quinta-feira, 2 de março de 2023

Roitberg I



Minha busca pelas minhas raízes - aéreas, rizomáticas - história e memórias dos Roitberg, acho que se confunde com toda a minha vida, pois tenho lembranças do quanto as tentativas de nossa mãe Maria, a quem eu devo toda a minha formação, consciência, ética e respeito, em, se não evitar qualquer traço depreciativo de nosso pai, apagar completamente minha necessidade em tentar me aproximar ou saber algo a respeito.

Nossa irmã sempre nos dizia que mamãe havia conhecido o pai quando trabalhava em "casa de família", o que foi confirmado hoje, pela minha cunhada Margareth, dizendo que ela, em conversas, dizia que veio para o Rio, novinha, do Rio Grande do Sul, Alegrete, e trabalhou como babá.

Fiquei imaginando a mamãe de babá e não me contive de tanto rir - ela não tinha a menor paciência com crianças!

Da minha parte, convivo com a estranha sensação de ter passado os últimos 60 anos convivendo com a imagem de uma foto 3 X 4 do meu pai junto a  outras esparsas com a mamãe e um quadro de um homem com uniforme da marinha sem saber quase nada a respeito. 


Tem a narrativa, também, que ele era engenheiro da marinha o que foi descartado por um primo que encontrei pela internet. Mas, e este uniforme?! Sei que nos anos de 1950 até meados dos 1960, havia a tendência da pintura em telas de retratos originalmente em preto e branco, lembrado pela minha companheira.

E digo isto porque havia um enorme quadro oval, numa moldura estilo rococó, dourada, de retrato  até os anos de 1980, com a Marinaila, sim, havia. Inclusive, com um rasgo produzido pelo lançamento de um ferro de passar roupa que a mamãe jogou no Miltinho, segundo companheiro dela, quando ele tentou bater em um dos meus irmãos, no Marcos.

Sobre o nome da maninha, a mãe dizia que se tratava  de um nome composto feito com os pedaços de Ary e Maria 

Mas, quanto ao rasgo na tela, mamãe havia decepado um dos dedos do Miltinho, segundo companheiro dela, pai de Katia, nascida em 1965, nossa meio irmã. E isto num mundo em que não havia a Lei Maria da Penha!

E, quase que isto fora tornado possível, se não fosse o tempo e sua ação implacável tanto nos apagamentos, quanto na recuperação das memórias.


Havia uma foto, que não sei onde foi parar, desta mesma época, comigo com o braço engessado. Mamãe dizia que eu tinha caído da cama e fraturado a clavícula. Nestas, eu tinha 8 meses, como escrito atrás de uma delas. Mamãe tinha muitas joias das quais se orgulhava muito, como o camafeu de marfim encrustado numa peça de ouro branco, entre um solitário, colar e brincos de pérola. 

Tudo isto ela perdeu pendurando na Caixa, e não tendo como resgatar, depois que o pai foi embora dando uma pensão básica para os filhos que ela, a custo mandava o Marco ou a mana pegar num escritório de advogados no centro do Rio.

Dos relatos da maninha e da Margareth, minha cunhada, viúva do Marquinho, há algumas narrativas



Só tenho a imagem do meu pai construída a partir de raras fotografias nos poucos álbuns, que, inclusive, foram danificadas por uma enchente quando eu morava em Angra dos Reis.



O Marco, sempre comentava sobre esta foto que, o Nem estava abraçando o Bambi.

Havia uma de uma casa na Praia Vemelha, onde mamãe falou que moramos durante um bom tempo, pertinho do Cassino da Urca. Outra dos dois passeando abraçados na Av. Presidente Vargas - era carnaval - ela dizia.



Sempre achei interessante que nas fotos, mamãe aparecesse com calças bem justas chamadas, ao invés das saias godês, de bolinhas, como era a moda. Mas, sim, do estilo "transviado" ela era apaixonada por James Dean rs



 A calça era a tal da "cigarrete" e o pai, usava jaqueta de couro e o cabelo bem parecido com o do seu ídolo. Ele era bem mais alto que ela.

Depois da separação, ela se casou com o Miltinho e já participava de corridas e motos, no Alto e no Recreio, com uma turma em que se destacavam alguns personagens de quem ela falava com um certo respeito que era o Sete dedos e o Diabo Louro.


Todo domingo, o neguinho nos levava pra assistir missa na Igreja do Forte de Copacabana e, na volta, a gente sempre brincava no parque que havia em frente à TV Tupi, pegando amêndoas caídas das enormes árvores.

Morávamos na Rua Sá Ferreira, uns dois prédios antes do último antes da esquina da praia. A situação financeira não estava nada bem e a gente fingia que ajudava os pescadores puxando as redes pra ganhar uns peixes pra ajudar na comida junto com tatuís que fazíamos com arroz. Uma delícia!

Mamãe, me lembro, costurava muito, nesta máquina aqui que, durante um bom tempo eu dizia que havia sido o meu pai. Até tarde da noite, fumando, Continental sem filtro, muito e bebendo muito café. Depois, soubemos que ela tomava remédios para não dormir e dar conta do trabalho que, felizmente, não faltava. Ela se orgulhava de ter feito os uniformes das frentistas da Shell. Era a Madame Maria Petrowsky, como nos papeizinhos, que, carimbávamos um a um, com as informações dos serviços de costura oferecidos, cortados individualmente, que entregávamos às pessoas na rua. Ahh, me lembro que também teve um tempo em que vendíamos canetas. 

Na pré adolescência, eu e o neguinho, entregávamos pão bem cedinho, que o Seu Julio nos entregava em um grande cesto de palha. Na féria diária havia, além do pão diário, broas e leite (ainda em garrafa com bastante nata!).

Depois, quando o leite passou a ser ensacado, da janela do nosso apartamento, sem que a mamãe soubesse, claro! jogávamos saquinhos na árvore em frente com um pequeno furo para ficar pingando nas pessoas que passavam embaixo.

O que eu não sabia, que me foi relatado hoje, 22/04/2021, pela Margareth, minha cunhada que foi casada com o Marco, meu irmão já falecido, foi que ela costurava enquanto fora casada com o papai e que, antes dele chegar em casa, ela escondia tudo dele.

Então,  foi ali, em Copacabana, foi que moramos até o começo dos anos 1970, quando nos moramos pra Julio de Castilhos e, depois, pra outra vez, a Sá Ferreira. Agora, no último prédio, no pé do morro do Pavão Pavãozinho.

Me lembro de ter visto algumas daquelas motos que muitos anos depois soube se tratar de Norton e Harley Davidson. Ela andava na garupa de uma Vespa e falava do 7 dedos, do diabo loiro, de Madame Satã, que, diga-se de passagem, ele se orgulhava muito de ter conhecido.

O Babulina, um cantor nosso vizinho do prédio em frente ao nosso em Copacabana, no posto 6 também era desta turma.

Em seu apartamento, em que tinha muitas gaiolas de passarinho, ele costumava fazer feijoada e chamar os amigos.

Mamãe,  seguia costurando para sustentar seus quatro filhos, eu, o Marco Antonio, a Marinaila (maninha), Paulo (neguinho) e a mim, na ordem de "escadinha" quando o pai foi embora de casa. Nos anos de 1970, além de continuar costurando, o que prejudicou tremendamente a visão dela, passou alugar vagas, no quarto de nosso apartamento, com um beliche instalado. 

Ela faria de tudo para não se ver novamente despejada, com todos os móveis sendo levados para um depósito da prefeitura e tendo que deixar seus filhos em casas de parentes e de amigos. Foi aí que viajamos para o Rio Grande do Sul.




E isto me pareceu e resgatado por conversas com a maninha e muito confirmado com o meu primo, foi que eles tiveram uma vida em comum durante um bom tempo, namorando, passeando, e se dedicando aos filhos, lá na casa da Urca, um bairro nobre do Rio de Janeiro. 

Na verdade, esta é uma história com muitos detalhes que não batem...

Junto a outras narrativa, há o afastamento dos dois por questões de cultura e incompatibilidade religiosa, foram afastados por suas famílias, tremendamente conservadoras. Mais a do papai que a da mãe, diga-se de passagem.

Na culinária de mamãe entrava de tudo, a não ser durante os preceitos da Semana Santa, quando não comíamos carne. Entretanto, outros alimentos, tidos como proibidos entre os judeus, não era cardápio na nossa mesa, pelo que mamãe nos contava.

Outra narrativa diz respeito à questão da matriarcado que disputava nossa irmã para o judaísmo a despeito de a mãe ser uma católica praticante, ainda que do jeito que a maioria dos brasileiros o são.

Mas, pra mim, faz bem mais sentido a que, certa vez, mamãe falou pra gente que viu o pai, de mãos dadas - ou abraçado... - com outra mulher e que, mais tarde, ele a trocaria 

Da minha infância, sem o nosso pai, me lembro que, todo dia, às 18hs, a gente podia estar onde estivéssemos, normalmente, jogando pelada na rua, que subíamos para, de joelhos, a mãe nos fazer o sinal da cruz na testa.

Me lembro também, da mamãe assobiando e cantarolando trechos de óperas, de musicais e, em em cima do guarda roupa, caixas com chapeus e luvas de pelica. Ela falava sempre do Superastack, a corrida mais importante dentre as que aconteciam no Jokey Club e que a nata da sociality se reunia com as mulheres cuidando do que as demais usavam.


Seguem os anos de 1970 a gente trabalhando e, aos finais de semana, nos bailes, acampamentos e festinhas, principalmente em Sepetiba.

Aqui aparece a   maninha, já com seu filho, o Dimitry Ivan Roitberg de Oliveira, primeiro neto de Dona Maria e o Marcos.



Na virada dos 70 para os anos 80, eu tocava num conjunto, o Molotov.


E pegava onda no Pier, da Montenegro.




Anos de 1980, imersão na política, com Dona Maria inaugurando o núcleo do PT em Caçapava, São Paulo, por onde nosso irmão, o Paulo Roitberg, foi eleito prefeito com o Marco, Secretário de Saúde.

 
Após seu primeiro mandato, como médico da CUT, Paulo foi eleito Secretário de Saúde em São José dos Campos e isto com o incansável trabalho da Primeira Dama, como mamãe era conhecida e toda a estratégia e inteligência do Marco.




quarta-feira, 1 de março de 2023

Diário, 8ª semana 8.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 08/23)

A Meia Maratona de Angra dos Reis

Na sexta feira antes da corrida, saí da cama às 5hs, medi a pressão, pulso e me pesei. Já já vou ligar pra Regina, nossa irmã baiana,  de Angra, para acertar direitinho minha estada em Mambucaba. 

Ainda falta resolver o horário dos ônibus pra chegar cedinho em Angra, no dia da prova, que,  ainda bem,  será às 8hs. Brinquei um pouco com o meu José, separei minhas coisas, fiz o almoço e saí de casa.

Ansioso como só eu, cheguei na rodoviária de Campo Grande quase duas horas antes do ônibus sair para Angra e,  além de comprar balas de paçoca, de café e bananinhas desidratadas, para levar na corrida, aproveitei para verificar horários de outros ônibus para o centro do Rio aos domingos, enquanto aguardo a partida. Minha família baiana está me aguardando entusiasmada. E eu, ansioso pelo reencontro.

Apesar do motorista do Costa Verde ter falado que eu iria chegar lá pelas oito da noite,  porque estava havendo operação PARE SIGA, - liberação alternada de apenas uma das pistas  - devido às enchentes, causadoras da recente tragédia no Carnaval no litoral paulista, a viagem durou o tempo normal: eu cheguei por volta de 6 horas em Angra. 


De lá,  peguei um ônibus para Parque Mambucaba e, esse, sim, demorou (uma hora e meia... mais ou menos). Cheguei lá pelas oito da noite. Na viagem, recebi a mensagem que estava chovendo por lá. 

Até o morro do Peres, ainda não estava chovendo grosso, mas, passando pelo batalhão da PM, na entrada do bairro, a chuva apertou e, logo no começo da avenida Francisco Magalhães de Castro - a principal - a mesma cena de vinte anos atrás: água a mais de palmo e meio, cobrindo a calçada.

No instinto, tirei logo o tênis, guardei numa sacola plástica e coloquei minhas sandálias para enfrentar o aguaceiro.  Saltei debaixo do  temporal e fui me abrigar numa marquise. Havia me esquecido da capa de chuva...


Mesmo inundada,  encharcada, a rua principal lá do parque Mambucaba, naquela  noite de muita chuva, saltei no ponto direitinho, logo depois do mercado e esperei um pouquinho a Brenda, filha de minha irmãzinha baiana e do Dinor, que, gentilmente, foi me buscar. 



Seguimos caminhando e conversando até a  casa, passando por lugares bem familiares, apesar da pouca iluminação das ruas. Mas, acordando bem cedo, com sons diferentes de outros pássaros e galos, já com a iluminação do dia, do alto da casa, percebi que nestes quase vinte anos que retornei para o Rio, muita coisa mudou, mas as referências  não foram perdidas por completo. 

Afinal, o Frade continua deitado com seu nariz apontando para o céu: o "cheiro da chuva" nos alerta para os temporais que descem de Minas e São Paulo e, quando coincidem com a alta da maré dos rios de Paraty e de Mambucaba tem que preparar os botes salva vidas. Para sair das casas.


Junto às enchentes nada prazerosas na lembrança, claro que não teria como encontrar mais aquele local onde eu vivi uma parte muito bonita da minha vida, junto com a minha esposa. Ficamos bastante tempo em Parque Mambucaba. 


Ontem, sexta feira, de noite, quando cheguei, batemos muito papo, conversamos muito, comemos coisinhas gostosas e hoje de manhã,  fui ao mercado com eles: os preços estão assim "pela hora da morte". Muita coisa diferente do Rio de Janeiro, outras nem tanto.

Enquanto pai e filha faziam as compras do mês com os carrinhos, vi umas latinhas da cerveja Spaten, e peguei para Regina  experimentar e um potinho de geleia que a sua filha adora. Minha irmãzinha preparou uma costela com legumes e aproveitei para ir conhecer a casa de sua irmã, Andréia, coladinha a sua.

Seu filho, tratou logo de dar um presentinho para o Zeca, o que estimulou os demais também a começar uma "corrente de livros" para eu levar para o Zeca, que,  por vídeo chamada, disse que também vai separar livros para doação. Falamos da FLIP. 

Saí de lá, na tarde do sábado, por volta das duas da tarde, e peguei o kit lá no Shopping Pirata's, com um pessoal muito animado - o Julio, da equipe de organização  - meu xará - que mandou um recadinho e uma mocinha; Mas, apesar de todo entusiasmo, particularmente, eu não gosto nadinha daquele sistema de medição. 

O chip a ser amarrado no cadarço do tênis não me traz boas lembranças. Fruto de uma experiência nada agradável,  vivida na Meia da Reserva, onde a chuva me fez perder o chip, tenho que tomar muito cuidado...


Agora, estou esperando o ônibus. Antes, passei na rodoviária, peguei logo a passagem de volta no dia e horário que consegui, na gratuidade idoso, pois tinha dúvidas quando voltar - terça pela manhã - para conseguir dar aula, ou na segunda-feira de tarde,  com mais tranquilidade. 

Então, consegui um horário bom até na segunda-feira, às dezessete horas, passei numa farmácia me pesei - 62.700 ( já coloquei na planilha).

Vou medir a pressão agora, assim que chegar na casa de Regina e, se amanhã tiver alguém no posto da corrida, também  meço antes da prova. Se não, fico com a medição de hoje mesmo:  dá para ter uma ideia no final da prova. Eu faço outra medição com batimentos cardíacos também. Enfim, estou me sentindo bem, apesar de que hoje fez muito calor. 

Como  amanhã também vai esquentar o conselho da organização foi hidratação, reposição de sais minerais, por isto, passei no mercado. Comprei duas caixinhas de água de coco, para colocar para gelar e estou levando, também, umas paçoquinhas, já que eu pretendo, após uma hora de prova - 10 km, mais ou menos - ingerir um pouco de açúcar para suportar os próximos 11 km. 

Como estou esperando e me preparando para esta prova há oito semanas, agora é descansar, aproveitar a viagem, já que estou embarcando no ônibus para Parque Mambucaba.

Ônibus lotado. Ninguém de máscara. Não sei se fiz um bom negócio tirando a passagem para a rodoviária Novo Rio,  ao invés de pegar pra Campo Grande... 

No domingo da prova, acordei às 4:30, peguei da geladeira o meu kit alimentação e hidratação (caixinhas de água de coco e sanduíches de carne moída) e minha garrafinha dágua. deixado organizado e separadinho na noite de ontem, e fui pegar o ônibus de 5hs para Angra. 

Cheguei no local da partida, na Praia do Anil, quase 7hs,  e, para o meu espanto, fui o primeiro corredor. Comigo saltou uma socorrista do corpo de bombeiros com quem conversei desejando um bom dia de trabalho. Ainda iria lhe encontrar no final da prova...



Comi um dos sanduíches, bebi água e fui ao banheiro, pois estava com muita vontade. Depois de pedir a uma corredora  "pipoca"- segundo ela  - tirar uma foto comigo diante dos Reis Magos, aproveitei para tentar comprar protetor solar e caminhei uns 500 metros até o centro para achar uma farmácia aberta, mas achei um absurdo pagar uma fortuna por um tubinho minúsculo; achei um abuso e preferi ficar só com a minha toalha na cabeça presa na viseira. A cada ponto de hidratação, teria como encharcar e foi o que fiz.


Fiquei, sim, um pouco apreensivo pois em todas as provas que participei no Rio, até agora, bem antes de uma hora para a largada, já estaria tudo organizado e não foi o que percebi,  chegando quase às 7 hs com apenas uma tenda pequena armada, e algumas cadeiras.

Aproveitei para tirar umas fotos, fazer filmagens e conversar com alguns outros corredores. Logo o Julio, aquele rapaz que me entregou o kit, da organização, veio me cumprimentar e tirei algumas fotos com ele no painel, agora, sim, já armado.


Logo depois, chegaram alguns veteranos e ficamos conversando sobre corridas, saúde e longevidade. Fiquei de olho na mesa de frutas com muita banana e melancias enormes, que, só final da prova, desfrutaria. Mas, não foi isto que aconteceu...

Sem organizar os pelotões por ritmo, em suas respectivas cores, fomos convocados, já passadas as 8 hs, pelo DJ a nos perfilar para dar a largada - atrasada, porque o trânsito ainda não havia sido fechado, ouvi nos alto falantes. 


Nem deu tempo para o alongamento e aquecimento e o DJ contou: 3... 2... 1, todos largaram, como sempre, apressados e eu, ainda liguei o meu aplicativo e molhei minha toalha. Só comecei a correr no meu ritmo, já quase uns 10 minutos depois da largada. 


Até aí, sem problemas, pois isto estava dentro do meu planejamento. Mas, logo que saímos da Praia do Anil, passei pelo Cais Santa Luzia e desci em direção ao Colégio Naval, já com um sol a pique, castigando demais, pensei no que ouvi na largada de um corredor que a maior parte dos corredores era de 21 km e, talvez, por isto, ainda tinha muita gente correndo ao meu lado.


Voltamos costeando a enseada Batista das Neves e ali pensei em quantas vezes, chegando para as minhas aulas, ali, naquele colégio militar naval, tinha que correr do ponto de ônibus até a entrada. 

Ao meu lado, dentro daquela água azul cristalina e convidativa, algumas pessoas na hidroginástica, como eu assistia há vinte anos...


Por enquanto, ainda dava para correr e respirar, apesar do clima quase desértico. Mas, meia hora de corrida  naquelas condições adversas, foi o suficiente para eu concordar com um corredor que me disse que entre as 8hs e às 15hs, é o pior sol de Angra e que, no mínimo, deveríamos ter saído às 7hs. Jamais às 8hs10m. Com atraso!

Logo na subida em direção ao Balneário, passando em frente ao Iate Club, entendi que deveria lutar muito contra a minha aversão à rotina - teria que repetir aquele trajeto por três vezes! - como contra a fadiga do calor e alta umidade que tornava o ar irrespirável. Não adiantava puxar ar, pois ele não vinha.


Passando por uma corredora que me desejou forças, brincando, eu perguntei à ela que o calor também era psicológico. Muito mais para me convencer que expressar uma verdade.

Na terceira e última volta (uffff), ainda no Cais, minhas pernas não queriam mais, - de jeito, nenhum! -  me levar adiante e, como já havia reduzido ao máximo o meu ritmo, quase caminhando, fiquei com receio de parar de correr e me esforcei para aumentar o ritmo no que eu pensei faltar uns 5 km. 

Contornando, pela última vez, o Colégio Naval, entrando na praia do Centro, pensei somente que faltava muito pouco. O problema é que, passando pelo Cais, meu aplicativo tocou o alarme alertando que eu já havia corrido os 21 km e até pensei em desligar ...

Era verdade, mas, ao perguntar onde terminava, uma moça, da organização, se aproximou e me disse que teria que passar, novamente, por debaixo da largada. Só que eu não aguentava mais e fiquei na dúvida se concluía pelo meu app ou confirmava com ele. Claro que fui até o final. Ao contornar pelo balneário, dois rapazes da marcação me disseram que eu já devia estar cansado de vera cara deles. Erraram o motivo do cansaço.

Já me arrastando, cruzei a faixa e, ali mesmo, recebi a medalha. Recebi, não! A moça colocou no meu pescoço e me segurou, pois quase caí ali mesmo. Aquela primeira socorrista do bombeiro imediatamente segurou meu outro braço me apoiando e me perguntou o que eu estava sentindo, mas, tonto e sem equilíbrio, quase não consegui falar. 

Ambas me levaram até a ambulância do SAMU, estacionada na chegada da prova, e um médico logo aferiu minha pressão, meus batimentos cardíacos e solicitou outra ambulância para a minha remoção até o hospital da Santa Casa, ali mesmo, no Centro de Angra. O ar condicionado daquela havia dado defeito, escutei.

Nem me lembrei de desligar o app confirmando meu tempo... e, assim que cheguei ao hospital, o enfermeiro que me acompanhou entrou comigo dizendo 
A recepcionista que depois faria minha ficha e me perguntou se eu estava com algum documento ou acompanhado. 

Entreguei minha identidade, a médica plantonista confirmou minha pressão extremamente baixa: 7 x 3. A enfermeira me deitou na maca, com as pernas para cima (logo tirei meu tênis encharcado!) e ministrou uma garrafinha de soro e outra, com um líquido amarelo,  para reposição de eletrólitos. 



Apesar de todo um rígido e religioso treinamento, por oito semanas sem interrupção ou descumprimento  da tabela,  o calor foi além dos treinos, suplantou a minha hidratação e alimentação. Não adiantaram duas caixinhas de água de coco, balas de paçoquita, bananinha desidratada e o escambau, durante a corrida.

Claro que todos os meus exames médicos estão em dia! Não vou ao médico apenas antes de uma corrida. Criei o hábito do acompanhamento regular destes e destas profissionais da saúde que se especializaram em atender doidos como eu: professor, adulto idoso, maratonista. Também é lógico e necessário retornar após longas corridas . Ainda mais uma de tamanha exigência como esta. 

Uma hora depois, já liberado, com pressão normalizada, me sentindo bem melhor, pude sentir a medalha no meu peito e li mensagens da minha família baiana no meu celular preocupada comigo, pois estavam me esperando por volta do meio dia para o almoço e já era mais de duas da tarde. Planejávamos ir à cachoeira.

Ĺ
Entrei no ônibus e escrevi...

"No ônibus agora voltando para Mambucaba, depois uma das piores corridas da minha vida um calor infernal a empresa organizadora, depois de ter adiad a data,  alterado o percurso, só liberou a largada depois do horário oficial todos os pelotões misturados calor infernal circuito reply saímos da praia do anil destinos em direção colégio naval contornamos logo após a entrada..."

Na casa da Andreia, todos preocupados. Regina tirou meu tênis enquanto eu contava a aventura, antes de tomar uma ducha deliciosa e me servir de um almoço maravilhoso, mais do que repositor das poucas 700 gr que perdi naquela corrida: na mesa e no fogão, só delícias da Bahia


Era bem mais substancial que qualquer repositor. Mais do que uma miragem. Acarajé, moqueca, caruru, vatapá, farofa, peixe frito, piabinha, camarão seco, que minha irmãzinha trouxe de sua viagem à Bahia. Claro com umas cervejinhas bem geladas do frigobar da padaria do meu irmão maranhense, Iran.



Imagino o que minha nutricionista vai dizer depois de ver minha refeição depois da Meia Maratona de Angra em comemoração do meu aniversário de 66 anos com minha família baiana, lá em Mambucaba.

 
Enfim, macarrão é para os fracos, eu concluí! 
A Meia de Angra 2023, entendo  como uma prova de superação  além dos meus limites. A corrida mais do que valeu pena  independente das falhas. Pude rever quem eu amo  revisitar lugares tão significativos, 



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Diário, 7ª semana 7.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 07/23)


Nesta última semana de treino, eu estou saindo hoje, às 6:44, em pleno domingo de carnaval, estranhando  gravar e correr ao mesmo tempo. 

Passo por  muita gente fantasiada,  talvez, voltando pra casa da festa madrugada a dentro saindo para o Carnaval. Neste clima do Reinado de Momo, a gente ainda deu uma saidinha ontem, - eu, minha esposa e nosso filho: fomos numa festinha,  um bloquinho de crianças, lá na Pedra de Guaratiba a convite do dindinho do  Zeca.

Encerro esta semana com o último mesociclo, e início do última, ainda com a ideia de redes nas minhas reflexões. É que quando eu corro,  penso em muita coisa e em nada ao mesmo tempo, para não ficar sufocado ou voltar para o foco de vez em quando - que é bom, também!,  pensando e falando alto, na verdade.  

Já passei por duas moças de moto fantasiadas de diabinho; um rapaz, também; algumas igrejas abrindo agora, mas o movimento não é normal. Não é o movimento dos  domingos: muito automóvel circulando e eu completando 1 km agora, bem abaixo do meu ritmo. 

É que eu estou gravando direto no blog pela primeira vez querendo saber como  acontece um registro, em tempo real, inspirado nos relatos em tempo real do corredor e romancista, Haruki Murakani. Até então,  o máximo que eu fazia era, ao chegar em casa, escrevia algumas palavras para não perder as ideias para, depois, transformar em texto.

Cinco minutos correndo e eu a
 8.2 km/h o que não me surpreende, já que eu começo sempre assim mesmo, acima de oito. A partir de agora, o ritmo vai sair daquela inércia e crescer.  Já comecei a tentar convencer o meu corpo que correr é gostoso (rs),  nisto, quase tropeço num quebra-molas e penso que tenho que prestar atenção.

Quase chegando ao Coreto, passam alguns rapazes dentro de um carro, me chamando de atleta: o ego vai lá pra cima e sorrio. 

Chegando aos  10 minutos de corrida, pace  ainda acima de 7, mas sei que estes 18 km valem como um teste para Meia de Angra, na semana que vem. Um check up de como estou funcionando. Contorno pela Colônia dos Pescadores e passo em frente à Marta - : o melhor peixes de Sepetiba! - , e lhe dou um bom dia. 

Em frente à Igreja de São Pedro, a rua, como previra, já está intransitável, até para pedestres. É que houve show da Prefeitura, com palco na Praia de Sepetiba e os foliões ainda estão por aqui.  

Para prosseguir, só contornando pela lateral ou pela areia da praia, passando por trás do movimento: melhor opção! e, então, completo os 5 km da Orla, subindo em direção à Estrada São Tarcísio.  

Quase no retorno, mais um bom dia para uma moradora, varrendo sua calçada,  que me responde dizendo que o meu bom dia tinha soado muito agradável.

Mantenho o ritmo no final da subida, antes de contornar pela São Tarcísio: 9.3 km por hora quase 7 km de velocidade já na estrada e acho que consegui convencer o meu corpo a se movimentar. Não lhe dou outra alternativa. Se não for isso, é paralisia! Não quero isso, de jeito nenhum, porque, só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida - repito como mantra.

 Descendo a Estrada, saio em frente à Yemanjá,  no Recôncavo e  ao retornar, sei que não posso seguir até o começo da praia,  porque a aglomeração certamente estará bem pior.

Dou a volta por trás da praça Oscar Rossini,-  circuito dos 5 km regenerativos,  de segunda-feira - e, de lá, sigo pela Rua Floresta e passo por uns rapazes já se preparando para o futebol de fim de semana com suas camisetas se time. O campo está muito bem cuidado assim como toda a praça.

Sigo até a Rua do Canal -  Avenida Dr. Ari Chagas - e retorno pela praia indo até o seu final,  mas mantendo o ritmo: sempre acima dos nove por hora -  bem agradável !

Já de volta na praia do recôncavo, passei por um casal que sempre encontro, na praia de Sepetiba e hoje, mais uma vez, regavam as plantas da orla! Bela atitude! Eu digo. 

Mas, claro que há moradores aqui que não só tem consciência,  preservando, ou cuidando das plantas, pois, a Prefeitura não dá conta. O homem me responde ao bom dia e percebo que ele com uma garrafinha molhando aquele canteiro, ainda mais no calor que está fazendo, com o ar muito abafado, me fazendo suar bastante. Olho o céu acima do mar e vejo que está nublado e sinto uma lufada de vento 
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já na metade da cota, prestes à subir a Abílio Teixeira de Aguiar, pensei no pessoal da limpeza trabalhando em frente ao Pirata's que me responderam ao meu entusiasmado "bom dia!". Então, decidi ir até o final da orla quando completo 13 km. Na volta, eu faço mais cinco para completar  os18 km e isso tudo para evitar tanto movimento lá no Coreto e evito a subida da Estrado do Piaí, sem precisar retornar pelas ruas laterais, por dentro.

Eu acho bem melhor e até já estou chegando aqui no final da Praia do Cardo já quase nos décimo segundo km senti uma leve dor no diafragma, -  sinal de má respiração! - talvez, porque eu estou falando eu filmando ao mesmo tempo e muito mais preocupado com o rendimento que distância a cumprir nestes últimos 18 km, o último longão antes da Meia de Angra. Até o momento, tudo tranquilo com 13 km percorridos,  dentro da minha meta de treino. 

Como é que um longão, como esse aqui, está cansando menos do que os 15 k do Circuito do Sol? Estou desconfiado que seja mais pela tranquilidade de um treino que suplanta a competição natural  de uma prova, vendo todo mundo correr.  É lógico que, dentro daquela multidão somos obrigados a correr e competir. Parece que foi esse um erro estratégico no Circuito do Sol. Mas, aqui não acontece isso, é apenas o meu treinamento para a maratona do Rio de Janeiro, fazendo minhas medições e rendimento.

Se eu encontrar os cachorrinhos e lá no final na Rua Nunes, retorno pela praia e faço uma nova medição da pulsação para ver os batimentos cardíacos depois da velocidade máxima atingida, quando eu acelero um pouquinho, aproveitando, também, para escapar das dentadas no calcanhar e conseguir os batimentos necessários. Mais um "bom dia!" e, lá no final dessa rua deliciosamente arborizada, uma curvinha e eu, já acelerando, quase que ofegante para conseguir o máximo de pique, vejo que não há nenhum cachorrinho nervoso, mas, memo assim, acelero do mesmo jeito, até chegar, novamente, à praia do Cardo. Atingindo a velocidade máxima correndo, decido checar os BPMs depois.

Hoje não fui até o final da praia de Sepetiba, porque está tá muito cheia, além de que estou com sintomas de resfriado e tenho que me cuidar nesta última semana antes da minha. Daqui em diante, só me resta, na quarta-feira de cinzas, correr, na quarta-feira, os meus 10 km leves e descansar para viagem na sexta-feira. Ficar em casa com um moleque na piscina é um outro atrativo tão bom quanto cuidar desse resfriado. 



Concluí muito bem este último longão e, já em casa, agora, a gente está assistindo, na sala, um desenho desenho animado novo que a gente descobriu:  o tal de aumirau - muito gostoso! -  sem nenhum motivo para sair hoje de casa e, bem preguiçoso: acordei lá para as 6:30, porque a gente ficou vendo desfile das escolas de samba. Então, eu troquei o regenerativo para ficar dentro de casa. Saímos da piscina agora e estamos assistindo na TV o que a gente descobriu. Aproveitei para fazer uma playlist com todo o registro deste treinamento

Ana Paula, na cozinha, fazendo almoço, pois trocou o dia comigo, sem problema nenhum, até porque eu achei que estivesse desenvolvendo uma dorzinha na sola dos pés e fiquei desconfiado de alguma lesão:  e,  numa semana que não dá para arriscar nadinha, tem que ficar no sapatinho mesmo. Fiquei, então, na piscina hoje de manhã com meu garoto e depois a gente descansou para ver, agora, o filme Os Incríveis, na televisão. Ainda fiz uma crepioca com recheio de ricota e ora-pro-nóbis. Agora vamos tomar uma vitamina neste dia tranquilo.


21/02/2023

Hoje,  terça feira, 17 hs, estou esperando a temperatura baixar para, de noite, fazer o meu fortalecimento muscular semanal. No almoço de hoje eu fiz um arroz integral com um peixinho de horta que eu fritei na AirFryer, mais batata souté e quibebe. Sem nenhuma modéstia, ficou muito gostoso e agora tomei um iogurte, já quase 5 horas da tarde, sabor natural com aveia e banana. A temperatura está muito quente em por isto, ainda de férias e em pleno carnaval, fiquei na rede,  aqui fora de casa, esperando baixar a temperatura, lembrando que hoje à noite tem fortalecimento muscular.

Parece que a gente vai dar uma saidinha, porque ontem não saímos para tomar um açaí, como combinamos com o José. Agora, eu vou na padaria comprar uns pães para fazer um "not dog" (versão vegana do hot dog) de noite. Foi muito bom ficar esses dois dias em casa, ainda mais nesta época do ano, com todo o típico movimento do carnaval e, também, pela minha desconfiança dessa dorzinha no pé esquerdo. Pode ser que não seja nem no pé, mas, sim, na cabeça. É que estou muito ansioso pela meia de Angra, e já estou terminando a 7ª semana de treinos, partindo para a 8ª, a final de todo o ciclo de treinamento, 

Então, é claro que não dá para descuidar dos menores detalhes. E, para relaxar, ontem eu consegui assistir três escolas de samba no desfile pela televisão, inclusive a minha Portela, que estava linda apesar dos deslizes cometidos. A Nair, esposa do Joel, minha amiga, me mandou umas filmagens do bloco da Ludmila. 

Amanhã é dia dos meus últimos 10 km, que deveriam ser fortes, mas vou fazer no meu jeito, no meu ritmo habitual, tomando cuidado com qualquer tipo de acidente, porque não dá para descuidar, de jeito nenhum, gente! Mas, voltando da padaria penso se tem coisa melhor do que um pão quentinho para passar uma manteiga? Caraca, não quero nem saber que tipo de carboidrato é esse! Eu sei que é bom demais e se acompanhar um pingado, é melhor ainda. Estou voltando para casa aqui da padaria da esquina neste último dia oficial de carnaval, sabendo que o carnaval aqui no Rio vai até o domingo, tendo programação de bloco até domingo. Penso nesta tal programação oficial e que estranha é essa que termina e não termina.

No final de semana, eu vou ver como é que é o carnaval lá em Angra, pois, há anos saímos de lá eu estou por conta da dos meus irmãos e irmãs baianas que vão me receber e ainda tenho que resolver o pernoite, pois que a prova começa cedinho e  não sei como é que é condução no Perequê, onde pretendo ficar. Ainda bem que eu tenho opções no centro de Angra. 


23/02/2023

Ontem, quarta feira de cinzas, fiz os meus últimos 10 km deste ciclo de treinamento que termina com a prova de domingo e aproveitei para experimentar fazer uma gravação de vídeo com transmissão ao vivo para ver a capacidade do meu celular que, para minha surpresa, se saiu melhor do que eu esperava: depois de quase duas horas usando aplicativos, filmando e fotografando, ainda havia carga na bateria.

Fiz o mesmo circuito da orla e pude, inclusive, retornar pelo Coreto já que toda a movimentação do Carnaval havia terminado, inclusive, com as ruas limpas. Quase chegando em casa, na Avenida do Canal, um folião saiu de um pequeno grupo e veio me acompanhando brincando ao meu lado. Eu dei um bom dia entusiasmado pra ele e e ele voltou com o seu copinho de cerveja par o grupo.

Em casa, relaxei muito com meu filho que só hoje volta à escola assim como eu. Depois pego mais informações nas filmagens para completar este relato, porque, a partir de agora, apenas vou fazer o fortalecimento muscular quando voltar do trabalho e organizar minha viagem para Angra na sexta feira, dia 24.

Ontem, 23, sem me lembrar que o Carnaval termina no domingo e que, nunca houve aula na quinta nem na sexta feira da semana do Carnaval, apesar de não ter sido dado ponto facultativo, fui até a escola trabalhar e, claro, dei com a cara no portão fechado. Voltei para casa e, de tarde, levamos o José para o balé, que também não houve porque o  professor não conseguiu transporte. Esperamos um pouco na porta da escola e deixamos o José para o karatê. Enquanto ele treinava, fomos ao mercado, deixamos o açaí que compramos em casa e voltamos para pegá-lo. À noite, apenas fiz o fortalecimento muscular em casa focando no core, cochas e braços com prancha, agachamento e barras. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Diário, 6ª semana 6.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 06/23)

O CIRCUITO DO SOL E O CARNAVAL CARIOCA:   ensaio técnico embaixo de chuva 

Minha planilha de treino para a Meia Maratona de Angra dos Reis, necessitava de  algumas adaptações para eu participar de uma prova no último mesociclo de teinamento: o  Circuito do Sol que, segundo os organizadores, a O2 chegaria ao Rio depois de ter acontecido em São Paulo. A publicidade no site afirmara que aquela corrida de rua "mais popular do Brasil" trata-se de uma prova de recomeço e retomada dos treinos e, claro que me interessei em me inscrever, ainda mais, que era mais uma das atividades da minha associação, a Appai-RJ.



Uma boa oportunidade para  corredoras e corredores com pouca ou nenhuma experiência de corridas de rua - dizia o site. O momento de colocar em prática a resolução de ano novo. "Para os corredores experientes é o start de uma nova temporada." Uma prova destinada a iniciar o ano com saúde e qualidade de vida. 

Nesta edição, houve competição para as distâncias de 5k, 10k e 15k, sendo que aconteceu,  também, uma caminhada de 3k, para quem estivera treinando nas pistas, amplificando o podium e o entusiasmo na entrega da premiação.

Então, o que eu esperava daquela prova a não ser um baita calor típico da orla de Copacabana no verão e alta umidade relativa do ar? Seria melhor,  então, me preparar para o pior, apesar de que a organização resolvera  antecipar a partida para as 7hs30m, certamente, depois de consultar o boletim meteorológico para o próximo domingo.

Nem seria preciso ler as dicas no site para se hidratar bastante, passar protetor solar e correr com trajes leves: a experiência já nos ensinou tudo isto, morando num lugar em que a sensação térmica tem passado dos 50º.

Só que não foi nada disto. Muito pelo contrário: pra felicidade geral, uma frente fria e muita chuva na noite de sábado baixou bastante a temperatura e corremos num clima muito agradável. 

Bem que eu até estava torcendo por uma chuvinha porque o meu rendimento é bem melhor, ainda mais se  os organizadores tivessem mantido o circuito da orla da praia de Copacabana.

Corremos o mesmo circuito da Nigth Run que eu havia participado em 2022, com saída na Praça Cuahtemoque, no Aterro do Flamengo e chegada na Glória o que facilita demais o transporte público.
No máximo, o que eu desejava era manter o meu ritmo e, se pudesse, baixaria um pouco para a Meia de Angra, 15 dias depois. Mas, o acaso colaborou comigo e eu consegui ir bem além da minha pretensão e metas de treinamento. Fui o 5º colocado na minha categoria! Tem menos idosos adultos competindo em longas distâncias ou, realmente, o treinamento começa a dar resultados?! Não dá para generalizar apenas numa prova! Vou continuar, claro!



https://adm.ativo.com/certificados_dos_eventos/ev38538np6701.pdf

Ainda mais que, desta vez, como enorme diferencial qualitativo, pude contar com uma logística benfazeja, pois, como eu consegui adiar alguns compromissos a tempo, saí de casa logo depois do almoço no sábado e fui direto de trem até a Central do Brasil,  no centro do Rio para pegar o meu kit no prédio da Appai logo na saída do metrô do Largo da Carioca.

Morando distante dos lugares de provas, a questão do transporte, principalmente aos domingos, é uma preocupação constante o que me obriga acordar de madrugada, ir ao banheiro, me alimentar devidamente,  para não me atrasar e perder a largada. Depois de horas de viagem, chegando no local, preciso, rapidamente localizar o staff da Appai, o guarda-volumes, o posto médico e me situar no início do meu setor de largada, o verde. 

Excetuando a vontade de ir ao banheiro, a necessidade de aferir pressão e BPM, amarrar os cadarços, checar o chip no número de peito, acionar o app de registro no celular, claro que resta a preocupação de ter esquecido alguma coisa. Mas, o meu esforço em me organizar, até o momento, tem funcionado!

O clima do Carnaval carioca foi o que serviu para distensionar tudo isto, pois, a ocasião sempre me lembrou coisas legais, desde a minha infância em Copacabana e não seria diferente, na semana da festa de Momo. Mais ainda, ao chegar no Castelo, centro do Rio de Janeiro e passar pelos Arcos da Lapa, ver foliões, bate bolas, a barraca do acarajé da Cida,  o Galeto e churrasquinho na esquina da Chile. 

O multiculturalismo e a sinestesia misturam  sensações nesta época integrando outras tantas  como a da turista asiática: afinal com que prazer exótico aquela  moça de olhinhos puxados saboreava, com um enorme sorriso no rosto,  um suculento espetinho de carne. 

Na Appai-RJ,  depois de entregar minha doação - uma lata de leite em pó - e retirar o kit, passei na "Loja do Corredor ", gosto de fazer, muito mais pra ver as novidades que pra comprar, e,  desta vez, conversei com o dono sobre as meias de compressão. 

De lá, novamente peguei o metrô e, saltando na estação Praça Onze,  caminhei até a casa do meu brother, ainda no final da tarde que já anunciava fortes chuvas.

Fui logo recebido com muita alegria, latidos e miados, do Junior e  do Romeu, novidade na família, depois de uns copos de Amstel "suada" e uma porção torresmo quentinho e crocante, daqueles que carioca raiz, de botequim, adoramos.

Colocando as novidades em dia, ouvindo as músicas dos anos '70,  que tocávamos em nossa banda de adolescente, mais o coover da Beyonce - não conhecia o emocionante tributo ao Led Zeppelin! -   eu, Joel e Nair, sua companheira, nem pensei duas vezes quando ela me disse que  havia sido convidada para assistir ao ensaio técnico da Escola de Samba Unidos da Viradouro, naquela noite. 

Oras, o Sambódromo fica a alguns poucos metros atrás da casa do meu amigo e, claro, logo, colocamos nossas capas de chuva,  protegemos celulares e documentos em sacos plásticos e, como Joel não quis sair de casa, saímos, de chinelos, eu  e sua companheira.

Foto do autor. 

Depois do ritual da lavagem da pista pelas baianas, assistimos ao teste de som e de luz e,  em seguida, o desfile das madrinhas de bateria, Sabrina Sato e Erika Januzi e assim que a primeira escola entrou na pista,  caiu um verdadeiro dilúvio. Era Oxum abençoando!, eu disse pra Nair, literalmente, sambando debaixo de uma chuva torrencial enquanto nossos chinelos botavam arrastados pelo aguaceiro.

Não sei e nunca consegui aprender a sambar, mas me diverti bastante embaixo d'água e quando o temporal acalmou um pouquinho, ainda conseguimos tirar algumas fotos daquele show maravilhoso da Unidos de Vila Isabel, com sua efusiva madrinha de bateria, Sabrina Satto, fantasiada de noiva, aliás, muito popular e carinhosa com a plateia que a aplaudiu bastante. 

Outra artista, Erika Januza, madrinha da Unidos do Viradouro, sambando muito, na  pista da Sapucaí molhada, debaixo daquela chuva torrencial, que banhara todo o Rio de Janeiro, também roubou muitos aplausos da plateia encharcada, nas arquibancadas do Sambódromo,  naquela tarde de muito calor, comum no verão carioca.

Como o intervalo entre uma escola e outra estava demorando muito e arriscava cair outro temporal, resolvemos não assistir à Viradouro, exatamente a escola da amiga de Nair, voltamos pra casa, depois de uma ducha, jantei e logo me recolhi para deixar tudo organizadinho, como sempre faço, pra manhã do dia seguinte. 

Acordei bem cedinho, comi um ovo com pão e passei café. Achei muito bom que no ônibus que eu peguei pro Aterro do Flamengo também entrou um rapaz com camiseta e número de peito. Um forte indício que estava no ônibus certo, e a certeza que não erraria o ponto onde saltar: num evento como este, qualquer erro pode ser fatal.



Cheguei meia hora antes e ainda não havia muita gente no local da largada. Fui para o meu setor, o verde, e procurei logo medir minha pressão no posto médico: 14 x 8, e xxx BPM. Tirei algumas fotos,  mandei para as minha filhas e minha equipe e tentei localizar meu colega e parceiro de equipe, o Paulo, mas, não consegui encontrar com ele, apesar de termos nos comunicado onde estávamos: coisas de corrida....

Foto do autor.

Assim que abriram o acesso, tratei logo de ir para a frente, pra evitar o tumulto da largada - o que nunca havia conseguido fazer, até então! - e, o acaso fez com que eu ficasse exatamente ao lado do Johny que me cumprimentou com o mesmo sorriso de sempre, antes de soar a buzina. Uma música eletrônica nos animava e dava o ritmo do aquecimento.

Foto do autor.

Acertei o meu aplicativo e saí no meu passo habitual. Mas, por erro de estratégia ou de empolgação, danei a acelerar mais do que o planejado - e treinado! - e, até o 8º km, já tinha chegado à minha maior velocidade de treino o que me exigiu uma maior atenção, pois, no que planejara, somente depois do 10 km, poderia voltar a acelerar e, mesmo assim, bem aos pouquinhos para guardar o gás para os últimos quilômetros. A ideia era acelerar ao máximo nos últimos 2 km. Mas, não foi bem assim, pois me desgastei muito logo no começo da prova.



Ainda perto do 10º km, notei que um dos meus tênis estava mais folgado e até pensei em continuar sem parar para apertar o cadarço, mas, o bendito resolveu soltar! Saí da pista e,  no acostamento, embaixo das árvores, parei alguns segundos para amarrar, mas, somente daquele pé, o que não achei uma boa escolha, pois, a tendência, se fosse uma prova de maior distância, seria que o outro, também, se soltasse.

Voltei à pista e, tão logo recuperara o meu ritmo, a visão de uma pessoa caída na pista lateral, no retorno,  me impressionou e descuidei do passo:  era um jovem corredor deitado no asfalto, sendo socorrido por policiais e alguns corredores ao seu lado. Como, do ponto  onde eu estava, meu campo de visão me fez desconfiar da semelhança com o Johny, com quem eu mal acabara de falar  pois, até o rabo de cavalo era parecido! Não havia necessidade de parar e nem tinha o que fazer a não ser continuar a prova até o final.

Mas, mesmo sabendo que a pessoa já estava sendo devidamente socorrida, aquela incômoda e preocupante sensação continuou comigo durante um bom tempo até que eu voltasse o foco para "escutar o meu corpo", conselho do meu amigo, alguns minutos atrás.

Claro que não era ele!, soube logo depois que cruzei a faixa de chegada,  e sentei na grama, pra  relaxar da prova e me ajeitar com os brindes e a linda medalha que eu ganhara na chegada: ainda me hidratando e tomando um dos energéticos,  recebi um abraço de surpresa e Johny,  efusivamente,  me cumprimentou. Tamanha alegria de saber que ele fizera uma boa prova, tranquila, sem percalços, nem me lembrei de voltar ao posto para aferir a pressão e a pulsação, o que venho fazendo em toda prova e treinamento de longa distância o que fiz somente dois dias depois da prova. 

Há coisas bem mais importantes na vida e além de ter eu completado mais uma prova, devidamente planejada não perdi o histórico e reforcei laços de amizade.

Não poderia deixar de registrar algumas falhas,  também , na posterior avaliação da prova, solicitada pela Appai: naquele mesmo dia, aconteceu uma outra prova, organizada pela mesma empresa, a O2, também constante no calendário da Appai, o Divas Run, o que fez a associação decidir deslocar todo o staff  para o lugar onde ocorreria aquela prova, Recreio, incluindo - infelizmente!- a tenda de massagem.

Diante dos resultados, entendi ser este o treinamento ideal, ao menos para aquela prova, a Meia de Angra, podendo, inclusive, repetir o meu rendimento, e,  pode ser que os próximos 18 km,  de domingo agora, dia 19, seja o decisivo, para medir o meu pace, pois, nesta prova, tive uma enorme surpresa com os exatos 6:04 aferidos pela empresa organizadora do evento.

Em nenhuma das minhas corridas anteriores havia experimentado uma dieta tão diferenciada, no dia anterior à prova, pois, na casa do meu amigo, me alimentei basicamente de outro tipo de proteína diferente do meu consumo na minha casa: na noite anterior, Nair nos serviu torresmo com cerveja,  e, no dia seguinte, churrasco a tarde toda regado à cerveja. Apesar de não ter o hábito de beber cerveja pilsen - gosto comum dos amigos do Joel - porque acho muito leve, a Império me agradou. Mas reafirmo o meu gosto: prefiro as mais fortes, do tipo duplo malte!

Claro que não foi só a alimentação! Descanso, horas de sono, proximidade do local de largada, relaxamento, rever pessoas queridas, festejar a vida, conversar com as filhas, com o irmão querido, beber e comer com amigos de adolescência, brincar com o gatinho e o cachorrinho do Joel, subir na laje e ver o Cristo atrás do Sambódromo, passar por lugares de tão ternas lembranças e recordações, pensar num futuro alegre e gostoso para o meu filho, correndo ao meu lado, alimentar a esperança de, um dia, motivar outras pessoas, também queridas, a aproveitar o melhor que a vida tem a oferecer, que é tão simples e pede tão pouco...
Foto do autor.

Como eu tinha uma consulta marcada para o dia seguinte, uma segunda feira, o melhor seria não retornar pra casa no domingo mesmo, como eu sempre faço, mas, sim, ficar num lugar mais próximo daquele importante compromisso - a fila do SUS ainda está muito demorada!

Apesar de ter acordado cedo, infelizmente, perdi o compromisso, mas, ainda bem que consegui reagendar para a mesma semana, inclusive, tudo transcorreu bem melhor do que eu imaginara! A isto ainda somo que aproveitei minha estada na casa do Joel para resolver uma importante pendência do nosso carro ali bem pertinho, num posto do Detran. 

Apesar da febre, que até o momento, não quer ceder no meu filho. Apesar da saúde abalada e preocupações diversas de minha esposa, o Universo continua colaborando comigo e com as pessoas que eu amo e tenho que aproveitar este momento pois, tenho a certeza de que tudo é inconstante e não demora o pêndulo voltar para o outro lado. Doenças não dão em pedras. Lesões fazem parte do nosso cotidiano. 

Claro que teria de sacrificar o meu treinamento para a Meia de Angra, assim como é justo e necessário eu, também priorizar outros compromissos, além dos cuidados com a minha família, as outras pessoas que eu amo e aquelas com quem convivo em harmonia: as aulas já se iniciaram e o começo do ano letivo pede outras demandas de trabalho e com os meus colegas. As férias, infelizmente, terminaram...

O Circuito do Sol, em pleno verão, assim como o Circuito das Estações, início do outono, enquanto metáforas do tempo da renovação e da transição,  tentam nos ensinar isto a todas e a todos, principalmente a nós, corredores e corredoras. Volto a reafirmar a mim mesmo que o desafio é a harmonia e tentativa de superação em todas estas situações e eventos, em todas as estações da vida. A  dor é inevitável. O sofrimento é uma opção! 




sábado, 18 de fevereiro de 2023

Diário, 5ª semana 5.8 - A Meia Maratona de Angra dos Reis (Episódio 05/23)

AS REDES E O APRENDIZADO PELA EXPERIÊNCIA

Na corrida pela sobrevivência,  nossa espécie tem suplantado às demais, por sua capacidade adaptativa e de evolução. Quanto às tecnologias e artefatos, destacam-se as que garantem a alimentação.  

Assim é que as redes de pesca, em sua variedade de tipos, modelos e materiais, desde  os naturais como a grama, o linho e as  fibras de árvores e de algodão, além de ter garantido um novo status no desenvolvimento civilizatório por ter potencializado a pesca e garantir um maior volume de pescado, permitiu aos primeiro hominídeos lacustres e ribeirinhos permanecer um maior tempo numa região. 

Há 10.000 anos, o homem deixa sua condição de nomadismo (caçador-coletor), afastando-se de sua dependência da pesca, da coleta e da caça e, com a descoberta da agricultura, inicia o seu estágio de desenvolvimento através da agricultura e pecuária.

Entretanto, nas últimas décadas, ao utilizar as redes de pesca, o homem tem prejudicado o meio ambiente, causando enormes prejuízos, pois, a pesca de arrasto danifica o fundo do mar, além de não fazer distinção na captura dos peixes comercializáveis ou não, e isto sem contar a pesca em período de defeso proibida por lei.

Redes, perdidas e deixadas nos oceanos, enredam uma infinidade de animais não sós os marinhos e anfíbios como os golfinhos, as tartarugas como, também, aves e passarinhos o que exige tomada de consciência, fiscalização e rigidez na aplicação das leis pois a agressão ao meio ambiente só vem piorando nas últimas décadas.

Ao pensar nas outras redes - as sociais - também percebo uma situação alarmante, para a ecologia humana, na medida em que, por mais surpreendente que seja sua contribuição na atualidade, torna o homem refém de sua condição gregária.

Um paradoxo ou um dilema, na medida em que sou livre para administrar o meu tempo de permanecer on line, liberto das outras tecnologias, dos apps, dos sites se relacionamentos virtuais.

Claro que não estou criticando o uso racional da virtualidade, tampouco de alguns aplicativos. O  perigo reside em escutar o canto da sereia e não se permitir ser acorrentado feito Odisseu, o que me levou a pesquisar o uso das redes sociais e das tecnologias, durante o meu curso de mestrado, na UFRuralRJ, em 2011.

E as tecnologias, como todo implemento e artefato humano, inevitavelmente apresentam certas peculiaridades no seu curso de desenvolvimento o que nos faz repensar tanto a nossa dependência como na minimização de seus impactos, o que aconteceu comigo no penúltimo longão para a Meia de Angra, antecedendo outra prova em que me inscrevi, o Circuito do Sol, pela Appai de 15 km.

Meu relógio bugou exatamente quando mais precisava dele, e já tinha, sem saber, ultrapassado a distância limite a encerrar o terceiro, e penúltimo, mesociclo deste treinamento para a meia maratona. Não havendo o que fazer para continuar o registro, decidi, então, parar de correr no final da praia do Recôncavo, e voltei caminhando todo o resto do percurso,2,5 km. 

Chegando em casa, recuperando a memória do treino, armazenada no aplicativo, ao carregar o meu smart, me surpreendi com a distância percorrida: tinha corrido 15km49m.

Além de ainda dispor de mais outro longão, - o de 18 km, - a fazer antes da prova do dia 26, integralizei exatamente a distância que precisava para a prova do próximo final de semana, os 15 km do Circuito do Sol, que abre o calendário de corridas organizadas pela O2

Às 8hs do dia 13/02, vendo o meu celular visualizei no instagram da minha associação as inscrições abertas para aquela prova, que, na verdade, haviam sido reabertas tendo sido disponibilizadas mais vagas posteriormente, o que fez com que novamente se encerrassem em apenas 10 minutos.

Mas, além destas, a primeira prova do ano, em particular me acenava a possibilidade de visitar pessoas queridas e correr num trajeto cheio de boas lembranças das memórias da minha infância e adolescência: apesar de ter nascido na Urca, ainda criança fomos morar em Copacabana, mamãe,  eu, minha irmã e irmãos. Somente saí da zona sul do Rio de Janeiro, depois dos 20 anos, quando me casei pela com a minha primeira esposa.

Há diversas vantagens em correr longe de casa principalmente se tiver que viajar. Claro, se for com a família  melhor ainda! Em toda corrida que tenho participado, não só reforço os laços de pertencimento com quem tem a mesma paixão como reencontro pessoas que somente vejo nestas ocasiões. Mais nos cumprimentamos visualmente, no máximo,  um aperto de mãos que nos abraçamos. 

A hidratação e as zoações depois da corrida, das fotos, o "lanchinho", a massagem - quando tem lounge! -  fazem parte do ritual, e a "estendida",  principalmente num barzinho ou lanchonete próximo.

Eu, particularmente, aproveito para ver minhas filhas, na Tijuca, ou um velho amigo de infância, o Joel, que mora no centro do Rio, pertinho do Sambódromo.

Esta é a única oportunidade mais que agradável, já que, dormindo na casa deles, além de ficar mais tempo conversando, fico bem mais próximo do local da corrida, não correndo riscos com os imprevistos, como aconteceu no dia 12/02, quando participei do Circuito do Sol, no Aterro do Flamengo.

O meu brother, nascido no mesmo ano que eu, nos conhecemos ainda estudantes do antigo primário, numa escola da zona sul do Rio de Janeiro, há bastante tempo. E bota bastante tempo nisto! Sei que, no Educandário Ruy Barbosa, em Laranjeiras, sempre que ele apontava o dedo na minha cara, eu dava uma mordida e saía correndo. 

O casarão colonial de dois andares localizado na rua Gago Coutinho fica no meio do caminho entre a Praça do Largo do Machado e o Parque Guilhen, a poucos metros de ambos. Claro que, ao invés de, na saída, voltarmos direto para casa, seguíamos na direção contrária para brincar um pouco. Uma de nossas brincadeiras prediletas era descer a grama sentados em folhas de palmeiras. E continuava a brincadeira quando voltava passando na casa do Joel pra jogar botão.

Tive que estudar naquela escola particular por alguns anos porque, não sendo um estudante exemplar, como meus irmãos e minha irmã, não teria como passar no antigo - e terrível! - exame de admissão. Aliás, isto eu também guardo em comum com o meu brother: seu irmão, o Batata, sempre estudou em escola pública. 

Correndo no parque ou no pátio do colégio, Joel nunca me pegava, apesar de tentar por alguns metros. Meu apelido era "frango veloz", não só porque corria muito, mas, por ser magrinho como o personagem do comercial - "O frango mais veloz do mundo".

Como nunca fomos alunos brilhantes, apesar de que o Joel me lembra que eu sempre gostei de ler e de escrever, para atraira atenção das meninas, achava que  teria que ser ou um bom jogador de futebol ou músico.  Como o máximo que eu consegui foi uma vaga de goleiro, jogando bola na praia,  ao crescemos juntos, saindo da adolescência, montamos um conjunto de rock, o "Molotov", onde pude ousar escrevendo alguns versos para as nossas canções.

Ensaiávamos, nos finais de semana, na garagem de uma casa, na Praia do Flamengo. Também começamos a trabalhar, juntos, numa sapataria da Av. Nossa Senhora de Copacabana, mas, não deixamos de ensaiar, estudar música e, quando havia convite, saíamos com a nossa banda, de Kombi, para tocar em outros bairros do Rio e outros, distantes, como em Niterói. 

Casamos também no mesmo ano em aos 23 anos, saí de Copacabana e fui morar no Rio Comprido. Coincidentemente, ele foi morar no mesmo prédio. Na época, magrinho e atleta, ele era um jogador de futebol de salão muito veloz o que me impressionava com a rapidez dos dribles dele. Alguns anos depois, ele já com dois filhos e, eu, com duas, nos divorciamos. 

E, por algum tempo, deixamos de nos visitar até que eu, já com a minha atual companheira, reatamos nossos laços e, de lá para cá nunca mais nos afastamos. Nunca deixamos nossa paixão e entusiasmo pela vida, sempre comemorada com muita alegria, música, comidinhas e cerveja de lado em nossos reencontros neste mais de meio século de convivência.

Temos lá nossas divergências políticas e, não sei porque ele é a única pessoa que consigo contemporizar o seu ponto de vista, sempre discordando, claro! Mas ponho isto na conta da rabugice dele, de não dar o braço a torcer. 

É que, desde a infância, nossa mãe nos ensinou que a pobreza não pode ser naturalizada; que todos temos que ter os mesmos direitos e obrigações; a não ser intolerante; que lugar de mulher é onde ela quiser estar.

Definitivamente, estes tempos nos alertam das armadilhas das redes: a descoberta de pedras de plástico transcende qualquer nível de aceitação minimamente humana, pois nos diz a respeito do nosso instinto de sobrevivência. Em alguns aspectos, a espécie humana não pode mais ser tolerante.

Não podemos mais tolerar tamanha agressão ao meio ambiente: os menores gestos e atitudes fazem uma enorme diferença e isto eu pude vivenciar quando saí de casa para correr o Circuito do Sol e, no ponto de ônibus, um senhor me ofereceu, gentilmente, uma bala, pelo que, devido a sua insistência, eu aceitei.

A conversa era sobre as mudanças climáticas e os cuidados com o  nosso bairro, os perigos dos alagamentos e os prejuízos causados pelas chuvas de verão, quando ele afirmou que, "Deus dispõe sobre tudo" e que, o que está acontecendo já estava escrito na Bíblia. De pronto, eu respondi que Deus dispõe, sim!, mas que, compete ao homem gerenciar o planeta e o seu destino.

Sem discordar do que eu havia falado, tirou o papel de sua bala e, naturalmente, jogou no meio fio, bem pertinho do ralo. Claro, aproveitei o exemplo, que ele mesmo estava dando, para lhe falar que "Deus dispõe, sim!, mas, temos que nossas atitudes, como aquela, de jogar papel na rua, colaboram com as enchentes e tudo o que elas trazem de prejuízos para o nosso bairro.

Tenho aprendido que tudo, dito com educação e gentileza, não fere, não magoa e, muito pelo contrário, cria uma atmosfera propícia ao diálogo, à mútua compreensão, pois não vivemos sozinhos e dependemos uns dos outros para a nossa sobrevivência.

Acho que aprendi a conviver com as diferenças ainda na minha infância, junto com a percepção de que dependemos uns dos outros para a nossa sobrevivência. Não bastara o fato de que os Roitberg, família originária dos Urais, da antiga União Soviética, chegara ao Brasil por conta de uma das diásporas que nos espalhou pela Europa, depois da Revolução Bolchevique, em 1917, ainda conseguimos sobreviver ao holocausto, à sanha de um dos maiores facínoras que a história conheceu, na Alemanha nazifascista.

Dos Roitberg, além do sobrenome, na certidão, carregamos este lastro de responsabilidade histórica e a sanha de sobreviver, e, no lugar do rancor pelo abandono pelo nosso pai, ainda crianças, um enorme orgulho de termos sidos criados e educados por nossa mãe, apesar de toda a falta que faz a falta de referência paterna, ato comum entre tantos outros homens no Brasil: ao abandonarem seus filhos, impõem todo o peso da responsabilidade, inclusive a financeira, ao encargo das mães.

Nossa mãe foi quem nos mostrou como dependemos uns dos outros e foi a primeira mulher a demonstrar, na prática, a necessidade de se fazer redes: sem recursos algum para sustentar sozinha seus 5 filhos, não hesitou em pedir abrigo às suas crianças aos amigos próximos, de Copacabana e parentes distantes, no Rio Grande do Sul, nos idos de 1960.

Assim que pode nos reunir, além das economias que conseguia costurando, passou a alugar vagas no  apartamento alugado onde morávamos, focada em nossos cuidados e alimentação, nos educando para que, segundo ela, todos fôssemos doutores. 

Claro que todos tivemos que contribuir não só nas tarefas domésticas, como, também, nas economias: assim que chegamos à adolescência - eu, com 14 anos - depois fomos da escola, fomos trabalharlhar para ajudar na alimentação e nos pagamentos das contas. Na época  havia a carteira de trabalho infantil e nem se pensava nos direitos das crianças, no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Ainda criança, além de eu e meu irmão nego, , entregavámos pão bem cedinho, depois da escola, expunha gibis na calçada para vender e, na praia, "fingia" ajudar os pescadores, da Colônia de Pesca do Posto 6, em Copacabana, puxando suas enormes redes para que, por generosidade, nos dessem algumas sardinhas que, junto com os mariscos da Pedra do Arpoador, tatuís que pegávamos na areia da praia e a xepa da feira, tivéssemos o básico da alimentação garantido ao que se somava os outros alimentos comprados no mercado.

Corridas de rua e, em especial, as de longa distância como as maratonas, na minha compreensão, é o esporte ideal para exercer a paciência, a observação e a escuta sensível e, apesar de ser uma prática esportiva individual, ela necessita, demais, de toda uma rede de apoio, não só da família, como, também, de amigos corredores, ou seja, maratona é um esporte coletivo e individual ao mesmo tempo. São elas que mais exemplificam as redes e o aprendizado pela experiência.

Cada treino, cada prova, cada corrida me permitem, como num laboratório, ao mesmo tempo sociológico e fisiológico, perceber cada detalhe que integra o meu corpo junto aos outros corpos, numa teia familiar e universal. Entre amigos e amigas novos e antigos, reencontros e encontros, além de toda a nossa complexa fisiologia, produção e equilíbrio, hormonal, incentivamo-nos e renovamos nossas esperanças naquilo em que acreditamos sejam quais forem os nossas crenças e ideologias.