu pace, pois, nesta prova, tive uma enorme surpresa com os exatos 6:04 aferidos pela empresa organizadora do evento.

Em nenhuma das minhas corridas anteriores havia experimentado uma dieta tão diferenciada, no dia anterior à prova, pois, na casa do meu amigo, me alimentei basicamente de outro tipo de proteína diferente do meu consumo na minha casa: na noite anterior, Nair nos serviu torresmo com cerveja,  e, no dia seguinte, churrasco a tarde toda regado à cerveja. Apesar de não ter o hábito de beber cerveja pilsen - gosto comum dos amigos do Joel - porque acho muito leve, a Império me agradou. Mas reafirmo o meu gosto: prefiro as mais fortes, do tipo duplo malte!

Claro que não foi só a alimentação! Descanso, horas de sono, proximidade do local de largada, relaxamento, rever pessoas queridas, festejar a vida, conversar com as filhas, com o irmão querido, beber e comer com amigos de adolescência, brincar com o gatinho e o cachorrinho do Joel, subir na laje e ver o Cristo atrás do Sambódromo, passar por lugares de tão ternas lembranças e recordações, pensar num futuro alegre e gostoso para o meu filho, correndo ao meu lado, alimentar a esperança de, um dia, motivar outras pessoas, também queridas, a aproveitar o melhor que a vida tem a oferecer, que é tão simples e pede tão pouco...
Foto do autor.

Como eu tinha uma consulta marcada para o dia seguinte, uma segunda feira, o melhor seria não retornar pra casa no domingo mesmo, como eu sempre faço, mas, sim, ficar num lugar mais próximo daquele importante compromisso - a fila do SUS ainda está muito demorada!

Apesar de ter acordado cedo, infelizmente, perdi o compromisso, mas, ainda bem que consegui reagendar para a mesma semana, inclusive, tudo transcorreu bem melhor do que eu imaginara! A isto ainda somo que aproveitei minha estada na casa do Joel para resolver uma importante pendência do nosso carro ali bem pertinho, num posto do Detran. 

Apesar da febre, que até o momento, não quer ceder no meu filho. Apesar da saúde abalada e preocupações diversas de minha esposa, o Universo continua colaborando comigo e com as pessoas que eu amo e tenho que aproveitar este momento pois, tenho a certeza de que tudo é inconstante e não demora o pêndulo voltar para o outro lado. Doenças não dão em pedras. Lesões fazem parte do nosso cotidiano. 

Claro que teria de sacrificar o meu treinamento para a Meia de Angra, assim como é justo e necessário eu, também priorizar outros compromissos, além dos cuidados com a minha família, as outras pessoas que eu amo e aquelas com quem convivo em harmonia: as aulas já se iniciaram e o começo do ano letivo pede outras demandas de trabalho e com os meus colegas. As férias, infelizmente, terminaram...

O Circuito do Sol, em pleno verão, assim como o Circuito das Estações, início do outono, enquanto metáforas do tempo da renovação e da transição,  tentam nos ensinar isto a todas e a todos, principalmente a nós, corredores e corredoras. Volto a reafirmar a mim mesmo que o desafio é a harmonia e tentativa de superação em todas estas situações e eventos, em todas as estações da vida. A  dor é inevitável. O sofrimento é uma opção! 




domingo, 22 de janeiro de 2023

Diário, 3ª semana 3.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 04/23)

O registro mais fiel da mais importante prova de nossas vidas

Corredores de longas distâncias e, no meu caso, em preparação para correr outras maratonas, acabam desenvolvendo uma relação muito íntima e solidária com o Tempo e o Ser. 

Tanto guardo um enorme respeito pela passagem do tempo, como pelos parceiros de treino, já longevos como aquele senhor, caminhando em passos rápidos, com uma camisa do Botafogo, time de futebol do nosso estado, assumindo e estampando sua condição de veterano escrito nas costas. 

É mais do que isto! Eu entendo e, passando por ele, o cumprimento com um sonoro entusiasmado "Bom dia, Mestre!"

O Tempo é um desafiador para os seres humanos. Tanto quanto a compreensão de sua estrita relação com o Ser: é ele quem determina nossos objetivos e limita nossas possibilidades. 

Olhando as minhas fotos ainda rapaz, atleta e corredor, as marcas da idade não ficam apenas na aparência: nossa performance tem uma brusca perda de rendimento e qualidade, para muitos, depois dos 50 anos.

Quando me aposentei, no documento de concessão do meu direito trabalhista, o registro da minha estimativa de vida me impressionou bastante. Mais ainda ao nascer o meu filho, e isto depois dos 60 anos, há muito aposentado, e correndo mais de 100 km por mês, me fez relativizar aquela sinistra estatística. 

Por um milagre biomecânico, meu desempenho nas corridas de rua, aos 65 anos, é  superior ao daquele jovem rapaz quando completou sua primeira maratona em quase 5 horas, quando o limite em provas como a Maratona de Florianópolis delibera para o tempo limite para o ingresso no ranking brasileiro de maratonistas, idades entre os 65 anos e 69, o tempo abaixo de  4h:40m. Minha pretensão  - é treino para isto! - é completar a próxima maratona em 4h30,  no máximo. 

Não reclamo do problema de coluna lombar há mais de 20 anos, tampouco de uma lesão por esforço repetitivo, no ombro direito  e de um pequeno incômodo nos dedos das mãos, além de uns resquícios de varizes na parte anterior do joelho esquerdo. 

Noto que estes sintomas tem me incomodado muito menos ao retornar às corridas introduzindo os exercícios para o fortalecimento muscular. A consulta a um ortopedista esportista não prescreveu o uso de medicação, apenas exercícios de correção postural e alongamentos constantes diariamente. Também não tenho necessitado mais da fisioterapia. 

Claro que, ao final de uma longa corrida, as mãos miraculosas das massagistas do setor vip da organização valem tanto - ou mais! - que a certificação pela conclusão e a tão desejada medalha. Depois da checagem médica e do banheiro químico, meu primeiro olhar busca pelas tendas da Appai, como um viajante, no deserto, anseia por um oásis. Ainda que não queiramos, depois da passagem de tanto tempo, de comemorar tantos aniversários, acordar sem sentir dor seria mais do que um milagre.

Guardamos uma sensível intimidade com o tempo e o controle da nossa velocidade de tal forma que as batidas do meu coração, que em repouso bate lento a 55 BPM, dificilmente passa dos 70 BPM moderados, chegando ao máximo de 90 BPM, já no final de um treino de 10km tendo corrido cerca de 60 minutos.

Para uma corrida acima dos 21km - as meias maratonas - como treino progressivo, para não terminar pior do que comecei, a cada 5 km após os dois ou três primeiros quilômetros, quando já ultrapassei os 8 km/h, diminuo de 10 a 20' chegando, nos últimos 5 km finais aos 6.20/km, como aconteceu no longão que, por um desvio errado já na reta final, acabei ultrapassando a meta, fechando 16,4 km em 1h40m.

Tanto o ritmo da minha respiração, que vai do leve ao moderado chegando ao intenso, me ajuda a precisar o meu pace. E isto, sem consultar o cronômetro!

Os relógios dos corredores são instrumentos de alta precisão cuja indústria vem se esmerando em entregar o máximo de fidelidade na cronometragem, no posicionamento e outras funcionalidades esportivas.

Tudo para garantir o exato registro do desempenho, das conquistas dos atletas profissionais e amadores, assim como os corredores de rua.

Mas, o registro mais fiel do início e do final da maior e mais importante prova de nossas vidas é o intervalo entre a alegria de um nascimento e a tristeza da morte, para quem desacredita no movimento  e no ciclo de nascimentos e de renascimentos, como pequenas, média e provas de longas distâncias, vividas, em cada oportunidade, de maneira mais intensa.

Sou o irmão caçula de uma família com apenas um irmão dos meus outros dois, já falecidos, assim como nossa mãe e nosso pai. Ou seja, sobramos apenas nós dois dos Roitberg daquela geração, afora os outros filhos que nosso pai teve em segundas núpcias. 

A morte de minha irmã, Marinaila, há um ano, não só nos encheu de tristeza como me proporcionou uma experiência até então não vivenciada em toda a minha vida. Como ela faleceu no hospital, vitimada por um câncer fatal, seu corpo foi removido para o necrotério e alguém da família precisaria fazer o reconhecimento do corpo.

Acompanhei sua filha - e minha afilhada - naquela prova definitiva da face mais grotesca da morte, que transcende as certezas e incertezas sobre a efemeridade das coisas, de tudo

Leio no meu livro de cabeceira "Correr: o exercício, a cidade e o desafio da maratona", o que o Doutor Drauzio Varella me ensina: 

É tão grande a dificuldade de aceitarmos que a vida pode ser extinta aleatoriamente como a chama de uma vela, que diante dessa eventualidade procuramos razões para atirar na pessoa a culpa pelo fim que lhe foi reservado: "Ah! Mas ele bebia"; "Mas era muito deprimida; "Mas tinha perdido a vontade de viver!". Encontrar justificativa para o desenlace fatal do outro explica o inexplicável e nos deixa com a impressão de que estamos a salvo. (2015, p. 22)

A decrepitude e a perda de traços humanos na face de um defunto e, pior ainda, de uma pessoa tão amada, que viveu intensamente como a minha irmã, a "maninha". Sinto não ser mais chamado de "meu caçula" por aquela pessoa tão solidária, com tamanha vitalidade e energia para viver intensamente.

Olho-me no espelho e, no previsível - e esperado! - julgamento da imagem que se reflete, além das tão características pernas arqueadas e dos meus braços longos, magros, porém musculosos, atesto inequivocamente todas as alterações, visivelmente perceptíveis, em meu corpo como a expressiva perda de massa magra - desafio para a minha nutricionista! - e dos cabelos que já caíram, há muito, assim como, há muito, deixei o saudosismo pelos meus cachos ondulados e do meu extenso rabo de cavalo. 

Olho meu  rosto mais de perto e, ao mesmo tempo que me elogio, atesto os sinais do meu envelhecimento com os "pés de galinha", o "bigode chinês", as rugas na testa e outras marcas de expressão assinaladas pela perda do colágeno, o que não mais garante a sustentação da musculatura facial. Afinal, não foi Newton quem inventou a gravidade. 

No meu tórax, algumas pintas por ter desprezado o uso de cremes e de protetor solar ao longo da vida. Acho os meus peitos bem bonitinhos, de boa musculatura, a despeito dos meus mamilos míopes, que sempre olharam pra fora. Brinco com eles de mexer pra cima e para baixo, o que o meu filho também faz me imitando.

Não considero minha barriga avantajada e, muito pelo contrário, ela estabelece uma boa relação entre a cintura e o abdômen, apesar do cuidado constante com o nível da gordura visceral. Acho que é devido ao pouca consumo de alimentos processados e frituras e excelente hidratação. Vejo meus bíceps e  tríceps bem trabalhados com boa musculatura. Normal entre corredores com quem convivo. 

Corredores de rua e maratonistas tem este algo em comum, de acordo com os pesquisadores da Clínica Média de Medicina do Esporte, de Minas Gerais, Janaína Goston e Larissa Mendes: somos magros, de estatura mediana e pesamos entre 64 e 90 quilos, com IMC entre 19 e 29 e um mínimo de gordura corporal de 9 e máximo de 34. 

No momento, apesar de estar bem quanto ao IMC de 22, e gordura a 19, ainda estou devendo para a balança, pois, até o momento, o máximo que atingi no mês de janeiro foi 63,5, cismando no patamar dos 61,5.

Mas, sei que não me comporto como devia nos aconselhamentos e orientações da minha nutricionista, ainda mais que não sou um atleta profissional e nossa alimentação aqui em casa é de base vegetariana com pouca ingestão de alimentos ricos em gordura e nenhuma de origem animal.

O meu desafio é aumentar o consumo de carboidratos, - de rápida digestão no meu organismo! - legumes, frutas, verduras e driblar uma enorme fome que sinto entre uma refeição e outra, num intervalo de, no máximo, 3 horas, o que supro, quando estou em casa, com bananas, uva passa e folhas de ora pro nobis que tiro da nossa horta orgânica, ou um mix de oleaginosos, quando estou no trabalho. 

Mas é um desafio repor as mais de 700 calorias gastas nos treinos dos 10 km em 1 hora e cerca de 1.500, acima dos 15 km, correndo por 1 h:44 m. Perco, em média, dois quilos ao final destas corridas. Em cada um dos dois treinos semanais para fortalecimento muscular gasto 500 calorias. Felizmente, recupero muito rápido durante os dias seguintes cuidando do adequado consumo alimentar e mantendo a necessária hidratação.

Além do ovo cozido, da espiga de milho, e do pão integral com requeijão feitos aqui em casa, no café da manhã, não deixo de colocar, religiosamente, no prato meu prato - de peão! - na hora do almoço, duas conchas de feijão e 6 colheres de sopa de arroz junto aos demais alimentos no almoço e no jantar acompanhado de uma proteína vegetal que pode ser um ovo, proteína de soja texturizada com shitake, grão de bico, ervilha ou lentilha, servido com legumes e verduras a vontade, temperadas com azeite extra virgem. 

Aos finais de semana, quando não vou na feira comprar pastel com caldo de cana, gosto de fritar uns peixinhos (de horta!) servindo com salada e feijão com arroz. Nosso filho adora! De noite, uma pizza com cerveja na noite de sexta insegura com chave de ouro o fim de semana. 

Além do estrogonofe de legumes e do macarrão integral com molho se azeitonas pretas e temperos aromáticos,  preparados pela minha esposa, a sobremesa de goiabada cascão com coco queimado das Casas Pedro só perde para o picolé da moleka - iguaria local  - ou para a deliciosa e colorida gelatina também preparadas por ela.

Alguns raros corredores, de alta performance, cuja alimentação balanceada, treinamento espartano e estrito acompanhamento de uma equipe multidisciplinar tem, somente na genética, alguma provável explicação pelos excelentes resultados. O perfil dos velocistas, como o genial corredor jamaicano Usain Bolt com os seus 1,96 cm de altura e 86 kg, guarda em sua herança familiar medidas antropométricas ideais o que o fazem o maior recordista nas provas de curta distância, desafiando o mundo dos esportes a repensar o conceito de limites para o ser humano. 

Mas, quando este "antílope" começou a correr, ele comia quase de tudo. Profissionalizando, passou a ter sua alimentação totalmente organizada por uma equipe de nutricionistas. Bolt chegou a comer mais de 1000 nuggets do McDonald,  quando esteve em Pequim, quando ganhou três medalhas nas Olimpíadas de 2008, conforme matéria da Revista Saúde, assinada por Thiago Sievers.

Diz o corredor -

"Quando você começa com um treinador e há um peso que você tem que permanecer, e todos os dias você tem que se pesar e cuidar de sua comida, eu ajustei minha dieta para passar a comer mais vegetais e proteínas. Quando os desejos aparecem, você tem que olhar par o outro lado. Essa é a parte mais difícil." 

Como o velocista passou apenas 10 dias na China, ele comeu, nada mais nada menos do que 100 nuggets por dia!

Para conservar o título do homem mais rápido do mundo, Bolt consome no café da manhã sanduíche ou ovo; no almoço, massa, carne em conserva ou peixe; no lanche, manga, abacaxi e maçãs ao longo do dia e, na janta, bolinhos jamaicanos, vegetais e frango assado, ainda segundo a matéria.

Cardápio que tem rendido excelentes resultados, pois, ao final de uma prova, entre os 60 ou  80 metros, quando o rendimento dos adversários começa a cair, Bolt inicia o seu voo, quase não pisando no chão em cada passada, atingindo cerca de 44 km por hora, numa prova de 100 m, como relata Renata Cabral em sua resenha sobre o corredor, na Revista SIS Saúde.

Nas provas de longa distância, impressiona a performance de queniano Eliud Kipchoge, o queniano vencedor da maratona de Berlim, em 2022. O corredor não só liderou em toda a prova, mas, foi além ao ultrapassar a sua marca, concluindo os 42,192 km em 2h01m09s, resultado que o fez bater seu próprio recorde, a saber, 30 segundos mais rápido que seu desempenho na mesma prova em 2018.

As pernas de corredores de longa distância perseguem um padrão genético: costumam ser mais compridas que a dos velocistas.  Gosto das minhas como são. 

Apenas não me simpatizo com minhas costelas salientes e uma quase incipiente barriguinha de chopp. Minha nutricionista vê isto como um bom sinal da localização da gordura: segundo ela, longe do coração. Tomara que ela esteja certa!

Volto a olhar para baixo,  minhas coxas e batatas das pernas me enchem de orgulho, assim como a higidez da musculatura de toda a parte anterior da coxa. 

Minha bunda magra só tem músculos e isto, junto com o tornozelo, as minhas canelas também grossas, compridas - cheias de marcas de cortes pelos tombos e acidentes -, podem explicar o meu bom  rendimento nas subidas assim como os poucos eventos de cãibras e, até o momento, nenhuma canelite ou alguma lesão grave. Não me lembro da última... E, acho que por estas e outras, sempre dou um pequeno sorriso para aquela imagem, que me responde, agradecendo.

Aí reside uma grande vantagem dos corredores de longa distância: levamos muito mais tempo para denunciar nossa idade! Nossa balança de bioimpedância,  toda semana, me faz um agrado me roubando 10 anos, ao fazer os seus cálculos depois de uma corrida de mais de 10 km.

E, naquela segunda feira, depois do longão do domingo, treinei o  que cismo em chamar de "rejuvenescente", quando, na verdade, trata-se treino regenerativo às segundas feiras. Mas não são faces da mesma moeda?! Então, ao regenerar as células   rejuvenesce.

Coxas musculosas e fortes, pernas tortas e canelas marcadas; corpo magro, maior velocidade. Desvio na coluna e velhice, melhor aproveitamento das transformações em meu organismo e metabolismo acelerado. 

Ou seja: entre perdas e ganhos do jogo da vida, posso levar a final para uma disputa de pênaltis. Até lá, alheio à sorte, conto com minhas qualidades e experiência acumuladas correndo ao lado daquele rapaz que, há 40 anos conquistou sua primeira medalha com seus 30 aninhos. 

Treino pesado, de 10km fortes, também me ajudam nas minhas reflexões, como o de hoje, por exemplo. As primeiras paisagens da praia, logo após o primeiro quilômetro no calçadão - o pior, pra mim! - me levaram a refletir sobre a compensação do meu organismo, acho que a principal está no ritmo lento do meu coração. 

As minhas pisadas deveriam gradualmente se intensificar nos 60  minutos ainda pela frente e, para isto, seria de extrema importância o controle emocional para manter o ritmo da respiração. Consciente e inconsciente em plena harmonia. Um ciclo de respiração completo a cada novo passo do mesmo pé  voltando ao chão.

Como morador e utilitário da ciclovia,  quase diariamente, atesto que as obras de revitalização da praia de Sepetiba pouparam suas longevas árvores, como as amendoeiras,  cujos frutos, derrubados no chão,  sempre  me pedem mais que atenção para não pisar e não escorregar. 

A igrejinha de São Pedro, as árvores com seus enormes troncos, o barquinho guiado pelo jovem pescador, o exímio lançamento da rede que se abre é, lentamente, flutua no ar.

Foto: Márcio Pinto

A morte poética e em câmera lenta, pousa,  delicadamente no espelho dágua. A rede invisível mergulha e cerca o cardume.  A pesca, a brisa e a maresia me levam até o Posto 6, da Copacabana da minha infância. 

Foto: Márcio Pinto

A lei da compensação em tudo reverbera no circuito da orla de Sepetiba. Quando faltam árvores num determinado trecho da praia ou que ainda não crescerem o suficiente para produzir sombra,  em cada casa da praia existe uma com uma boa copa refrescante. 

As duas enormes figueiras, matriarcas veteranas da praia do Recôncavo, antecipam a deliciosa sombra das amendoeiras e dos coqueiros da praia Dona Luiza, logo depois do santuário do Santo Guerreiro e da imagem majestosa de Yemanjá,  - a nova  -abençoando os devotos em seu pedestal de dentro do mar. 

A partir deste ponto é que "ligo o motor"  e acelero, ladeira acima, passando pelo corpo de bombeiros e Iate Clube para curtir aquela deliciosa descida.

Relaxo com os braços soltos e me recupero da rápida e intensa aceleração até reiniciar o trecho da ciclovia, agora, rumo à praia do Cardo. É o trecho em que desenvolvo o máximo de velocidade, nos meus treinos fortes de 10 km, na metade da semana. 

Para compensar, mais uma vez, o furo na planilha de treino, ao trocar os dias da semana, no final do dia, lá pelas 7 hs, como há muito não fazia, resolvi correr os 10 km leves e repeti o mesmo percurso da orla de Sepetiba.

Claro que as impressões seriam totalmente diferentes ao correr de madrugada ou pelo início da manhã: desde as sensações mais sutis, como a brisa da noite e o perfume de alguns corredores passando por mim, até a profusão de vida, entusiasmo e alegria que toma conta das mesas dos quiosques à beira mar.

Crianças brincando, famílias reunidas pescando com varas, casais passeando, um jovem skaetista,  de rabo de cavalo, que passa, rapidamente, por mim e até um violeiro solitário, sentado na calçada, com uma cadeira de rodas ao seu lado, tocando Raul Seixas; rapazes e moças jogando "altinho" se misturam com o delicioso cheiro de peixe frito servido no Pirata's Pub, da Praia do Recôncavo.

À noite, bares, lanchonetes e restaurantes são as melhores opções para quem deseja uma refeição salutar num lugar agradável, como é a noite em Sepetiba. Ainda mais, fazendo o calor que tem feito ultimamente, uma cerveja gelada, - duplo malte ou Heineken - cai muito bem.

As roupas da corredoras associam a sensualidade à leveza e ao conforto necessários aos esportes e isto é um diferencial de quem sai para correr de noite, na beira da praia, infelizmente, com alguns trechos de péssima iluminação.

Nosso bairro não conta com policiamento de espécie alguma. Entretanto, não há registros significativos de assaltos, roubos, ou outros delitos como são comuns em outras praias, principalmente, as da zona sul, o que leva muitas famílias, durante as férias, a aproveitar esta nossa excelente opção de lazer.

Diferente das manhãs e madrugadas, não há barcos navegando e, apenas alguns, atracados, com luzes acesas, assim como cachorros afoitos para morder minhas canelas. 

A quantidade de pessoas correndo, passeando de bicicleta, caminhando, me leva a, prazerosamente, me desviar. E isto, em nada altera o meu ritmo de corrida, pois não estou preocupado com a minha performance. Apenas aproveito aquela deliciosa corrida de noite, entre pessoas que saem de casa para o lazer.

Como evito correr pelas ruas, muito menos onde haja trânsito intenso de automóveis, optando a maior parte do trajeto pelo calçadão da orla, não me exponho tanto aos perigos de atropelamentos - o que não não me isenta de todo o devido cuidado, principalmente, durante as noites, como, correr na contra mão, usar calção ou camiseta vermelha ou amarela.

Ao trocar os dias de preparação,  pensei noutra estratégia para estas duas últimas semanas de treino que foi a de treinar durante as noites e reservar o longão de final de semana para o mesmo horário em que vou correr a Meia de Angra. Assim, relaxo e aproveito melhor o finalzinho das férias, dormindo até um pouco mais tarde durante a semana. Afinal, entre dezembro e janeiro, excetuando a São Silvestre, não há corridas expressivas no calendário anual.

Afinal, tenho corrido apenas cerca de uma hora às quartas e sextas. Na segunda, apenas meia hora. No domingo, cedinho, antes da família acordar, já voltei com o pão. E isto, não me rouba de minhas responsabilidades em casa, tampouco de minha esposa e do nosso filho. E é o que eu tenho para hoje e me basta para ser feliz.

Ainda que  eu mantenha uma relação  íntima e solidária com o Tempo e o Ser e guarde um enorme respeito pela passagem do tempo, sei que um dia irei perder pra Morte, e, claro, farei o máximo pra que ela demore a me alcançar. 

Por mais perfeito que seja o nosso organismo, ele, assim como o melhor tênis do melhor fabricante,  do melhor relógio com GPS, tem o seu limite de uso e, definitivamente, junto ao meu espírito, irei pendurar minha última medalha pela conquista da liberdade definitiva,  cura de  todas as dores do meu corpo e o apagamento de toda a minha consciência de localização no Tempo e no Espaço.





 

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Night Run (1a etapa). Corridas: o prazer pela longevidade (Episódio 02/2022)

Nigth Run (1ª etapa)

Foi assim que decidi por participar, depois de 36 anos longe das corridas de rua, de uma prova de 12 km, a Nigth Run, com o percurso da orla de Botafogo, no Rio de Janeiro, até o Aterro do Flamengo, tendo obtido a 8ª colocação em minha categoria. 




Além de incluir pedaladas na minha planilha de treino, comecei acompanhar o canal do preparador físico, especialista em corridas, Rodrigo Bicudo, criador do programa #boracorrer,  do qual até hoje integro.

Minha alimentação sofreu, claro  sensíveis modificações, na medida que aumentou consideravelmente o meu gasto calórico. No meu cardápio adaptado às minhas necessidades, no café da manhã e lanche da tarde,  busco incluir ovo, batata  e milho cozidos, torrada com pasta de gergilim, café com leite (pingado) com cacau 100%, banana e granola que eu mesmo preparo.

Repito, quando possível, o almoço, aumentando o consumo de proteínas e não rejeito os carboidratos: adoro macarronadas e pão francês, principalmente a casquinha e o miolo. Com manteiga de coco temperada aquela iguaria que sobra do prato de minha companheira fica uma delícia no café da tarde. Ainda mais com a conversa gostosa da sua boa companhia, antes de buscar nosso filho na creche. 

Meu desafio continua sendo o consumo adequado de água e a diminuição do sal, apesar de que não ingerimos fritura, enlatados, alimentos preparados e refrigerante, consumimos poucos doces a não ser irresistiveis bolos da Jéssica, nos finais de semana, a que se juntam as baguete de gergilim com pasta de ricota, preferidos pelo José Vitor.

Correndo regularmente, descansando, sem abrir mão de uma latinha de cerveja pra brindar a vida, às sextas feiras e me alimentando bem, me senti muito confortável pra concluir aquelas duas voltas, do Monumento aos Pracinhas à Glória  mesmo não conseguindo superar a marca do treino.

Mas valeram cada metro daqueles 12 km, nos meus fabulosos 65 anos de idade, concluindo a prova com pressão 12 x 7, aferida pela médica do posto. 

Experiência maravilhosa, e primeira medalha dedicada ao meu filho, que não pode ir pois ainda não havia sido vacinado e da insegurança e os perigos das noites cariocas. Gostei muito do clima, daquela noite estrelada, no mês de maio, de 2022, contagiante e temperatura super agradável.


Organização exemplar: serviço de água, frutas, posto médico, batedores, lounge, guarda volumes e ao longo do percurso, sinalização e policiamento presentes. 

Pais e mães com seus filhos, nos ombros ou em carrinhos empurrados,  correndo com eles; Idosos, casais, jovens animados em equipes vindas de lugares distantes. 

Apesar de  haver  retirado meu kit no dia anterior, na sede da associação da minha categoria profissional,  a Appai, no Centro do Rio, deixei pra colocar o número de peito com o chip, pouco tempo antes da largada.

Um erro por ignorância e atraso na chegada por transporte coletivo: calculei mal o translado contando com a presteza do uber, o que, conforme a lei de Murphy, não teria como funcionar. 

Poderia ter pegado o VLT na saída da Estação Central do Brasil e, apenas caminhado da Glória até o Aterro  local da largada. Mas pensei errado e não consegui pedir um uber a tempo.

Na concentração, música estimulante e muita gente quase colada uas às outras  o que tornava tanto o alinhamento quanto a locomoção inviáveis. Impressionei-me, durante a corrida, com muitos corredores iluminando o trajeto com lanternas presas na testa

Depois daquela noite inesquecível, ainda contei com a recepção na casa de minha primogênita e do meu genro, o que espero retribuir logo. 

Torci pra que, no dia 3 de setembro, já estar correndo ao lado de uma de minhas filhas que também corre, o que ainda não será possível.

Organizando-me e me preparando pra próxima corrida, torço pela vacinação de todas as crianças e que brasileiras e brasileiros, em outubro deste ano, não repitam o mesmo erro e elejamos um presidente devidamente preparado para o cargo seguindo aproveitando intensamente a vida ao lado de quem amamos e nos amam! É o que vale!