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quinta-feira, 16 de março de 2023

O Circuito das estações outono

A melhor corrida e a necessária reserva de gás 

Conseguir inscrição numa das corridas do calendário pela Appai, virou uma proeza espetacular, ainda mais se tratar de provas acima dos 10km. 

Sabe aquela iguaria quando chega no empório todo mundo compra e depois - que acabou - fala com o amigo?! Tipo goiabada cascão com coco queimado ou pinhão das serras gaúchas.

Foi assim com o WTR Praias Selvagens e com o Circuito das estações outono, nas três distâncias - 5, 10 e 21 km - e, claro que minha preferência sempre foi pelas provas de longa distância.

Mas, se não tem tu, vai tu mesmo e, finalmente,  alguém desistiu e consegui uma de 5 km!

São muitos os motivos que nos fazem desistir e, dentre eles, um é por pura estratégia. É que, eu não deixo de acompanhar  no site, insistentemente,  o vaivém de inscrições encerradas e vagas disponíveis, até aparecer uma prova que atenda às minhas expectativas.

Pode ter sido um aniversário, uma dor de dente,  uma prova de concurso público ou exame de habilitação. Uma festa de aniversário, um casamento ou um batizado.

 O importante é que houve uma única desistência, exatamente na prova que dificilmente eu escolheria, se não fosse a última azeitona. 

Como eu disse antes, nunca me vi disputando uma prova de velocidade e esta tem todas as características. São apenas 5 km, pra quem pretende 21km ou maratonas, como há três anos venho me preparando 10 °/• inspiração 90 °/• suor.

Mas, o copo está meio cheio e dá pra fazer uma limonada: seria minha primeira prova em que poderia me testar num campo nada confortável: a intensidade, além de trazer pro José uma medalha arrojada que nem ela, que vai me ajudar explicar o movimento da terra e do sol durante as estações do ano, além de tentar descobrir quem mordeu nossa medalha. 

Existiriam outras vantagens, claro. Depois de receber a medalha, numa prova curta, há  algumas outras satisfações impagáveis como as filas bem menores pra massagem, pro lanche, pra cerveja, pro sanitário químico.

Acordei, então, lá pelas 6 hs, comi banana e fui cuidar das coisas da casa, enquanto passava o café. Meu filho acordou cedo e tratei de cortar a grama e terminar as urgências do dia, já que teria que sair por volta do meio dia. 

Como minhas filhas não responderam minha mensagem sobre dormir na casa delas, combinei com meu amigo, o Joel, pus a mesa e servi o café pra família. 

Falei com meu filho que iria correr e só iria voltar no outro dia. Apertando minha perna,  como protesto, ele disse que eu iria demorar, mas me pediu mandar áudio e trazer uma surpresa. 

Enquanto Ana, minha esposa, cuidava do almoço, joguei bola com José e, assim que ela serviu o nosso prato, comecei a dar o seu almoço.

Assim que cheguei no ponto, o ônibus pra Santa Cruz estava saindo,  não consegui pegar e - detestavelmente! - tive que entrar numa van. Por sorte, assim que chegou no ponto final, acessei a plataforma de embarque da Supervia e consegui embarcar no trem,  no exato momento em que as portas estavam se fechando.

Não tenho como deixar de pensar como é punk a vida de corredor proletário morador da periferia rs

Da Central do Brasil, peguei o metrô e saltei no Largo da Carioca onde comprei uma "doleira" pexinchando com o camelô. Antes de pegar o meu número de peito e o chip, passei na Tenis Race pra comprar a latinha de leite em pó pra doação condicionada pela inscrição na corrida . 

Estranho como o mercado aproveita qualquer oportunidade pra tirar alguma vantagem, ainda que travestida de boas ações. Afinal, algum corredor sempre se esquece de comprar a latinha rs

Mas, se eu tivesse com dinheiro sobrando bem que teria comprado o boneco do Sonic pro José e umas pulseiras hippies pra Ana Paula da banca de jornal perto do prédio da Appai...

Não consegui encontrar minhas filhas e voltei pra casa do brother onde fui mais uma vez recebido efusivamente por ele e pelos seus pets .

Descansei da viagem e fui fritar uns ovos, pra servir com arroz e frango, só que o gás acabou e o botijão reserva estava vazio. Joel não conseguiu um delivery por telefone  então, precisamos procurar quem  nos servisse. 

Ainda chovia pouco quando saímos pra comprar gás, e precisamos andar um bom pedaço pelo Santo Cristo até achar um vendedor que pudesse levar um botijão pra gente.

O gás sempre acaba nas situações mais inusitadas. Joel precisa bastante de alguém que fique com ele além,  claro  de gás, e foi com esta certeza que pensei nas minhas possibilidades tanto em dar uma forcinha pra ele quanto refleti no significado da corrida do dia seguinte. Seria uma corrida pra usar todo o meu gás, mas com alguma estratégia que, até o momento, não havia definido dentre as possibilidades.

Também pensei no gás do meu amigo, com grandes dificuldades em se levantar, caminhar e fiquei triste e preocupado tanto com as ruas que ele atravessa, o carro que ele ainda dirige e a escada sem corrimão que ele sobe todo dia. E toda noite.

O Parkinson debilita muito e fragiliza bastante o corpo. São visíveis as restrições de movimentos no meu amigo de infância, assim como a pilha de caixas de medicamentos sobre a mesa. Fiquei triste e nem um pouco solidário com a resignação de quem havia sido um excelente jogador de futsal. Quais as estratégias pra enfrentar aquela realidade?

Não podia - nem deveria! - abrir mão do ritual da cerveja em sua boa companhia, nem da comidinha gostosa, ainda mais que, com o botijão cheio, pude terminar de fritar os ovos. 

Conversamos sobre nossa infância, vi um navio ser partido por uma onda gigante na Discovery, o ataque mortal de um crocodilo e o brother foi dormir, cedo como de costume.

Terminei de organizar minhas coisas de corrida,  mandei outro vídeo pro pessoal aqui de casa e também fui descansar. Chovia gostoso e dormi bem.

Mesmo com a possibilidade de chegar no Aterro do Flamengo, caminhando por cerca de meia hora, acordei três horas antes, preparei um lanche, enchi minha garrafa com água e saí bem antes de casa. Fui um dos primeiros corredores a chegar.


Há muito não fazia aquele trajeto a pé, ainda mais, amanhecendo o domingo. As pessoas dormindo enroladas em cobertores habitam grande parte do trajeto das ruas do Riachuelo e Mem de Sá, onde, em vão, tentei localizar o prédio antigo, da metade do século passado, onde, aos catorze anos, tive meu primeiro emprego de carteira assinada, como office-boy.

Seria aquele um dos motivos porque eu desisti da Corrida Rio Antigo? O meu Rio Antigo não comportava tantas mazelas sociais, apesar existirem. Uma vela para Dario, pra mim, sempre foi muito mais que um romance. 

Carioca raiz, o frio, a fome, a falta de abrigo sempre estiveram em meus trajetos pelo meu Rio de Janeiro  nestes meus 66 anos. Corredores de rua temos uma visão privilegiada da realidade. Em cores.

Tanto quanto as políticas públicas, as ações sociais são extremamente necessárias assim  como o envolvimento da sociedade civil no enfrentamento das desigualdades sociais.

Tenho muito orgulho da minha associação, a Appai, pelas doações, campanhas e ações solidárias, mas, sei, também das limitações de tudo isto, pois  o corte de classe social cada vez mais aumenta o fosso entre os pobres os multi milionários.

Lembro de nossa vida nos anos 60 e da morte dos mendigos nas ruas, principalmente no
inverno, quando ainda fazia muito frio naquele outro mundo. E quem tem fome tem pressa. Admiro demais a Appai por sua política social, afinal, se cuidar faz bem conforme uma campanha da associação. Cuidar do outro, melhor ainda.

Professoras e professores do ensino médio, apesar dos péssimos salários e  das condições aviltantes de trabalho, no atual quadro de emprego depois do desastre do último governo, somos  privilegiados assim como todo o staff de apoio que dá suporte aos atletas, organizam, e fazem acontecer:  médicas do SAMU, bombeiras socorristas, massagista, colegas da educação física, profissionais de instalação de som, eletricistas já haviam chegado para produzir o evento. Todos e todas com seus empregos  fazendo, no mínimo, três refeições por dia.

Tratei de ir à tenda medir pressão, batimento cardíaco e e passei protetor solar e repelente a nossa disposição. A auxiliar de enfermagem me falou do programa de avaliação cardio respiratória a que temos direito pela Appai, com equipe multidisciplinar e anotou meu celular pro agendamento.

Deixei meus pertences no guarda volumes. Peguei água e banana,  e fiz contato com uma moça que retira kits e entrega no dia da corrida:  mais uma oportunidade de obter uma renda extra e facilitar a vida de corredores como eu.

O DJ começou a puxar o alongamento e logo já estava num frenético ritmo pro aquecimento e chamada pra concentração. O drone, também acelerado, zunia sobre as nossas cabeças.

Desta vez, saí na frente dos pipocas me juntando ao pelotão Quênia. Como todos os demais também saíram juntos, empurrado pelo enorme volume de corredores velozes.  tive que correr os primeiros metros pela grama. E acho que isto me garantiu o bom resultado.


Já no meu segundo quilômetro havia alcançado a minha melhor marca e, justamente quando consigo convencer minhas pernas que elas tem que correr! No quarto, dei nova havia acelerada até chegar perto do 5 km, quando desacelerei ao cruzar a linha de chegada.


Somente precisei baixar a aceleração no pequeno aclive da chegada, quando estive próximo de alguns raros corredores aparentemente idosos na minha frente. Os pouco que avistei, não foi difícil ultrapassar e isto sem pegar água em nenhum posto. Me senti bem: humorado, hidratado e bem alimentado.

Do alto da passarela,  o fotógrafo gritou Appai e alguns corredores acenaram pra registrar o momento e, logo a seguir, o pórtico de chegada a nossa frente convidava ao sprint final. 

Abri a reserva e  tirei o gás pra chegar bem. Cruzei o faixa, e registrei aquele excelente resultado. Incomparavelmente melhor que a última corrida. Não bastara a minha performance, claro que tudo que antecedeu a prova, toda organização, padrão Appai do "benefício corridas e caminhadas" fizera a diferença.

Entre as diversas baias de controle para entrega das medalhas, escolhi exatamente da  moça  com camisa do Flamengo, e,- claro! - fiz questão de filmar.  Só pra zoar: "olha só quem vai entregar a medalha pra este tricolor!", disse pra ela que me sorriu resignada com a derrota na final do campeonato.

Como de costume, voltei ao posto médico e o enfermeiro me alertou que o resultado daria alterações porque eu acabara de concluir o percurso, ainda sobre o estresse da corrida.

Peguei meus pertences no guarda volumes, fui ao sanitário químico, ao dispersor de água, e retirei meu lanche, vendo se não havia a bolinha do sorteio de brindes dentro da embalagem. Também não havia sido sorteado noutro sorteio. Não costumo ser mesmo...

Sentei na murada da orla da marina pra descansar, fazer uma filmagem daquela bela paisagem pra mostrar a medalha "mordida "pro meu filho, os barcos e um aviãozinho decolando do aeroporto perto, o Santos Dumont.


Sentei na grama, entre muitos corredores pra lanchar e me hidratar. Acho o açaí com granola;  a água de coco e o whey protein ótimos repositores no pós treino.

Costumo esperar um bom tempo pra comer o sanduíche integral com peito de frango milho, trazendo as outras coisinhas, tipo barra de cereal, gel pra viagem de volta.


Antes de ir pra fila da massagem, que se agigantara enquanto eu fazia outras coisas, encontrei meu colega, o Vitor Hugo, e, de novo, como noutras corridas, também encontrei o Jonhy e o Regis. 

Conversamos sobre a corrida e ele me falou que, infelizmente, corridas organizadas em outros lugares como o circuito, por exemplo, não pontuam por idade. Caso contrário, com o meu resultado, eu faria pódium.


A fisioterapeuta, desta vez, além de tocar nos pontos nevrálgicos, me promoveu uma das melhores sessões de massagem depois das corridas. Em alguns momentos, pareceu dar choque em certos pontos, e isto sem nenhum aparelho: sua pressão na sola do pé, panturrilha e coxas me fizerem, como reflexo, literalmente, pular da maca. 


Depois das maravilhosas mãos de Lívia, a massagista, o jovem rapaz de 66 anos, com a medalha no peito, com serotonina de reserva, voltou pra casa. No caminho, ainda comi um pastel antes de pegar o  ônibus.

Revendo o meu treinamento depois daquela corrida, acrescentei a natação na minha planilha, para o fortalecimento muscular e cárdio duas vezes por semana,  na turma de funcionários do meu trabalho,  enquanto mantenho o treino de manutenção de volume preservando o que acumulei e evitando a fadiga. 

O outono, estação intimista, que segue o circuito solar, me convida refletir no quanto o pensar a corrida, durante a corrida, continua sendo uma boa estratégia pra melhorar minha resistência e aumentar o volume.

Registrar minhas percepções sobre uma corrida de velocidade, as estratégias e resultado de treinamentos específicos para não perder volume e intensidade partindo deste meu melhor desempenho me  possibilita mais uma oportunidade de autoconhecimento

E isto não acontece pensando e escutando somente o meu corpo, mas refletindo as relações do meu organismo que se integra,  inicialmente,  à natureza, depois à família,  amigos,   colegas,  enfim, a comunidade, para a valorização das relações, nesta jornada, correndo aos 60. 

Assim como o meu corpo responde à atenção que lhe dou, respondendo aos nossos cuidados e atenção, nosso pé de jaboticaba começou a dar flores e, pela primeira vez, uma pequena fruta.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Diário, 6ª semana 6.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 06/23)

O CIRCUITO DO SOL E O CARNAVAL CARIOCA:   ensaio técnico embaixo de chuva 

Minha planilha de treino para a Meia Maratona de Angra dos Reis, necessitava de  algumas adaptações para eu participar de uma prova no último mesociclo de teinamento: o  Circuito do Sol que, segundo os organizadores, a O2 chegaria ao Rio depois de ter acontecido em São Paulo. A publicidade no site afirmara que aquela corrida de rua "mais popular do Brasil" trata-se de uma prova de recomeço e retomada dos treinos e, claro que me interessei em me inscrever, ainda mais, que era mais uma das atividades da minha associação, a Appai-RJ.



Uma boa oportunidade para  corredoras e corredores com pouca ou nenhuma experiência de corridas de rua - dizia o site. O momento de colocar em prática a resolução de ano novo. "Para os corredores experientes é o start de uma nova temporada." Uma prova destinada a iniciar o ano com saúde e qualidade de vida. 

Nesta edição, houve competição para as distâncias de 5k, 10k e 15k, sendo que aconteceu,  também, uma caminhada de 3k, para quem estivera treinando nas pistas, amplificando o podium e o entusiasmo na entrega da premiação.

Então, o que eu esperava daquela prova a não ser um baita calor típico da orla de Copacabana no verão e alta umidade relativa do ar? Seria melhor,  então, me preparar para o pior, apesar de que a organização resolvera  antecipar a partida para as 7hs30m, certamente, depois de consultar o boletim meteorológico para o próximo domingo.

Nem seria preciso ler as dicas no site para se hidratar bastante, passar protetor solar e correr com trajes leves: a experiência já nos ensinou tudo isto, morando num lugar em que a sensação térmica tem passado dos 50º.

Só que não foi nada disto. Muito pelo contrário: pra felicidade geral, uma frente fria e muita chuva na noite de sábado baixou bastante a temperatura e corremos num clima muito agradável. 

Bem que eu até estava torcendo por uma chuvinha porque o meu rendimento é bem melhor, ainda mais se  os organizadores tivessem mantido o circuito da orla da praia de Copacabana.

Corremos o mesmo circuito da Nigth Run que eu havia participado em 2022, com saída na Praça Cuahtemoque, no Aterro do Flamengo e chegada na Glória o que facilita demais o transporte público.
No máximo, o que eu desejava era manter o meu ritmo e, se pudesse, baixaria um pouco para a Meia de Angra, 15 dias depois. Mas, o acaso colaborou comigo e eu consegui ir bem além da minha pretensão e metas de treinamento. Fui o 5º colocado na minha categoria! Tem menos idosos adultos competindo em longas distâncias ou, realmente, o treinamento começa a dar resultados?! Não dá para generalizar apenas numa prova! Vou continuar, claro!



https://adm.ativo.com/certificados_dos_eventos/ev38538np6701.pdf

Ainda mais que, desta vez, como enorme diferencial qualitativo, pude contar com uma logística benfazeja, pois, como eu consegui adiar alguns compromissos a tempo, saí de casa logo depois do almoço no sábado e fui direto de trem até a Central do Brasil,  no centro do Rio para pegar o meu kit no prédio da Appai logo na saída do metrô do Largo da Carioca.

Morando distante dos lugares de provas, a questão do transporte, principalmente aos domingos, é uma preocupação constante o que me obriga acordar de madrugada, ir ao banheiro, me alimentar devidamente,  para não me atrasar e perder a largada. Depois de horas de viagem, chegando no local, preciso, rapidamente localizar o staff da Appai, o guarda-volumes, o posto médico e me situar no início do meu setor de largada, o verde. 

Excetuando a vontade de ir ao banheiro, a necessidade de aferir pressão e BPM, amarrar os cadarços, checar o chip no número de peito, acionar o app de registro no celular, claro que resta a preocupação de ter esquecido alguma coisa. Mas, o meu esforço em me organizar, até o momento, tem funcionado!

O clima do Carnaval carioca foi o que serviu para distensionar tudo isto, pois, a ocasião sempre me lembrou coisas legais, desde a minha infância em Copacabana e não seria diferente, na semana da festa de Momo. Mais ainda, ao chegar no Castelo, centro do Rio de Janeiro e passar pelos Arcos da Lapa, ver foliões, bate bolas, a barraca do acarajé da Cida,  o Galeto e churrasquinho na esquina da Chile. 

O multiculturalismo e a sinestesia misturam  sensações nesta época integrando outras tantas  como a da turista asiática: afinal com que prazer exótico aquela  moça de olhinhos puxados saboreava, com um enorme sorriso no rosto,  um suculento espetinho de carne. 

Na Appai-RJ,  depois de entregar minha doação - uma lata de leite em pó - e retirar o kit, passei na "Loja do Corredor ", gosto de fazer, muito mais pra ver as novidades que pra comprar, e,  desta vez, conversei com o dono sobre as meias de compressão. 

De lá, novamente peguei o metrô e, saltando na estação Praça Onze,  caminhei até a casa do meu brother, ainda no final da tarde que já anunciava fortes chuvas.

Fui logo recebido com muita alegria, latidos e miados, do Junior e  do Romeu, novidade na família, depois de uns copos de Amstel "suada" e uma porção torresmo quentinho e crocante, daqueles que carioca raiz, de botequim, adoramos.

Colocando as novidades em dia, ouvindo as músicas dos anos '70,  que tocávamos em nossa banda de adolescente, mais o coover da Beyonce - não conhecia o emocionante tributo ao Led Zeppelin! -   eu, Joel e Nair, sua companheira, nem pensei duas vezes quando ela me disse que  havia sido convidada para assistir ao ensaio técnico da Escola de Samba Unidos da Viradouro, naquela noite. 

Oras, o Sambódromo fica a alguns poucos metros atrás da casa do meu amigo e, claro, logo, colocamos nossas capas de chuva,  protegemos celulares e documentos em sacos plásticos e, como Joel não quis sair de casa, saímos, de chinelos, eu  e sua companheira.

Foto do autor. 

Depois do ritual da lavagem da pista pelas baianas, assistimos ao teste de som e de luz e,  em seguida, o desfile das madrinhas de bateria, Sabrina Sato e Erika Januzi e assim que a primeira escola entrou na pista,  caiu um verdadeiro dilúvio. Era Oxum abençoando!, eu disse pra Nair, literalmente, sambando debaixo de uma chuva torrencial enquanto nossos chinelos botavam arrastados pelo aguaceiro.

Não sei e nunca consegui aprender a sambar, mas me diverti bastante embaixo d'água e quando o temporal acalmou um pouquinho, ainda conseguimos tirar algumas fotos daquele show maravilhoso da Unidos de Vila Isabel, com sua efusiva madrinha de bateria, Sabrina Satto, fantasiada de noiva, aliás, muito popular e carinhosa com a plateia que a aplaudiu bastante. 

Outra artista, Erika Januza, madrinha da Unidos do Viradouro, sambando muito, na  pista da Sapucaí molhada, debaixo daquela chuva torrencial, que banhara todo o Rio de Janeiro, também roubou muitos aplausos da plateia encharcada, nas arquibancadas do Sambódromo,  naquela tarde de muito calor, comum no verão carioca.

Como o intervalo entre uma escola e outra estava demorando muito e arriscava cair outro temporal, resolvemos não assistir à Viradouro, exatamente a escola da amiga de Nair, voltamos pra casa, depois de uma ducha, jantei e logo me recolhi para deixar tudo organizadinho, como sempre faço, pra manhã do dia seguinte. 

Acordei bem cedinho, comi um ovo com pão e passei café. Achei muito bom que no ônibus que eu peguei pro Aterro do Flamengo também entrou um rapaz com camiseta e número de peito. Um forte indício que estava no ônibus certo, e a certeza que não erraria o ponto onde saltar: num evento como este, qualquer erro pode ser fatal.



Cheguei meia hora antes e ainda não havia muita gente no local da largada. Fui para o meu setor, o verde, e procurei logo medir minha pressão no posto médico: 14 x 8, e xxx BPM. Tirei algumas fotos,  mandei para as minha filhas e minha equipe e tentei localizar meu colega e parceiro de equipe, o Paulo, mas, não consegui encontrar com ele, apesar de termos nos comunicado onde estávamos: coisas de corrida....

Foto do autor.

Assim que abriram o acesso, tratei logo de ir para a frente, pra evitar o tumulto da largada - o que nunca havia conseguido fazer, até então! - e, o acaso fez com que eu ficasse exatamente ao lado do Johny que me cumprimentou com o mesmo sorriso de sempre, antes de soar a buzina. Uma música eletrônica nos animava e dava o ritmo do aquecimento.

Foto do autor.

Acertei o meu aplicativo e saí no meu passo habitual. Mas, por erro de estratégia ou de empolgação, danei a acelerar mais do que o planejado - e treinado! - e, até o 8º km, já tinha chegado à minha maior velocidade de treino o que me exigiu uma maior atenção, pois, no que planejara, somente depois do 10 km, poderia voltar a acelerar e, mesmo assim, bem aos pouquinhos para guardar o gás para os últimos quilômetros. A ideia era acelerar ao máximo nos últimos 2 km. Mas, não foi bem assim, pois me desgastei muito logo no começo da prova.



Ainda perto do 10º km, notei que um dos meus tênis estava mais folgado e até pensei em continuar sem parar para apertar o cadarço, mas, o bendito resolveu soltar! Saí da pista e,  no acostamento, embaixo das árvores, parei alguns segundos para amarrar, mas, somente daquele pé, o que não achei uma boa escolha, pois, a tendência, se fosse uma prova de maior distância, seria que o outro, também, se soltasse.

Voltei à pista e, tão logo recuperara o meu ritmo, a visão de uma pessoa caída na pista lateral, no retorno,  me impressionou e descuidei do passo:  era um jovem corredor deitado no asfalto, sendo socorrido por policiais e alguns corredores ao seu lado. Como, do ponto  onde eu estava, meu campo de visão me fez desconfiar da semelhança com o Johny, com quem eu mal acabara de falar  pois, até o rabo de cavalo era parecido! Não havia necessidade de parar e nem tinha o que fazer a não ser continuar a prova até o final.

Mas, mesmo sabendo que a pessoa já estava sendo devidamente socorrida, aquela incômoda e preocupante sensação continuou comigo durante um bom tempo até que eu voltasse o foco para "escutar o meu corpo", conselho do meu amigo, alguns minutos atrás.

Claro que não era ele!, soube logo depois que cruzei a faixa de chegada,  e sentei na grama, pra  relaxar da prova e me ajeitar com os brindes e a linda medalha que eu ganhara na chegada: ainda me hidratando e tomando um dos energéticos,  recebi um abraço de surpresa e Johny,  efusivamente,  me cumprimentou. Tamanha alegria de saber que ele fizera uma boa prova, tranquila, sem percalços, nem me lembrei de voltar ao posto para aferir a pressão e a pulsação, o que venho fazendo em toda prova e treinamento de longa distância o que fiz somente dois dias depois da prova. 

Há coisas bem mais importantes na vida e além de ter eu completado mais uma prova, devidamente planejada não perdi o histórico e reforcei laços de amizade.

Não poderia deixar de registrar algumas falhas,  também , na posterior avaliação da prova, solicitada pela Appai: naquele mesmo dia, aconteceu uma outra prova, organizada pela mesma empresa, a O2, também constante no calendário da Appai, o Divas Run, o que fez a associação decidir deslocar todo o staff  para o lugar onde ocorreria aquela prova, Recreio, incluindo - infelizmente!- a tenda de massagem.

Diante dos resultados, entendi ser este o treinamento ideal, ao menos para aquela prova, a Meia de Angra, podendo, inclusive, repetir o meu rendimento, e,  pode ser que os próximos 18 km,  de domingo agora, dia 19, seja o decisivo, para medir o meu pace, pois, nesta prova, tive uma enorme surpresa com os exatos 6:04 aferidos pela empresa organizadora do evento.

Em nenhuma das minhas corridas anteriores havia experimentado uma dieta tão diferenciada, no dia anterior à prova, pois, na casa do meu amigo, me alimentei basicamente de outro tipo de proteína diferente do meu consumo na minha casa: na noite anterior, Nair nos serviu torresmo com cerveja,  e, no dia seguinte, churrasco a tarde toda regado à cerveja. Apesar de não ter o hábito de beber cerveja pilsen - gosto comum dos amigos do Joel - porque acho muito leve, a Império me agradou. Mas reafirmo o meu gosto: prefiro as mais fortes, do tipo duplo malte!

Claro que não foi só a alimentação! Descanso, horas de sono, proximidade do local de largada, relaxamento, rever pessoas queridas, festejar a vida, conversar com as filhas, com o irmão querido, beber e comer com amigos de adolescência, brincar com o gatinho e o cachorrinho do Joel, subir na laje e ver o Cristo atrás do Sambódromo, passar por lugares de tão ternas lembranças e recordações, pensar num futuro alegre e gostoso para o meu filho, correndo ao meu lado, alimentar a esperança de, um dia, motivar outras pessoas, também queridas, a aproveitar o melhor que a vida tem a oferecer, que é tão simples e pede tão pouco...
Foto do autor.

Como eu tinha uma consulta marcada para o dia seguinte, uma segunda feira, o melhor seria não retornar pra casa no domingo mesmo, como eu sempre faço, mas, sim, ficar num lugar mais próximo daquele importante compromisso - a fila do SUS ainda está muito demorada!

Apesar de ter acordado cedo, infelizmente, perdi o compromisso, mas, ainda bem que consegui reagendar para a mesma semana, inclusive, tudo transcorreu bem melhor do que eu imaginara! A isto ainda somo que aproveitei minha estada na casa do Joel para resolver uma importante pendência do nosso carro ali bem pertinho, num posto do Detran. 

Apesar da febre, que até o momento, não quer ceder no meu filho. Apesar da saúde abalada e preocupações diversas de minha esposa, o Universo continua colaborando comigo e com as pessoas que eu amo e tenho que aproveitar este momento pois, tenho a certeza de que tudo é inconstante e não demora o pêndulo voltar para o outro lado. Doenças não dão em pedras. Lesões fazem parte do nosso cotidiano. 

Claro que teria de sacrificar o meu treinamento para a Meia de Angra, assim como é justo e necessário eu, também priorizar outros compromissos, além dos cuidados com a minha família, as outras pessoas que eu amo e aquelas com quem convivo em harmonia: as aulas já se iniciaram e o começo do ano letivo pede outras demandas de trabalho e com os meus colegas. As férias, infelizmente, terminaram...

O Circuito do Sol, em pleno verão, assim como o Circuito das Estações, início do outono, enquanto metáforas do tempo da renovação e da transição,  tentam nos ensinar isto a todas e a todos, principalmente a nós, corredores e corredoras. Volto a reafirmar a mim mesmo que o desafio é a harmonia e tentativa de superação em todas estas situações e eventos, em todas as estações da vida. A  dor é inevitável. O sofrimento é uma opção! 




segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Diário, 2ª semana 2.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 02/23)

MINHA SEMANA DE TREINOS

08/01/23 (primeiro dia) - longão. Como já havia obtido a marca necessária conforme meu planejamento para 2022, após uma semana de repouso pelo estresse da fadiga muscular, acúmulo de ácido lático, normal entre corredores de rua, decidi começar com um volume menor que o obtido no último dia do ciclo de treinos anterior, partindo dos 12 km. 

Fui dormir no meu horário regular tendo um lanche feito de carboidratos e proteínas - stocks com tahyne e ricota  - seguida de uma deliciosa sopa de feijão com crutons de apoio na air fryer. Estava chovendo fino e fazendo frio o que me levou a dormir logo assim que deitei debaixo do cobertor. 

Acordei às 4 da madrugada mais pela noite agradável e bem dormida nas minhas suficientes 6 horas diárias de sono noturno. É que compenso com a siesta, hábito herdado de família, dormindo uma hora depois do almoço, quando não estou trabalhando, claro!

Em silêncio, pra não acordar a família, fui preparar o café da manhã e deixar a mesa posta antes de sair pra treinar, como sempre faço. 

Coloquei um ovo pra cozer enquanto passava o café,  aquecia meia espiga de milho e uma caneca de leite integral. 

Esperando o café passar, amassei duas bananas e comi com aveia integral, amendoim picado torrado e farinha de chia. 

Minha intenção era, se não estivesse chovendo muito e fazendo muito frio, sair de casa perto das 5 para uma corrida de 1:20, com ritmo médio de 6:30 pra não começar forçando neste plano de aumento gradativo de volume e intensidade.

Como um colega da Efusivos Runner, "a pista estava chamando, o que era pura verdade!

A meta até 06/02 era de 83 km de corrida incluindo 2 dias de fortalecimento muscular em treinos funcionais e alongamento diário com um dia de repouso (sábado) e um treino regenerativo - os 5 km, leves, às segundas feiras, após o longão do domingo.



Me vesti com a roupa e o tênis que ja havia deixado separado na noite anterior e, por precaução, peguei um frasco de álcool e uma máscara ainda devido a Covid e variantes.

Liguei os aplicativos , ainda não deu pra comprar um bom relógio com GPA, - sonho de todo corredor apaixonado! - e saí de casa às 5:24, seguindo pela Estrada do Piaí em direção à orla, passando pelo Coreto de Sepetiba, na Colônia dos Pescadores.

Tanto o Adidas Running quanto o Runkeeper, da Asics,  fabricante do meu tênis, alertavam que eu deveria segurar o ritmo, pois já estava aquém da meta logo nos primeiros kilômetros  lembrando que a intenção não era diminuir o pace, mas, sim, manter o ritmo e o fôlego gradativamente em longas distâncias, a partir dos 10km. 


Não fora os dois cachorros no retorno na Praia do Cardo - a última da orla de Sepetiba, que me fizeram correr de costas tentando proteger meus calcanhares, teria mantido o ritmo e os batimentos cardíacos (rs)


Mas, no final, me senti muito bem tanto pelo rendimento quanto por dispor de uma pista bem conservada e uma paisagem deslumbrante,  mesmo com o tempo nublado. 


Pace mínimo de 6:01 e máximo de 6:57 está muito bom pra começar com este primeiro longão de final de semana .


Ao chegar em casa, fiz a limpeza do tênis, e fui tomar minha ducha. Logo depois, fiz meu alongamento e fui tomar outro café da manhã, com minha esposa que acabara de acordar. Nosso filho continuara dormindo. 

Comemos aipim cozido com azeite, passei outra garrafa de café e terminei a minha caneca, já com toda a família acordada. Já já vou cuidar do almoço, com o reforço nos carboidratos de um macarrão com creme: estamos em dieta... de engorda! Compramos uma nova balança: digital com leitura de bioimpedância. Minha companheira está fazendo ginástica!

 09/01/23 (segundo dia) - treino regenerativo 

Não diria que a noite foi tão agradável pra se descansar, apesar do friozinho gostoso e da ceia leve, no domingo, com direito a salgadinhos, pizzas e vinho. 

Mas é que, as atitudes antidemocráticas e as ações de terror promovidas pelos vândalos que depredaram o Congresso Nacional e invadiram a Praça dos Três Poderes

O inconformismo da derrota nas eleições presidenciais é a barbárie no DF tornaram o final do domingo muito tenso pra gente aqui em casa e pra muitos amigos, companheiros e conhecidos nossos que lutamos para a eleição do atual Presidente da República.


Esperando a família acordar, ainda em férias, debelada a "revolta dos manés", tenho a certeza de que tudo está sendo providenciado pelas autoridades competentes, já que retornamos ao regime democrático e dele não nos afastaremos, jamais!

Acordei um pouco mais tarde hoje, pois sabia que o treino seria suave como planejado em um treino regenerativo que desempenha a função de relaxar as fibras musculares ainda tensionadas devido ao longão do domingo. 

Além disto, tem a propriedade de remover o lactato,  devido ao acúmulo de metabólitos, ou seja, de eliminar o acúmulo de ácido lático, responsável pelas dores e câimbras no pós treino.

As atividades físicas de grande intensidade e esforço exigem estas pausas no treinamento, com a rígida observância dos treino regenerativos, que tem como finalidade o descanso do metabolismo, 24 horas após o catabolismo pós treino (degradação muscular). 

A periodização de treinos, conforme os professores Joao Vitor e Rafael Oliveira, no livro Periodização e Técnicas Avançadas de Força (2020).  baseada no princípio da adaptação considera que o organismo passa por três fases, quando confrontado com um esforço elevado, catabolismo, adaptação e plateu, que, para ser ultrapassado, precisa de um outro estímulo, de maior volume e intensidade, conforme os objetivos.

Então, depois de fazer a minha habitual refeição, saí de casa um pouco mais tarde e, apesar de ter pensado num trajeto curto, não repetitivo, preferencialmente, num circuito plano, evitando a estrada, já que haveria veículos circulando naquele horário, desci direto pela rua do canal, a Avenida Ary Chagas - uma reta de um quilômetro, plana, com um leve declive, em direção à praia, contornando pelo coreto. 


Correndo, pensei que poderia contornar o canal e, assim, obteria os dois quilômetros, completando os demais, dando uma volta na Praça Oscar Rossini. Mas, não tenho a menor afeição por circuitos repetitivos. Aliás, tenho aversão às rotinas, sejam quais forem!

O ritmo era tranquilo, como havia planejado e, na praia, estava com os meus 7m/k, o que seria o ideal durante todo o percurso.  Completando os dois quilômetros pelo calçadão da praia, ao chegar  na esquina da rua de acesso à Praça Oscar Rossini, iniciando o retorno pela Rua da Floresta voltando em direção ao canal.

Daria subir pela rua do canal, mas, em função do desgaste do aclive, ainda que suave, mas segui em frente, em direção à Base Aérea de Santa Cruz. 

Como tenho treinado no mesmo circuito, correndo por quase todo o percurso, na orla de Sepetiba, devido à pista regular e, claro, a agradável vista da linha do horizonte encontrando com o mar, a brisa e as belas paisagens.

Não só isto: como conheço a distância relacionada a cada ponto que me chama a atenção, fica muito fácil eu saber quantos quilômetros e o meu ritmo ao passar por eles, o que é benéfico no acompanhamento do rendimento.

Para isto, em cada mesociclo a partir dos 10 km (12 km, 15 km, 18 km), recupero o mesmo trajeto do treinamento para minha última meia que eu completei no ano passado, que foi a Meia da Reserva, procurando repetir principalmente toda a extensão da orla como prioridade, deixando a volta pela Estrada do Piaí, como "reserva", em caso de não completar a distância necessária.

É que, nesta época do ano, como a estrada não é arborizada, é o trajeto de maior incidência do sol, sem contar com o trânsito: ainda que bem cedinho, já tem vans circulando junto com motocicletas e alguns carros se deslocando em direção à Santa Cruz.

O fato é que não considerei esta minha decisão e não me lembrei de já ter feito um excelente treino regenerativo há bem pouco tempo correndo estritamente pela orla, ida e volta e, então, copiei integralmente o trajeto que incluía retornar pela entrada da Base Aérea o que não foi nada agradável, assim como em nada contribuiu para que eu "relaxasse", como tem que ser feito no treino regenerativo após um longão. 

Comprometido com as lutas sociais, herdando a formação e a consciência de classe da minha família, professor e antifascista, lutando pelos direitos humanos,  e pelo fim dos privilégios de quem acumula as grandes riquezas expropriadas dos trabalhadores,  não seria estranho eu pensar em outra coisa a não ser nos prejuízos à democracia promovido por um governo de exceção, ditatorial, como nos anos de chumbo da ditadura militar.

Da mesma forma, claro que seria esperado eu refletir, diante daquelas placas, da ameaça de que nos livramos com a derrota de um governo, cujo ex presidente indiciado por estímulo aos atos considerados golpistas e terroristas, assistidos e repudiados por todo o mundo democrata, com a invasão do Congresso Nacional e depredação do nosso patrimônio, com enormes prejuízos materiais à cultura, à história e à memória.

O ex presidente, ora nos Estados Unidos, por conta de internação devido a dores abdominais, nada pronuncia a respeito das atitudes criminosas dos seus apoiadores, muitos deles, devidamente presos pelas forças de segurança em Brasília, graças às rápidas ações tomadas pelo nosso presidente Lula e de todos os parlamentares indignados como a maioria dos cidadãos brasileiros.

Claro que não ultrapassei o perímetro demarcado da área militar, ali contornando em direção, novamente, à Praça Oscar Rossini.Conseguindo deixar estes pensamentos no seu devido lugar, voltei a pensar na corrida e, no retorno, já estava passando em frente ao reduto da boemia sepetibana, o Bar do Bill, seguindo adiante, mantendo o mesmo ritmo, e passando em frente à Igreja de São Pedro, na praia de Sepetiba.


Entretanto, apesar da minha desconfiança, não precisei ganhar mais alguns metros a percorrer, pois, ao passar  em frente ao canal, o GPS já marcava os 4 k e, faltando apenas 1 k, retornei em direção a minha casa, entendendo aquele, o circuito ideal para os próximos treinos regenerativos. água, tomei uma ducha e fiz o alongamento necessário. 


Agora, é tratar de repor as calorias perdidas - ainda que poucas, creio! - e começar o dia.

10/01/23 (terceiro dia) fortalecimento muscular 

Mais ainda que ontem, acordei bem mais tarde: não estabeleci uma rotina de treino funcional, apesar de saber necessária pro treinamento pra maratona.

Nas duas meias corridas em 2022, até que fui direitinho com os exercícios, mas, como aquela rotina de repetições me cansou tremendamente, decidi alterar significativamente usando o pacote de treinos de fortalecimento, equilíbrio e alongamentos da Adidas Running, com a novidade de fazer as séries programadas semanalmente brincando com meu filho, normalmente, à noite.

Hoje fiz uma série de 20 minutos com 3 repetições de polochinelos, exercícios para os braços, pernas e abdômen com ritmo intenso e me senti muito bem. 


11/01/23 (quarto dia) - 10km forte 

 "...mas são só 10km ! ", pensava alto logo que comecei a correr já prevendo o esforço que teria que empenhar pra, não só manter o ritmo, como, aumentar a velocidade.

Tinha que fazer os 5 quilômetros em meia hora. Ocorre que este "tinha" não seria naquele dia, pois ainda estava na primeira semana de treinos e isto seria pra daqui a duas semanas. E olhe lá!

Se eu ficasse na marca dos 10 quilômetros em "mais ou menos" uma hora eu concluiria a Meia em pouco mais de duas horas. No máximo, passaria uns 10 minutos.

A Meia da Reserva, em setembro de 2022, eu concluí em 2:03, com um ritmo médio de 05:51 e velocidade máxima de 14,1; A Meia Internacional, pouco menos de um mês antes, em 2:18, ritmo médio de 6:31 e velocidade máxima de 12,6.

Algo na metade disto já estaria muito bom para as minhas pretensões com a Maratona do Rio, na metade do ano. Ou seja, completaria em 2:11, com ritmo médio de 5,91 e velocidade máxima de 13,35 estaria excelente, pois teria baixado o meu índice, e, daí, teria alguns meses para manter este ritmo, podendo ganhar ou perder, mas, com certeze, seria muito bom.

"Seria", ou seja, "provavelmente", mas, entrando um pouco no aspecto da minha personalidade, uma criatura tão ansiosa como eu, logo no começo da corrida já estava pensando no esforço que seria ficar abaixo do pace 6, no máximo, após o segundo quilômetro pois "seriam apenas 10 km!

Mas, enfim, completei a corrida em 1:02, com pace 6:13 e velocidade máxima de 11 k/h, já no primeiro dia de treino forte para os 10 km. Claro que tenho que tormar cuidadeo com  com a fadiga muscular e as lesões provocadas pelo excesso de treino, mas, isto, vai do controle psicológico, do treinamento, fortalecimento muscular, alongamento, alimentação, hidratação. Ou seja, passou da hora de  correr com seriedade, o que venho me esforçando há pouco mais de um ano, desde que voltei a  correr e começar a correr com rigorosidade.

E isto exigirá acordar religiosamente às 4 hs da madrugada, pois pego no trabalho às 9hs e o nosso filho, às 7 hs durante toda a semana. Ou seja, às 6 hs, não só tenho que estar de volta, mas, tomado a minha ducha e feito o alongamento em 4 dias da semana, pela manhã.

Os dias de fortalecimento muscular, na terça e na quinta, tem como fazer os exercícios em qualquer momento do dia o que, juntando a segunda feira, de regenerativo e o sábado de descanso, não será, assim, tão "sacrificante", ainda mais com um objetivo tamanho que é completar uma maratona inteirinha - e inteirinho! - não só aos 66 anos de idade, mas, tendo voltar a correr maratonas depois de mais de 30 anos. E com o foco em manter aquele índice daquele rapaz de seus trinta e poucos aninhos. 

Estranho isto de eu não ter me dedicado a outros esportes e, ao contrário, me ver tão aficionado pela corrida de rua. Não sei se ponho na conta do meu biótipo, da falta de tesão, das oportunidades ou de qualquer outra motivação de ordem fisiológica ou psicológica, sem desprezar, claro, o fator econômico.

Na minha adolescência, apesar do estímulo à educação física dos governos militares nos anos 60 e 70, como fiz todo o ensino médio, antigo segundo grau, estudando à  noite, porque sempre trabalhei durante todo o dia, fui dispensado das aulas de educação física, e, diga-se de passagem, elas existiam apenas "no papel", pois, não me lembro de jamais ter visto ou assistido a uma aula sequer de prática esportiva.

Meu irmão mais novo tinha uma caloi 10 e, de vez em quando, eu passeava com ela, mas, como ele passou no vestibular para uma outra cidade e precisou sair de casa, deixei de andar de bicicleta. Naquela época, deixei de pegar jacaré em prancha de isopor e consegui comprar a minha primeira prancha de surf, esporte que pratiquei até eu me casar: fui morar distante da praia.

Alguns anos depois, comprei um caiaque, contratei uma professora de canoagem  e passei a remar na lagoa Rodrigues de Freitas e na Praia Vermelha, na Urca. Quando viajava com a família, minhas filhas adoravam passear de caiaque.

Na faculdade, nos anos de 1980, também trabalhava e estudava à noite, tendo sido dispensado, o que, na época, me frustrava bastante pois, estudando na UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, quando não estava em aulas, costumava visitar o pólo esportivo e ver alguns alunos jogando basquete, futebol, correndo... e isto durante à noite.

No meu primeiro casamento, conheci o tae kwon do , uma arte marcial coreana que usa bastante os pés, os saltos e os socos, e passei a me dedicar com afinco àquela atividade. As dores na coluna me fizeram abandonar a luta na penúltima graduação - faixa vermelha ponta preta! 

Mas, hoje, aprendi com o corredor maratonista e triatleta Karuki Murakami que as dores são inevitáveis. O sofrimento é opcional!

Mas, com o Dr. Drauzio Varela, já havia aprendido a não colocar na conta das dores inevitáveis da idade a falta de motivação para as corridas de rua o que me fez pensar - e fazer por onde! -  pra voltar a correr. 

Claro que bem antes, escritores como Julio Verne, A Ilha Secreta, Hernest Hemigway, com O velho e o mar" e Amyr Klink, com "Cem dias entre céu e o mar " me serviram de estímulo,  tanto quanto os clássicos A Odisséia , A Ilíada, Dom Quixote e  Os Lusíadas. 

Afinal, a corrida de rua pede muito menos que toda aquela bravura, diga-se de passagem, romanceada. Ela pede muito pouco, aliás: apenas a vontade de correr e isto, eu tenho de sobra, além de um par de tênis!

12/01/23 (quinto dia) fortalecimento muscular

Sem sombra de dúvida,  fazer exercícios ao ar livre motiva, inspira e rende muito mais! E foi com este espírito que hoje abri a porta e fiz a minha série, mas, com algumas adaptações por causa de uma dor nas costas que arranjei nos últimos dias.

Em primeiro lugar, achei que foi por causa de um exercício  diferente que forçou a musculatura das costas, mas, pensando melhor, atestei aos movimentos de poda que venho fazendo no nosso quintal, além, claro, de brincar com o meu filho intensamente.

Mas, pela manhã, com todos dormido a mistura do canto dos pássaros com algumas e vozes de vizinhos tornaram a série mais do que agradável.

Pensei no quanto o cuidado com as plantas, com o quintal e a grama me faz tão bem quanto às corridas.  Tanto correndo sozinho, quanto à jardinagem me devolve a paz e a serenidade tão bem-vinda.

A observação de um ramo a ser cortado, a inspeção para ver se há alguma praga, a limpeza das raízes, adubação, transplante de mudas e troca de vasos acompanha um movimento que medeia entre a razão e a paixão.

Não é diferente com as corridas que pede todo um trabalho de concentração, mas, jamais deixa de ser uma brincadeira séria.

Minha esposa divide comigo os cuidados com o nosso jardim e hoje, em especial, passamos quase o dia inteiro cuidando dele. E, ao final do dia, jantamos uma panqueca de ora pronobis nutritiva e deliciosa, para uma noite chuvosa.

13/01/23 (sexto dia) 10km leve

Às vezes, mudar os caminhos pode ser uma solução.´

E isto eu posso aplicar em muitos momentos da minha vida, desde que decidi, nos meus 20 e poucos anos pela minha profissão, assim como, ainda na adolescência, pela minha opção político-ideológica e espiritual.

Também, a decisão de largar o sedentarismo e voltar a correr depois dos 65, a fim de acompanhar o pique do meu filho, de 4 anos de idade.

Hoje foram aqueles cachorros que tentaram me morder no começo da semana. Lembra?! 

Então... já na no final da orla, chegando aos 5 m,  contornando na rua Abílio Teixeira de Aguiar, na praia do Cardo, olhei o ponto onde havia sido atacado pelos amigos nervosos. Pelo horário, o encontro seria inevitável...

Nem pensei duas vezes para seguir em frente, subindo aquele que seria o maior aclive da semana, de 11 m, pra dar a volta pela rua de trás. Assim, não só evitaria o confronto como, também, garantiria o trajeto ideal, voltando pela rua do canal, fugindo do movimento e do trânsito da hora.

E, não foi diferente: ao completar o contorno, já avistando a praia, olhei à esquerda e os cachorros estavam exatamente no mesmo ponto, prontinhos reforçar o café da manhã com um naco da minha canela.

Pode ser por oportunidade,  possibilidade, facilidade. Mas, sempre precisei decidir e fazer uma escolha. Nem sempre foram as melhores, claro rs

Mas esta, com certeza, foi muito boa, não só por ter me livrado de umas dentadas na perna, como, também, por ter decidido pelo trajeto ideal pra completar os treinos semanais de 10 km: o forte, da segunda feira e o leve da quarta.

Ter decidido pelo magistério também foi uma excelente decisão, pois esta é uma profissão com quem tenho feito muitas amizades além de que os dias de trabalho, o lugar e os horários, além de flexíveis, são de relativa negociação.

Há mais de 40 anos lecionando, hoje, trabalho bem menos que trabalhava, e bem mais perto de minha residência, quando completei minhas duas primeiras maratonas o que entendo ser um facilitador para que eu tenha como completar outras provas longas, mesmo tendo passado tanto tempo.

A instituição em que trabalho dispõe de parque aquático com atividades facultadas tanto aos estudantes, professores e comunidade. E de lá que tenho recebido estímulo, incentivo e aconselhamento dos professores de educação física, dois deles, inclusive, também são corredores.

Ao terminar as férias, pretendo associar os exercícios para o fortalecimento muscular com as aulas de natação, na piscina do meu trabalho, nos dois dias destinados a estas atividades ou, ainda, alternar entre a natação na terça feira e os exercícios funcionais na quinta. Mas isto, vou decidir ao retornar as aulas no mês que vem.

A minha associação (Appai - Associação Beneficente dos Professores Públicos Ativos e Inativos), disponibiliza entre os seus associados um grande leque de opções de atividades de lazer e, dentre eles, o benefício corridas e caminhadas.

Assim, posso  desfrutar, o ano inteiro do calendário das principais corridas no meu estado, incluindo, as do calendário oficial, apesar das inscrições limitadas aos seus associados e dependentes.

Ao contrário das estatísticas sobre o adoecimento profissional dos meus colegas, entendo que, ao escolher as salas de aula como lugar em que passaria boa parte da minha vida trabalhando foi - e continua sendo! - uma atividade prazerosa que contribui, também, para a minha longevidade, apesar de todo o risco da nossa profissão.


14/01/2023 (sétimo dia) - descanso

Surfando na onda do esforço de ontem, hoje é dia de ficar de boas (rs). Descanso, descanso e descanso, além de muito macarrão pra enfrentar o longão dos 15 km de amanhã.

Compramos uma balança de bioimpedância como estímulo para o nosso propósito de ganhar peso, o que é um baita desafio pra uma magrela e outro magrelo como somos eu e minha esposa.

Fiz uma primeira medição há dois dias e, amanhã, antes de sair de casa faço outra e repito assim que retornar com grandes possibilidades de emagrecimento, claro!

Mas, tendo aproveitado bastante a sexta feira, com direito a churrasquinho vegetariano e uma latinha de cerveja, pra gente e piscina com sorvete e esquibunda (escorrega dentro da piscina) para as crianças foi tão prazeroso quanto termos cuidado do jardim no dia anterior e noites super agradáveis com temperaturas amenas. 

O verão, por aqui, é marcado por fortes tempestades que, apesar de intensas, são rápidas e, logo, volta o sol mais intenso ainda. São as famosas chuvas de verão que antecedem as "águas de março" que fecham a estação, mais de acordo com a famosa canção do que, propriamente, o clima que tem sofrido bastante alterações

Ontem à noite, inclusive, com a temperatura bem agradável, nos demos ao luxo de assistir a um filme que terminou relativamente tarde o que me fez ficar na cama até às 6 hs, o que é muito difícil durante a semana.

Antes de sair pra encontrar com alguns amigos, fiz um macarrão com molho verde (ora pro  nobis), acompanhado de feijão e antes de voltar pra casa, comi um pastel com caldo de cana, pra não passar de três horas sem me alimentar.

Agora, é tomar uma latinha de cerveja, ver alguma coisa na televisão e preparar o jantar pra garantir o que acho que vou perder amanhã.









sábado, 17 de dezembro de 2022

Promessas, planejamento e propósitos. Corridas: o prazer pela longevidade (Episódio 11/22)

Ainda não foi desta vez que cumpri minhas promessas feitas na festa da virada de ano, pra 2022, como todo brasileiro faz todo ano. 

Não vou correr a São Silvestre, não fui na 2a etapa da Nigth Run, perdi provas consideradas importantes como treino para corridas longas, como a S1K, o Circuito das estações Verão, a corrida do  Rio Antigo, pelo corredor histórico e cultural de minha cidade.

No saldo deste ano que termina, considero importante ter tocado, ainda que bem menos que poderia, o meu violão e ainda consegui nadar algumas vezes. Cuidei bastante do nosso jardim,   li bons livros, visitei minhas filhas e as abracei muito na casa delas e no aniversário do irmão delas aqui em casa. O WhatsApp, apesar dos pesares, tem nos ajudado muito em nossos laços e enlaços.

Ou seja, tem muito mais ganhos do que perdas neste ano quese finda: só o fato de a nossa contribuição aqui em casa pra restituir a democracia e evitar uma tragédia social já seria suficiente pra declarar 2022 um ano vitorioso, sem desprezar as mais de 692 mil mortes pela Covid 19. 


Não há mal que sempre dure, ensina a sabedoria popular. Tudo é inconstante, e a morte é uma certeza, diz o budismo, mas dói muito a perda de tantas vidas, ainda que desconhecidas, tanto quanto de quem nos é próximo: quem não vivenciou a dor e o luto pela partida de algum parente ou conhecido pela pandemia, cujo ritmo de vacinação segue lento, devido ao negacionismo, e ações políticas do governo,  ora despejado de Brasília: a ausência de empatia demonstra uma insensibilidade atroz,  talvez alguma forma de sociopatologia.

É muito triste ver num país como o nosso, um dos maiores produtores de alimentos do mundo, 33 milhões de pessoas passando fome, somando aos 9,5 milhões de desempregados, fechando o ano com um déficit orçamentário de R$ 231 bilhões,  resultado de um governo despreparado e ineficaz. 

Mas, há, também, o que comemorar: a vitória da Argentina, de Messi, na Copa do Mundo e a derrota de um time, com alguns jogadores estrela, bem mais preocupados com o dinheiro e a fama que com qualquer outra coisa, além do futebol bonito, bacana e gostoso de se jogar, - haja vista a ausência no enterro do Pelé, - também conta positivamente. 

Destaque positivo para declarações de alguns jogadores conscientes de que existe uma outra luta, bem maior - a luta de classes! Não somos e nunca seremos uma pátria de chuteiras!

As risadas dos memes, pós eleição, no Brasil, também contribuíram muito para a nossa alegria depois de 4 anos de profundo pesar, traumas e perdas, o que, milagrosamente, tem sido revertido pela esperança que assola o povo brasileiro.

Empenhei-me na minha saúde integral de corpo, alma e espírito. Ortopedista e nutricionista esportistas, cardiologista,   psicoterapeuta, exames e testes "ok" e voltei a me empenhar no fortalecimento muscular nos dias em que não corro. 

As práticas de autoconhecimento, a terapia e a filosofia zen budista tem me ajudado bastante na minha jornada para relacionamentos saudáveis.

Árvores dando frutos, grama bem cuidada e aparada; meu filho, com quem tenho brincado muito , formado na creche e indo pra pré escola; minha esposa, formada e começando uma segunda graduação.  
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Minha paixão declarada pelas corridas tem estimulado alguns e algumas colegas a abandonarem o sedentarismo. Minha filhas indo bem no trabalho, meu afilhado empregado, parentes próximos tendo feito cirurgias complexas com sucesso. 

Todo sábado, dia de folga na minha planilha de treino, num encontro com alguns novos amigos conheci um tatuador e falei pra ele do meu propósito em fazer uma tatuagem na batata da perna de 42 K ao completar a minha primeira maratona neste meu retorno às corridas de rua., depois de mais de 30 anos longe das pistas. 

É que, encerrando o ano, após um treinamento estoico, com pace 6.0, fazendo 10 k em aproximadamente 1 hora, com certa tranquilidade, ritmo e fôlego confortáveis, sem outras dores musculares além das que todo corredor convive obrigatoriamente, me sinto seguro pra enfrentar este desafio, indo além, agora, disputando - comigo mesmo! - na categoria dos veteranos, acima dos 60 anos.

Os planos pra 2023, pensando no meu propósito, a longo prazo, em busca da longevidade saudável,  contém diversas corridas, mas tudo depende do planejamento em meio a negociações,  flexibilização e muito diálogo com familiares, companheiros e com quem convivo, trabalho e treino, pois planejamento feito sozinho têm grandes probabilidades de fracassar. 

Os resultados continuarei publicando aqui para estimular práticas e hábitos saudáveis, principalmente, para as corridas de rua. 

Muito mais do que promessa, planejamento e propósito, acho que escrever sobre o que gostaria que acontecesse não só me motiva como me faz construir caminhos, encontrar facilitadores e aproveitar oportunidades para realizar o que se fizer necessário, bom e útil pra mim e para aqueles que eu amo e com quem mantenho relacionamentos, em busca de longevidade saudável e harmonia comigo mesmo, com outras pessoas, com a natureza e outros seres. 


terça-feira, 30 de agosto de 2022

O desafio de voltar a correr. Corridas: o prazer pela longevidade. (Episódio 01/2022)

O desafio de voltar a correr

Aos sessenta e um anos, um menino chegou na minha vida.  Já com tudo estabilizado: casado, servidor público, no último nível de formação acadêmica, faltando apenas juntar os documentos para me aposentar, pai de duas filhas, adultas casadas, formadas e, também, funcionárias públicas, presentes do meu meu primeiro casamento. 

Eu e Ana Paula, minha companheira  não havíamos planejado uma criança que, efetiva e definitivamente, mudou as nossas vidas, claro, pra bem melhor! 

Tudo se reveste de outros significados num casamento, depois de quase 30 anos!!!

Com a sua chegada, tudo mudou em nossas vidas, principalmente, nossos objetivos e planejamentos: tudo agora incluiria nosso filho! 



No seu segundo aninho de vida, e eu, prestes a concluir o doutorado com a defesa de minha tese,  o Brasil mergulha num pesadelo que persiste até o momento em que inicio este texto. 

Nosso país conhece o seu mais sinistro momento histórico: a eleição de um governante, que, ainda em sua campanha já havia se mostrado déspota, homofóbico, misógeno e fascista e, logo, logo seria percebido, além de despreparado para o cargo, algo bem pior.  

A luta pela liberdade e pela democracia sempre foi uma constante na minha vida e da minha família. Talvez ai resida a minha paixão por um dos esportes tão democrático quanto o futebol no nosso país: as corridas de rua. Elas atraem pessoas de todas as classes sociais, cor, religião, condição sexual, idade...

Estudante universitário,  participei do movimento pelas Diretas Já, após um longo período de ditadura civil militar, militei pelas causas sociais, consciente da minha classe social.

Estive presente em diversas manifestações históricas, dentre elas, a principal: o ato pela democracia na Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, em 1988, quando, também, participei da minha primeira maratona, a do Rio de Janeiro.

Minha mãe e irmãos sempre militaram por um país justo e democrático e procuramos passar para os nossos filhos um pouco de nossa história e comprometimento na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Permanecemos tentando manter o estado de Direito democrático por mais de trinta anos antes do golpe contra a democracia e instalação de governo que iria facilitar as retiradas dos direitos dos trabalhadores, enriquecimento das elites às custas do empobrecimento das famílias brasileiras. 

Em meio ao caos social, fome e desemprego, uma nova tragédia, - claro, de maior magnitude! - acometeu, agora,  todo o planeta: a pandemia do novo coronavírus.

 Em seu primeiro ano, em 2020, ceifou a vida de 250 mil brasileiros, grande parte, devido à política genocida, que, aliada a uma propaganda negacionista de Jair Bolsonaro, com suas claras e eficazes ações para a rápida e maior disseminação do vírus.

Além do atraso na compra de vacinas, retardou o envio de balões de oxigênio para a cidade de Manaus  contribuindo para deslustrar a imagem do SUS, que já vinha sofrendo com sua depauperação 



José estava em seu primeiro ano de creche tendo comparecido a tão somente duas semanas de aula, apesar de toda a nossa alegria e entusiasmo com a sua felicidade. I

Isolados em nossa casa devido ao afastamento social necessário, passamos a viver uma realidade que jamais poderíamos ter imaginado e que sequer pudéssemos vir a viver: rígidos protocolos sanitários, uso de máscara e do álcool gel, ao receber, em nossa casa, motoboys trazendo produtos essenciais como alimentos e produtos farmacêuticos,  comprados por aplicativos de celular.


Em nosso nova rotina, passei a incluir algumas atividades físicas, na medida em que o tempo passava e a curva de mortes e contaminação seguia sem previsão de queda. Muito pelo contrário, devido à clara intenção do presidente, contrário ao lockdown e à vacinação compulsória.

Apesar de, há muito, não me dedicar às atividades físicas regularmente, a despeito de, até os primeiros anos do meu segundo casamento, correr, com minha esposa, em volta do Estádio do Maracanã e ainda praticar uma arte marcial, com o passar do tempo, deixe-me seduzir pela preguiça e me tornei sedentário.

Crianças e animais correm bem mais que adultos que se deixam levar pela posição sentada ou deitada. Bem diferente e a infância! Na escola, quando pequeno, meu grande amigo e colega, o Joel, me chamava de frango veloz. 

Também, era a maneira mais fácil que encontrava de fugir de apanhar dele quando eu, propositadamente, implicava com ele. bem maior e bem mais gordo do que eu que sempre fui bem magrinho. 

Entre 1988 e 1990, completei duas maratonas e uma corrida rústica e treinava regularmente no Alto da Boa Vista, já que morava na Tijuca, no Rio de Janeiro. 

Saía da Praça Saens Peña, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca e seguia em direção ao Alto da Boa Vista.  De lá, passando pela Casa do Bispo, seguia até a Vista Chinesa e descia pelo Rio Comprido, já nas últimas semanas antes de minha  segunda  grande corrida. 

Assim,completei a Maratona do Rio de Janeiro, de 1990, em 4h13m, melhorando o meu tempo anterior, dois anos antes, em 39 minutos.

Foi num treino longo, de 30 km, nas semanas que antecederam a prova que descobri a necessidade da rotina de tudo durante o treinamento: a inobservância dos horários de alimentação. Precisei, às pressas, correr para o mato. 


Então, no ano de 2020, devido ao lockdown e isolamento social prescritos pelas autoridades sanitárias,  despeito das diversas tentativas de impedimentos do governo federal e de algumas prefeituras, mal sabia que, a suspensão das aulas presenciais na FAETEC duraria tanto tempo.

Naquele final do dia, fui um dos últimos professores a sair do prédio com a sensação de que, no máximo, em quinze dias, retornaríamos à normalidade.

Em função disto, sem a menor preparação ou planejamento, comecei a trabalhar em home office, e tivemos que nos organizar para que nosso filho tivesse o apoio necessário a uma fase de seu desenvolvimento que necessita sobremaneira de atividades lúdico e pedagógicas. 

Mas, sem a presença do amiguinho e da amiguinha, claro que seria apenas um paliativo, mesmo com meus vários anos de magistério, com especializações e pós graduação em educação, estudante de pedagogia e Ana Paula, com licenciatura plena, já graduada. 



Não nos faltou o devido apoio de quem pudesse nos orientar, principalmente da dinda Carol, pedagoga e coordenadora pedagógica, vovô, vovó e meus e minhas colegas de trabalho, que partilhavam realidade semelhante. 

Claro que logo percebi a necessidade de me esforçar para manter a sanidade, retornando com as sessões de terapia, agora, na modalidade online para o necessário equilíbrio psicológico. 
 

Entretanto, o corpo passou a se ressentir da falta de movimentos, das caminhadas, de subir e descer escadas, de algum esforço além dos poucos dentro de uma casa.

E, num dos meus isolamentos dentro de nossa casa - realidade estranha demais!, trancado em nosso quarto devido à suspeita de contaminação, ao visitar um colega, voltei a fazer exercícios físicos regulares o que, após a quarentena, evoluiu, seguindo o exemplo do meu sogro, para caminhadas no quintal da nossa casa. 

Parece que o corpo se acostuma com tudo, tanto o que é bom quanto com o que é ruim e, digo isto por experiência própria! 

Dois anos após a pandemia, com a queda nos números de óbitos e contaminação no mundo e campanha de vacinação avançando, o Brasil seguiu a tendência e o Rio de Janeiro e decreta o fim do isolamento social com o retorno progressivo das atividades econômicas e culturais. 

Talvez o sedentarismo compulsório tenha sido o grande motivador para pensar em voltar a correr. E isto depois de mais de 35 anos da minha última maratona concluída, entretanto, sedentário, não me arriscaria naquela tentação.



E não poderia ser diferente o início, caminhando pela orla de Sepetiba e, por aconselhamento médico, marquei consulta com vários especialistas, principalmente cardiologista, ortopedista e nutricionista. 

Enquanto caminhava e pedalava algumas vezes por semana, realizava vários exames e, assim permaneci por um ano: segurando uma vontade enorme de voltar a correr! 



Até que, tendo me adaptado a um ritmo confortável em mais de 5 km de caminhada, três dias por semana, retornei ao cardiologista que, depois de verificar pressão, batimentos cardíacos, os resultados de exames de sangue, ecocardiograma, ecodopler, transtoráxica, monitoramento de pressão arterial, teste ergométrico e outros, definitivamente, com os devidos aconselhamentos, me liberou pra voltar a correr o que, também, realizei bem devagar, começando com um ritmo e distância bem tranquilas, correndo pela orla, no final do ano de 2021.


Meu horário de trabalho  me permitia conciliar os treinos, ainda sem um planejamento definido, com o curso de pedagogia na modalidade online e a rotina da minha casa - preparar o café,  e, junto com Ana, acordar, arrumar e levar nosso filho pra creche saindo pro trabalho. 
Algum tempo perfeitamente adaptado a esta rotina, ao retornar, quando possível, ainda regava a grama e molhava as plantas.
E, esta rotina, me permitiu me sentir mais confortável ainda nos 10 km, com pace 7 a 8km/h. 

Sair de casa às 5hs da madrugada, muitas vezes ainda escuro, correndo pelas ruas do bairro, me fez acompanhar a rotina de uma outra Sepetiba, a dos trabalhadores e trabalhadoras com reciclados e, numa destas madrugadas, me impressionei com uma enorme carroça puxada por uma senhora: a pandemia agravou a situação dos pobres revelando abertamente a frieza, ganância e  insensibilidade dos governantes que além de se enriquecer mais ainda, favoreceram muitos dos grandes empresários brasileiros, que nunca lucraram tanto com a tragédia alheia.

Ao contrário do delivery de alimentos e produtos farmacêuticos e hospitalares, o trabalho com reciclados, devido à falta de descarte de embalagens, foi um serviço que sofreu muito com a pandemia e, agora, com o retorno à normalidade, volta a crescer tendo em vista o desemprego, a inflação e a perda de poder aquisitivo das famílias, notadamente, às mais pobres.

Ainda amargamos um desgoverno que não tem a menor capacidade de gerenciar um país continental como o Brasil, que depois de ter zerado a fome, com um programa de excelência inspirado na genialidade do Betinho, volta à linha da miséria e desnustrição crônica.

Não há espaço para estes e estas trabalhadoras dispor de tempo ou de uma adequada alimentação para a prática de algum esporte. A disputa ainda é pelos restos de comida às portas dos supermercados.

Entretanto, neste país de contrastes, há, também, aqueles que podem dispor de um tempo de ócio. Diferentes são as pessoas que encontro quando decido correr exclusivamente pela orla de Sepetiba, em busca de corridas planas, também longas, porém, de maior velocidade, sem disputar com os automóveis, pela ciclovia. 

São casais caminhando de mãos dadas e ouvindo música; uma militante da causa ecológica, catando pets pela areia da praia - nossa memorável e simpática Xuxa, a de Sepetiba -; bombeiros militares da base naval; rapazes que correm numa velocidade admirável, mocinhas com os seus legs e fones de ouvido, dentre outras e outros.

Assim como o cardiologista, a nutricionista comprou o meu desafio: chegar aos 75 anos em pleno vigor, com saúde plena, participando de maratonas, pois, com esta idade, José estaria com os seus 14 anos exigindo muito mais de mim.

A nutriconista me propôs uma dieta de baixo consumo de carboidratos, pois, ainda, não havia mergulhado num dos esportes aeróbicos de maior consumo de calorias: as corridas de rua rumo, com grandes percursos, ruma  às maratonas, pelo que, logo precisou ajustar o meu cardápio aumentando o poder calórico inserindo os flocos de quinoa junto aos ovos e peito de frango.

O meu maior desafio continuava sendo o de ganhar massa magra, pois, com a minha idade, o que é muito fácil, se descuidar da alimentação, com grande ingestão de proteínas, é emagrecer cada vez mais. A alimentação aqui em casa é estritamente ovolactovegetariana, e, portanto, aumentei a ingestão de oleaginosos e voltei a jantar sem descuidar do feijão com arroz diário, lentilha ou grão de bico junto com verduras e folhas escuras.

De duas a três vezes na semana, ainda consumo proteína animal, no almoço no trabalho, o que me satisfaz plenamente, muito mais pela saciedade que, propriamente, pela necessidade alimentar propriamente dita, já que, ainda que não coincida o cardápio do dia, não tenho sentido a fome que sentia antes da reformulação alimentar.

Minha esposa conhece bastante de alimentação vegetariana e vegana, na medida em que, desde a gravidez ela, não só continua cuidando de sua saúde como, também a do nosso filho, que adora brócolis rs

Passei a levar um mix de oleaginosos para o meu lanche, a fim de não passar de 3 horas sem me alimentar, e aumntei o consumo de banana e amendoim, inserindo a quinoa em minha alimentação diária.

Seguindo as orientações de um professor de educação física, também colega de trabalho, para voltar a correr, confiei meus planos a outro amigo e corredor, o Paulo, que me presenteou com um livro, que passou a ser o meu livro de cabeceira sobre corridas, do Dr. Dráuzio Varela. 

Além de trocar muita experiência, logo me convidou a participar de um grupo de corredores apaixonados, pelo WhatsApp, onde, a cada treino concluído, postamos nossos resultados e comentamos o dos colegas, motivando-nos a nos superar.